Consultor Jurídico

O erro do hacker

Luís Roberto Barroso e Zanin negam que ministro tenha orientado Dallagnol

O hacker Walter Delgatti Neto, responsável que interceptou trocas de mensagens de autoridades pelo Telegram, afirmou nesta terça-feira (16/2) que o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, era próximo do procurador Deltan Dallagnol e chegou a orientar o trabalho do ex-coordenador da "lava jato" em Curitiba. A declaração foi feita durante entrevista concedida ao jornalista Joaquim de Carvalho, do Brasil 247

O ministro, que sequer tem conta no Telegram, rechaçou: "Isso é absolutamente falso", disse à ConJur — "Eu não tenho medo da verdade, quanto mais da mentira". O advogado Cristiano Zanin Martins, que representa o ex-presidente Lula e recebeu do STF direito de acesso ao material hackeado, confirma: "Do que li até agora, não há diálogo em que o ministro oriente o procurador".

Pelas petições levadas pela defesa de Lula ao STF até agora, Dallagnol, nos chats do Telegram, copiava e colava mensagens de outras origens para informar seus colegas. O ministro teria solicitado ao procurador informações e esclarecimentos para fundamentar seus votos, mas não orientado Deltan.

Hacker Walter Delgatti disse que Dallagnol e Barroso eram bastante próximos
Reprodução/TV247

Segundo Delgatti, "[Barroso] orientava [Dallagnol], inclusive era como se fosse um conselheiro. Ele [Dallagnol] contava o que estava acontecendo e pedia opiniões. Ele perguntava o que fazer, o que pegar de jurisprudência, como convencer o juiz do Superior Tribunal de Justiça. Inclusive, na época eles [os procuradores] pesquisavam muito a vida do relator dos casos do STJ, o Felix Fischer. Eles faziam uma análise de todas as decisões, do perfil, montavam uma peça encurralando e enviavam para a PGR". 

Ainda segundo Delgatti, Luiza Frischeisen, subprocuradora-Geral da República, contava aos integrantes do MPF no Paraná como estava o andamento dos processos da "lava jato" nas instâncias superiores. Os procuradores de Curitiba não podem atuar no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal. 

"Ela conseguia o que estava acontecendo e vazava para eles. Os processos disciplinares [de Dallagnol], ela enviava antes de chegar por meio oficial", contou. Ainda segundo o hacker, a "lava jato" em Curitiba buscava informações sobre magistrados do TRF-4, STJ e STF. O objetivo era acuar juízes, desembargadores e ministros. 

"O TRF-4, eles tinham conquistado já, o difícil estava sendo o STF. O STJ também. O Fachin ajudou bastante. Aquele vazamento do 'aha uhu, o Fachin é nosso'... Eles tinham medo de quem seria o relator [da "lava jato" no Supremo]. Com essa notícia, eles ficaram aliviados, porque sabiam que teriam o controle", disse em referência ao fato de Fachin ter se tornado relator da "lava jato" após a morte do ministro Teori Zavascki. 

CNN
É a segunda vez que Delgatti menciona a proximidade entre Barroso e Dallagnol. Em entrevista concedida à CNN em dezembro de 2020, o hacker também afirmou que o ministro auxiliava o procurador. 

"O Barroso e o Deltan conversavam bastante. Inclusive, o Barroso, em conversas, auxiliava o que colocar na peça, o que falar. Um juiz auxiliando, também, o que deveria fazer o procurador", disse na ocasião. 

Consultado pela reportagem da ConJur, a assessoria do ministro negou as afirmações de Delgatti:

"O ministro Luís Roberto Barroso integra a Primeira Turma, e não a Segunda, que é a competente para julgar os processos da Operação Lava-Jato. Ele jamais orientou qualquer procurador acerca de qualquer processo relacionado à operação. A afirmação é falsa."

Luiza Frischeisen, por sua vez, informou que, no Conselho Superior do MPF, entre 2017/2021, "só houve um processo em face do Deltan", no qual ele foi absolvido e não dizia respeito à "lava jato". "Além do que, em PADs, o investigado tem acesso desde o início na COGEMPF".

"Sobre processos do STJ, são públicos; oficio em matéria criminal junto ao STJ, fui coordenadora de distribuição da PGRSTJ e sou integrante da Nucrim PGRSTJ; faz parte dessas funções promover integração entre instâncias do MPF e também com Ministérios Públicos Estaduais, assim como advogados de escritórios trocam informações entre si sobre processos em que atuam em instâncias diversas", completa.




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Revista Consultor Jurídico, 16 de fevereiro de 2021, 20h35

Comentários de leitores

24 comentários

Querem abafar a Lava Jato!

Afonso de Souza (Outros)

Sim, o ministro Barroso está certo: “Não é esse o ponto, alguém ter dito uma frase inconveniente ou não. É que estão usando esse fundamento pra tentar destruir tudo que foi feito, como se não tivesse havido corrupção.”

A força-tarefa conseguiu que mais de R$ 4,3 bilhões foram devolvidos aos cofres públicos por meio de 209 acordos de colaboração e 17 acordos de leniência, nos quais se ajustou a devolução de quase R$ 15 bilhões. Foram ainda 278 condenações, entre as quais a do réu mais famoso.

As provas obtidas e compartilhadas com outros órgãos, como TCU, AGU, Receita, entre outros, possibilitaram o desenvolvimento de trabalhos em diversas outras frentes, contribuindo para a descoberta de outros crimes ou ações ilícitas. A Receita Federal, por exemplo, realizou lançamentos tributários de mais de R$ 22 bilhões.

A Lava Jato foi um divisor de águas no combate à corrupção no Brasil. Viva a Lava Jato!!

Lava Jato!!

Jose Neto 73 (Bancário)

Essa operação Lava Jato é um mar de lama!!! A cada dia fede mais!!! É preciso reparar os mal feitos e o STF julgar imediatamente o caso Lula e despachar de vez o Moro com suspeição. É preciso analisar caso a caso e quiça ingressar com várias ações contra esse "esquadrão da morte" chamado Lava Jato!!!

Lavo jato

Franciscaamaro (Outros)

Concordo em gênero número é grau

Lava jato

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

A Lava Jato vai estendendo os seus tentáculos.

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