Consultor Jurídico

Profeta do apocalipse

Ex-procurador defende "lava jato" e provável candidatura de Moro à presidência

Agora que está fora da alçada do Conselho Nacional do Ministério Público, o advogado e ex-procurador Carlos Fernando dos Santos Lima tem aproveitado para destilar veneno pela internet. Nesta sexta-feira (19/2), a revista crusoé publicou um artigo seu defendendo a "lava jato" e criticando a divulgação de conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e integrantes do Ministério Público Federal em Curitiba. 

Ex-procurador criticou divulgação de diálogos hackeados e defendeu "lava jato"
Otavio Conci

O inveterado defensor da "lava jato", que compôs a autointitulada "força-tarefa" de Curitiba, aponta nos outros condutas que marcaram a atuação do MPF em Curitiba: diz que há um grande complô envolvendo investigados, mídia e o presidente Jair Bolsonaro para "denegrir" Moro, fragilizando a possível candidatura do ex-magistrado em 2022.

"O objetivo é simples: criar um ambiente de justificação social para anulação do processo de Lula [...] Com isso, pretendem matar dois coelhos com uma cajadada só: recolocar Lula na disputa presidencial e denegrir Sergio Moro a ponto de justificar medidas contra ele — pois o medo de sua candidatura faz Bolsonaro, centrão e Lula unirem se contra ela", diz. 

Ao defender o seu ponto, Carlos Fernando repisa a fórmula lavajatista de susperestimar a importância de supostos crimes de corrupção para forçar um desgaste do meio político e montar um cenário de devastação, para então apresentar a si mesmo e aos seus (no caso, o então juiz-compadre Sergio Moro) como os salvadores da pátria.

Ele tenta criar um cenário catastrófico em que o combate à corrupção vai acabar. "Iremos caminhar para a aprovação de leis que vão permitir a apropriação pelos políticos de fatia cada vez maior do dinheiro público, seja para seus projetos pequenos e provincianos, na melhor hipótese; seja simplesmente para seus bolsos, como tanto foi revelado pela operação 'lava jato'."

"Irão anistiar crimes por eles mesmos cometidos, ampliar os fundos eleitorais e partidários, dificultar investigações de corrupção, derrubar a Lei da Ficha Limpa e de Lavagem de Dinheiro e tornar ainda mais ineficiente a Justiça Eleitoral. Iremos regredir 50 anos em 5, parodiando Juscelino", diz o ex-procurador, se arrogando ares de profeta do apocalipse.

Ele mostra que ainda não conseguiu elaborar suas obsessões da época de procurador: os trechos mais virulentos do artigo são os que ele ataca o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (que, ao lado de Toffoli, seria o ministro que "todo mundo quer pegar" e um dos alvos preferenciais dos procuradores, que rotineiramente se "esqueciam" que não podiam investigar ministros).

Diz Carlos Fernando que o ministro "balbucia palavras raivosas e cospe ódio contra as investigações de corrupção". Em seguida, se põe a balbuciar palavras raivosas e a cuspir ódio contra o ministro que defende a legalidade do processo: "Quando vejo a abominação que se tornou sua figura, sua sanha insultuosa contra Sergio Moro e sua gana persecutória vexaminosa contra a 'lava jato', sei que esta investigação estava do lado certo."

Gastão e falador
A especialidade do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima na chamada "lava jato" era fabricar notinhas para desmoralizar juízes que poderiam atrapalhar as investidas descabeladas do consórcio de Curitiba. Ele era o mais ativo "vazador" do grupo, o que lhe rendeu o apelido de "CFleaks", dado por Deltan Dallagnol — em alusão ao site wikileaks, criado por Julian Assange para vazar documentos oficiais.

Foi ele, por exemplo, que orquestrou o cerco ao ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, que assumiria a relatoria dos casos de Curitiba no STJ. O bombardeio contra o Dantas foi tão cerrado que o ministro desistiu do papel, o que deu a missão a Félix Fischer, como o grupo de Curitiba queria.

Outro cerco cujos resultados Carlos Fernando festejou foi o do desembargador do TRF da 2ª Região, Antonio Ivan Athié, que concedera Habeas Corpus a réus da apelidada "lava jato" do Rio de Janeiro e se recolheu diante do fuzilamento de Curitiba.

Outra proeza de Carlos Fernando foi sua habilidade para receber diárias do MPF reservadas a quem trabalha fora da base. Embora residisse em Curitiba, ele faturava as diárias como se vivesse em São Paulo. Lotado como procurador em Curitiba, foi promovido a Regional em São Paulo (PRR/3), onde nunca fixou residência. Com a instauração do teletrabalho, comparecia à capital paulista, eventualmente, em poucas sessões do TRF da 3ª Região.

Ele também já tomou bronca do Conselho Nacional do Ministério Público. Em janeiro de 2018 o CNMP recomendou que o então procurador deixasse de expressar opiniões sobre políticos, partidos e investigados pela operação. O objetivo era o de preservar "a integridade, a solidez, a isenção e a credibilidade com valores" de integrantes do MP.

Santos Lima se aposentou aos 55 anos do posto de procurador, que ocupava desde 1995. Ao deixar o Ministério Público, assim como fez Moro ao sair do Ministério da Justiça, foi atuar na área de compliance




Topo da página

Revista Consultor Jurídico, 19 de fevereiro de 2021, 15h41

Comentários de leitores

7 comentários

Ex procurador defende a lava jato

Adilson Baldin (Comerciante)

Belíssima matéria do Conjur, nos mostra como defensores da lei agem com abusos do dinheiro público, além dos abusos: perseguindo pessoas e fazendo politicagem conforme a VAZA JATO, por isso que JUSTIÇA DO BRASIL perdeu a credibilidade no Brasil e no mundo, como diz NEW YORK TIMES " a lava jato é o maior escândalo dos últimos tempos". a lava jato quebrou as empresas e aumentou o desemprego, sendo que o correto seria somente prender os criminosos sem fechar as empresas, o Brasil perdeu muito mais do que ganhou.

Um candidato honesto já é um bom começo

DAGOBERTO LOUREIRO - ADVOGADO E PROFESSOR (Advogado Autônomo)

A proposta do autor, que tem uma folha expressiva de vitorias na luta contra a corrupção, o que lhe rendeu, como rende, muita animosidade e agressões, não é de ser descartada, mas tendo em vista que é um projeto que encontrará sérios óbices e perigos de toda ordem.
Os corruptos, que são tratados por uma certa ala do STF como uma espécie em extinção, roubaram muito, em plena luz do dia, pois as defesas da nossa cidadela já foram rompidas há muito tempo. Então, nas campanhas eleitorais, juntam-se dinheiro surrupiado do Erário (bilhões e bilhões de dólares), recursos dos banqueiros e dos empresários, que se beneficiam de toda sorte de benesses do poder (isenção, sonegação livre etc), além do fundo eleitoral, que é usado sem qualquer controle.
E tem os acertos entre partidos e políticos: na última eleição, o dono de uma das siglas, que estava cumprindo pena em Curitiba, queria se livrar de ver o sol nascer quadrado, e, para tanto, alijou o candidato preferido do eleitorado, para impor uma figura que as pesquisas divulgavam que não teria condições de vencer o oponente, que, em decorrência, venceu o pleito com facilidade. Algumas rodadas após a posse do vencedor, eis que a sinistra figura em tela foi mesmo colocada em liberdade, numa demonstração de que, entre nós, o crime compensa.
Na eleição de 2014, o candidato que despontava como favorito, vejam só, morreu num desastre de avião, aliviando as oligarquias nacionais, que não queriam outra coisa.
Aliás, tudo o que as oligarquias querem elas conseguem, de uma maneira ou de outra.
Em suma, por falta de espaço, quero consignar que concordo com a proposta em tela. Governar um País é uma missão séria demais para ser deixada nas mãos da nossa apátrida classe política. E um candidato honesto é um bom começo.

Excessos do mp

Limago (Advogado Autônomo - Civil)

Se não fosse a intervenção do PGR Aras para acabar com a Lava Jato, transferido seus trabalhos para o Gaeco...certamente, o Poder Legislativo iria intervir e retirar atribuições do Ministério Público em nome de seus excessos...era uma questão de tempo! ⚖️

Ver todos comentários

Comentários encerrados em 27/02/2021.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.