Consultor Jurídico

Caso Cancellier

Morte de reitor após abuso da PF é tema de documentário na GGN

Um dia antes de se suicidar, o então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, foi ao cinema. Naquele 1º de outubro de 2017, estava em cartaz o filme "Polícia Federal: a lei é para todos", com um enredo que glamourizava o trabalho da delegada Erika Marena na operação "lava jato".

Esse e outros episódios serão apresentadas no documentário "Levaram o reitor: Quando o modelo lava jato adentrou uma Universidade", da GGN, que estreia na próxima segunda-feira (13/12), às 21h, desnudando a série de erros e abusos que precipitaram o fim trágico da vida de Cancellier e deixaram marcas indeléveis nas vidas dos envolvidos — exceto, até agora, para os perpetradores da violência institucional.

Cancellier foi preso em julho de 2017, junto com outros seis professores universitários, sob acusação de chefiar uma quadrilha que teria desviado R$ 80 milhões de dinheiro público da educação. A cifra, divulgada com estardalhaço, na verdade, correspondia ao total dos repasses para um programa de EaD ao longo de oito anos. Os supostos desvios, depois foi esclarecido, não chegavam a R$ 2,5 milhões. 

A operação foi chefiada pela mesma Erika Marena que é endeusada no filme sobre a PF. A prisão foi determinada pela juíza Janaína Cassol Machado, que saiu de licença um dia após a decisão. No dia seguinte, a juíza substituta Marjôrie Cristina Freiberger decidiu soltá-lo imediatamente por falta de provas. 

Mesmo solto, o professor continuou sem o direito de pisar na universidade durante o inquérito. Ele cometeu suicídio logo em seguida, em outubro de 2017. O inquérito, por outro lado, não apresentou qualquer prova até o momento.

O ato extremo do reitor colocou em xeque o método de investigação que havia se tornado praxe no Brasil: prende-se e humilha-se primeiro; ouve-se depois. Sob aplausos acríticos da maior parte da imprensa brasileira, era esse o modus operandi da comemorada "lava jato", replicado na investigação sobre supostos desvios de dinheiro público na UFSC.

O documentário foi concluído após 5 meses de investigação, pré-produção, produção, entrevistas feitas por videochamadas, edição e imagens. Os produtores analisaram milhares de páginas de peças judiciais de diversos órgãos — Tribunal de Contas da União (TCU), Controladoria-Geral da União (CGU), o inquérito da Polícia Federal, as denúncias do Ministério Público Federal (MPF) e os despachos da Justiça Federal, além de documentos de Fundações e outros obtidos pela investigação.

O resultado ficará disponível ao público na próxima segunda-feira, 13 de dezembro, às 21h, no canal da TVGGN no Youtube. O lançamento contará com um evento prévio, a partir das 19h, com a participação de juristas, acadêmicos e jornalistas.

Veja o trailer:




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Revista Consultor Jurídico, 9 de dezembro de 2021, 12h27

Comentários de leitores

5 comentários

Assim segue a justiça no Brasil

Tiago Alves Pinto (Advogado Autônomo - Criminal)

É triste ver operadores do direito agindo como leigos. Tratando o direito como uma pessoa comum trata, apenas no viés punitivista. Sem o devido cuidado que o ordenamento jurídico presa, desrespeitando princípios como contraditório e ampla defesa. Por esses motivos acontece atrocidades como essa do documentário.

Meu texto de repúdio ao abuso da pf

Um advogado de butuca (Advogado Assalariado - Administrativa)

A propósito da prisão e morte do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, leia meu texto “Repúdio a atos de tortura praticados em nome do Estado”, no link: https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/6244102

Eles suspeitam

olhovivo (Outros)

É corriqueiro ler na grande imprensa, no início de uma investigação, "a pf suspeita que...", "o mpf suspeita que..." e lançam versões atrativas para o espetáculo, tais como valores astronômicos ou, como virou moda, "suspeita" de pertenceram a "organizações criminosas". Por aí se vê como são maus profissionais, amadores irresponsáveis e mistificadores, cujo objetivo é aparecer (mesmo não sendo artistas de circo, mas semelhantes na essência) e difamar previamente o alvo, que talvez venha a ser inocente das "suspeitas". Mas os culpados maiores são os juízes que atuam como vaquinhas de presépio, caso contrário aqueles passariam a agir com mais profissionalismo. Aqui é a Banânia, porém.

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