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Escritos de Mulher

O Brasil é ingovernável desde a descoberta

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Começamos como colônia de Portugal. Antes disso, nosso território era ocupado por tribos indígenas, que viviam bem, dentro de seus padrões étnicos. Depois da chegada de Pedro Álvares Cabral, instalou-se o caos que perdura até os tempos de hoje. O Brasil parece ingovernável desde sua descoberta. De lá para cá, 520 anos se passaram na mais pura confusão.

Os colonizadores entraram dizimando índios e estuprando índias, numa guerra de séculos, até hoje disputada. A independência do país veio em 1822, mas após a morte de José Bonifácio de Andrada e Silva e de nossa sempre lúcida e respeitada imperatriz Maria Leopoldina, dois cérebros imprescindíveis, o gigante começou a desandar feito manteiga. Dom Pedro I voltou para Portugal e Pedro II, ainda criança, tornou-se imperador, sob regência de seus tutores. Foi um homem inteligente, de quem podemos nos orgulhar, mas para não fugir à regra da desgraça nacional, acabou deposto por um golpe militar e exilado em 1889. A República se inicia com o marechal Deodoro da Fonseca, que logo deixa o cargo presidencial para Floriano Peixoto, outro marechal. As forças internas, sempre em conflitos gerados por interesses pessoais e de classe, impediram que a nação se desenvolvesse de forma harmônica, justa e segura. Nossa política alternou períodos de ditadura e de democracia até os tempos atuais.

Chegamos a pensar que poderíamos superar nosso atraso moral, intelectual e político quando findou a última etapa da ditadura militar iniciada em 1964 e Tancredo Neves foi eleito presidente do país. Um momento de esperança que durou pouco. Tancredo, um ex-promotor de Justiça de Minas Gerais, habilidoso político, sufragado pelo voto indireto, faleceu antes de assumir o cargo, gerando grande comoção nacional. José Sarney, o vice presidente eleito, assumiu o mandato desde o primeiro dia até o seu final, nos termos da lei e de um acordo que ele costurou com sabedoria. Naquela época, o otimismo nos trouxe a esperança de uma vida melhor, sem a repressão imposta pela ditadura, que havia destruído grande parte da nossa cultura, das nossas escolas públicas (com o desastroso acordo MEC-USAID), arrasando também a produção literária, musical, teatral e cinematográfica. Sob os destroços de 30 anos de obscurantismo, a reconstrução foi sofrida e precária. Atualmente, colhemos os frutos da ignorância, do atraso cultural e político e do gangsterismo que pareciam ter sido superados durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real, iniciado sob a regência do presidente Itamar Franco, um bom governo aliás, acabou com a inflação galopante e deu rumo à economia, valorizou nossa moeda e resgatou a confiança do povo em seus governantes, dando dignidade à nação. Despontaram grandes políticos, respeitáveis e bem preparados, como Ulisses Guimarães, Franco Montoro, Severo Gomes e José Serra, dentre outros. Mas a alegria durou pouco. Temos saudades das décadas de 1980, 1990 e 2000. Até 2010 ainda foi possível manter a esperança de consolidação do Estado democrático de Direito, mas depois fomos caindo novamente no abismo, decorrente da imortal política do toma-lá-dá-cá.

Adotamos um presidencialismo inconsistente, sem coalizão e dependente de medidas provisórias. Desde Fernando Collor, somos assombrados pelo impeachment, que vitimou também Dilma Roussef. Sofremos de instabilidade política crônica e, pior de tudo, não conseguimos obter resultados positivos duradouros. Politicamente, o país trabalha para atender a interesses pessoais, na base da barganha e da corrupção. O Brasil é ingovernável por falta de moral, de responsabilidade e de inteligência. Fatos absurdos e por vezes caricatos se sucedem nas altas esferas governamentais, envolvendo os três poderes da República, sem que se possa chegar a uma solução que beneficie a coletividade. Os contemplados são sempre os mesmos, já desde sempre beneficiados. Os políticos, na sua maioria, não conseguem exercer adequadamente. seus misteres, até por não se terem preparado eficazmente para isso. A nau sem rumo, lotada de passageiros, vai afundando na miséria, na ignorância e na na violência. Atualmente, retrocedemos a ponto de discutir se a Terra é plana, se as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, se meninos vestem azul e meninas vestem rosa, se devemos preservar o meio ambiente ou tocar fogo em tudo, se o termo "povos indígenas" merece ser execrado, se vamos passar a boiada e destruir o meio ambiente enquanto todos se distraem com as noticias da pandemia mais devastadora da história humana...
O obscurantismo medieval está de volta, ideias desumanas renascem das cinzas, a repressão à sexualidade torna a vigorar e as religiões assumem papéis reservados, por lei, ao Estado. Desenterra-se o Brasil ignóbil e cultua-se a ignorância, louvando-se o preconceito, a discriminação, as armas de fogo, o desrespeito, a prepotência e a injustiça.




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 é advogada, foi Promotora e Procuradora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Secretária Nacional dos Direitos da Cidadania do Ministério da Justiça, no governo FHC. É autora de sete livros, entre os quais "A paixão no banco dos réus" (ed. Saraiva).

Revista Consultor Jurídico, 23 de setembro de 2020, 8h01

Comentários de leitores

6 comentários

Nada Realmente dá Certo

PH Sabino (Bacharel - Criminal)

Realmente nada no Brasil dá certo, estava comentando um dia desses sobre motoristas de aplicativo, no mundo inteiro deu certo, mas no Brasil há uma grande incidência de crimes praticados por motoristas desse serviço pelo fato de que aqui tudo que se faz é com o intuito de se locupletar, levar vantagem, enganar... Nos dia dos pais minha esposa deixou uma mochila no "99" e 1 hora depois tentaram usar o cartão de crédito dela numa compra e, afirmo com 100% de certeza que foi o motorista... Detalhe, pela corrida foi dado ao motorista R$ 7 de gorgeta... Lamentável esse país onde os nossos próprios governantes servem como exemplo de mau caratismo...

Uma amiga

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

Uma amiga, conduzida por determinado motorista da UBER reclamou dele, diante da excessiva velocidade imprimindo o veículo, pois no trajeto, em três vezes, quase que ela não vive para contar a história.
Ele, simplesmente, disse que sempre dirigiu daquela forma e não iria mudar.

Não deu certo

carlos.msj (Advogado Autônomo - Tributária)

O Brasil é um país que não deu certo. Devolvam aos índios. Só assim pode ser que dê!

O problema é...O povo e seus dirigentes

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

O Brasil é o país do "Homem Cordial".
"Poucos conceitos se prestam a tamanha confusão quanto o de “homem cordial”, central no livro Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982). Logo após a publicação da obra em 1936, o escritor Cassiano Ricardo implicou com a expressão. Para ele, a ideia de cordialidade, como característica marcante do brasileiro, estaria mal aplicada, pois o termo adquirira, pela dinâmica da linguagem, o sentido de polidez – justamente o contrário do que queria dizer o autor.
A polêmica sobre a semântica teria ficado perdida no passado não fosse o fato de que, até hoje, muitas pessoas, ao citar inadvertidamente a obra, emprestam à noção de Buarque de Holanda uma conotação positiva que, desde a origem, lhe é estranha. Em resposta a Cassiano, o autor explicou ter usado a palavra em seu verdadeiro sentido, inclusive etimológico, que remete a coração. Opunha, assim, emoção a razão.
(...)
A expressão “homem cordial”, a propósito, fora cunhada anos antes, por Rui Ribeiro Couto, que julgou ser esse tributo uma contribuição latina à humanidade.
O problema surge quando a cordialidade se manifesta na esfera pública. Isso porque o tipo cordial – uma herança portuguesa reforçada por traços das culturas negra e indígena – é individualista, avesso à hierarquia, arredio à disciplina, desobediente a regras sociais e afeito ao paternalismo e ao compadrio, ou seja, não se trata de um perfil adequado para a vida civilizada numa sociedade democrática(http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/o_jeitinho_do_homem_cordial.html).
Seguindo o brilhante sociólogo Jessé Souza, é o brasileiro primitivo, emotivo e personalista. E acrescento: essencialmente corrupto.
O próprio ISOLAMENTO SOCIAL é a prova eloquente de nosso caráter

Brasil o país do futuro

Gisleine G Rozzi (Advogado Autônomo - Civil)

Desde da infância escuto dizer que o Brasil é o país do futuro, só que esse futuro vem sendo nos roubado por aqueles que são eleitos pelo povo, porque nossa política é feita de toma lá dá cá, não importa se o político é o juiz ou o palhaço, não consegue governar sem apoio dos demais, que na verdade é o toma lá dá cá, mas nós brasileiros não perdemos a esperança, de que um dia as coisas mudam e o voto é a nossa arma, “ Mil cairão ao seu lado, dez mil a sua direta, mas tu não serás atingido.” Salmo 91, esse é a Brasil.

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