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Locação por Airbnb não é residencial e pode ser vedada por condomínio, diz STJ

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Nos moldes em que funcionam, serviços de locação oferecidos por aplicativos como o Airbnb — hospedagem remunerada, com múltipla e concomitante locação de imóveis ou quartos por curto tempo e em contrato não regulado por legislação — não são considerados residenciais. Por isso, podem ser vedados por prédio residencial.

Decisão admite que, com base na convenção do condomínio, locações esporádicas e de curta duração sejam proibidas
Reprodução

Com esse entendimento e por maioria de votos, a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça negou provimento ao recurso de proprietários de três apartamentos de um edifício, contra decisão que determinou que eles se abstenham de oferecer alojamento e hospedagem mediante locação de quartos e prestação de serviços.

No caso, as locações foram feitas pelo Airbnb, aplicativo que conecta direta e virtualmente, anfitriões e hóspedes. Os demais condôminos reclamaram a alta rotatividade de estranhos, que ganhavam inclusive cópia da chave do portão de entrada, nas dependências do edifício.

Venceu o voto do ministro Raul Araújo, que retomou o julgamento nesta terça-feira (20/4). Ele divergiu do relator em voto que não aponta a natureza comercial dessa forma de locação, mas que afasta sua característica residencial, a partir de doutrina sobre o que se qualifica como residência (características que não se coadunam com eventualidade e transitoriedade).

Para divergência vencedora do minsstro Raul Araújo, locação de curta duração por Airbnb fere caráter residencial do prédio
Lucas Pricken

No caso concreto, a convenção condominial do prédio prevê expressamente que o uso das unidades deve ser residencial. Por isso, a locação por Airbnb no caso gera desvirtuamento de finalidade. Fica o condômino obrigado a dar aos seus apartamentos essa mesma destinação: residencial, exclusivamente.

Seguiram o voto divergente do ministro Raul Araújo a ministra Isabel Gallotti e o ministro Antonio Carlos Ferreira.

Ficou vencido o relator, ministro Luís Felipe Salomão, para quem proibir a exploração econômica do próprio imóvel afronta o direito de propriedade garantido na Constituição. Logo, a decisão judicial e o pedido do condomínio afrontam o exercício do direito de propriedade

Não participou do julgamento o ministro Marco Buzzi, que se encontra em licença médica.

Convenção de condomínio x Direito de propriedade
Durante o julgamento, os ministros ressaltaram que o caso não proíbe a oferta e uso de serviços por plataformas como o Airbnb, ou mesmo que, por meio dele, sejam fechados alugueis por temporada. O incômodo do condomínio foi exatamente com o oposto disso: a alta rotatividade de hóspedes.

A destinação econômica do apartamento não se confunde com atividade comercial, entendeu o ministro Luís Felipe Salmão
Gustavo Lima/STJ

A maioria entendeu que é possível a extensão dos poderes da convenção de condomínio diante do exercício do direito de propriedade. “Realmente, não se trata de uma destinação meramente residencial. Foge, portanto, ao permitido na convenção de condomínio, a qual estão vinculados todos os condôminos”, disse a ministra Isabel Gallotti, ao seguir a divergência.

Isso ocorre porque as possibilidades de uso e fruição de imóveis em condomínio vertical são mais restritas. Atividades que podem ser livremente exercidas em casas ou em imóveis comerciais podem afetar o sossego e a segurança de condôminos e, por isso, estarão submetidas a dia e horário próprios estabelecidos na convenção.

“A aplicação do Direito exige bom senso e equilíbrio, levando em conta que acomodação legislativa sobre o tema ainda levará algum tempo. A solução nos parece ser a previsão da proibição de hospedagem pela natureza do condomínio, definida na convenção. O condomínio estritamente residencial não se amolda a esse tipo de hospedagem”, disse o ministro Raul, no voto-vista.

Não será uma decisão judicial que vai resolver questão de amplo impacto, reconheceu a ministra Isabel Gallotti
Sergio Amaral

Vai adiantar?
Para o relator, a controvérsia do caso não se soluciona a partir do conflito entre direito de propriedade e direito de vizinhança. O ponto principal é: não é possível a proibição absoluta da cessão do imóvel sob o argumento do desvirtuamento da finalidade residencial do prédio. A destinação econômica do apartamento não se confunde com atividade comercial.

Para além disso, o ministro Salomão apontou que essa economia de compartilhamento — da qual o Uber é um grande exemplo — é fruto de avanços disruptivos da sociedade moderna, e disse que são como água: será impossível tentar represá-la para evitar que alcance o ponto em que já se encontra, inclusive.

“O que estamos fazendo aqui é primeira leitura dos aspectos legais e jurídicos, mas serão — e ainda mais com a circunstância da pandemia — inevitáveis os avanços. É melhor que possamos regrá-los para que não fiquem ao sabor e conveniência de burla ou acertos que virão”, indicou.

“Não será uma decisão judicial que vai resolver questão de amplo impacto”, concordou a ministra Isabel Gallotti. “Será necessária intervenção do legislador para transformar esse tipo de contrato que é realidade em contrato típico, dando mais condições de segurança a quem se dedica a esse tipo de negócio que tem, a meu ver, intuito claro de lucro”.

Ao fechar a votação, o ministro Antonio Carlos Ferreira ainda contestou se o caso forma precedente sobre a matéria. “Esse processo talvez não seja bom para extrair abrangência maior porque existem diversas formas e modalidades de locação: pode ser só parte do imóvel, locação integral, locação por temporada. E é indiferente a forma da oferta. Cada edifício tem uma característica própria”, disse.

Nota do Airbnb
Em nota o Airbnb declarou que "os ministros destacaram que, no caso específico do julgamento, a conduta da proprietária do imóvel, que transformou sua casa em um hostel, não estimulada pela plataforma, descaracteriza a atividade da comunidade de anfitriões. Além disso, os ministros ressaltaram que a locação via Airbnb é legal e não configura atividade hoteleira, e afirmaram que esta decisão não determina a proibição da atividade em condomínios de maneira geral. Proibir ou restringir a locação por temporada viola o direito de propriedade de quem aluga seu imóvel regularmente."

REsp 1.819.075




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 é correspondente da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Revista Consultor Jurídico, 20 de abril de 2021, 13h10

Comentários de leitores

5 comentários

Fiquem a vontade para entrar em contato comigo

Monica Dutczak (Outros)

A qualquer um que deseje ler a decisão em primeira instância basta entrar em contato comigo 051 99842-2345. Algumns pontos merecem ser mencionados. Palavras textuais do meu depoimento pessoal na audiência de primeira instância: ".......E PARA AGRADAR eu comecei a lavar roupa....." Foi cortesia, gentileza, agrado. Embora desde a decisão de primeira instância eu não tenha mais lavado roupas exceto lençõis e toalhas, que também são roupas, ainda hoje quando alguém pede o ferro de passar roupas, eu me prontifico para passar e não cobro por isto. Quanto AGREGAR VALOR, sou superhost e atualmente tenho 302 comentários que testificam de que meu atendimento agrega valor. Quanto a alugar quartos em meu apartamento para pessoas sem vínculo entre si, tenho estes anúncios postados no Airbnb. Pergunto; só eu não posso ou de agora em diante não haverá como atualmente há a possibilidade de alugar o que o Airbnb chama de "quarto inteiro"? Pensando bem não foi este o embrião do Airbn, quarto inteiro? Outro ponto, Se no Airbnb existe a possibilidade de cobrar por taxa de limpeza, isto não "prestação de serviço"? Terei Muito gosto em detalhar outros a qualquer um que queira.
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Segue anúncio do HOSTEL: https://www.airbnb.com.br/rooms/3041945?preview_for_ml=true

Home office pode???

J P O (Procurador da Fazenda Nacional)

Se for para adotar uma mentalidade restritiva, por coerência vão ter de proibir o Home Office nos prédios residenciais....

Intervencionismo Tupiniquim

Antonio sociedade civil em Segurança Pública (Prestador de Serviço)

Recentemente a casa dos deputados propôs um projeto de lei para estatizar os negócios de saúde pública.
Está claro que o constituinte de 1988 errou ao escrever que o Brasil é um país de regime capitalista, pois em nenhum regime dessa natureza existe tanto intervencionismo.
Interessante como a AirBnb responde no final do texto, pois ela ainda está na época do Direito de propriedade. Essa decisão mexe com o primário do direito de propriedade.

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