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Recado das urnas?

Desidratação nas eleições desfez a ilusão da "nova política", apontam analistas

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As eleições municipais de 2020, transcorridas de forma tranquila mesmo durante uma pandemia, sinalizaram para uma desidratação do bolsonarismo em todo o país, segundo analistas políticos ouvidos pela ConJur. Não é possível cravar se houve uma derrota da chamada "nova política", um apelido para os movimentos que ganharam visibilidade no cenário eleitoral questionando o estabilishment, mas talvez seja razoável afirmar que ela nunca teve a força que lhe foi atribuída.

Segundo o cientista político Humberto Dantas, o principal empecilho para a assinatura do atestado de óbito da "nova política" é o fato de que ela não existe, ao menos não como um projeto coeso e indivisível. "O que se chama de 'nova política' é o movimento de diferentes segmentos da sociedade que, na esteira dos protestos de 2013, apareceram para tentar dar respostas a insatisfações generalizadas da população com relação à política. Não há uma nova política, há novas políticas."

Dentro desse universo, para Dantas, o que entrou em desuso nessas eleições foram as extremidades absolutas. "É claro que assistimos à eleição de alguns alucinados, mas isso sempre vai acontecer. Essa foi uma eleição ao estilo dos agentes do mercado financeiro: quando o mundo pega fogo, eles correm para a poupança e o dólar", resume.

"São três explicações: em primeiro lugar, na pandemia, os políticos com mandato tiveram que mostrar a cara e fazer o básico, já que o presidente não fez. Em segundo, as oposições não se organizaram. E, em terceiro, tivemos que ressignificar o papel do Estado e dos políticos nas nossas vidas", elenca, justificando a ânsia pelo retorno à normalidade.

Análise semelhante faz Rafael Cortez, cientista político e analista da Tendências, par quem as circunstâncias extraordinárias que ditaram os rumos das eleições de 2016 e de 2018 dificilmente se repetirão. Isso explica a impressão de que os eleitores teriam abandonado a "nova política" em favor da experiência e dos políticos profissionais.

Nas eleições de 2016, o lavajatismo estava em seu auge, de mãos dadas com a desconfiança da classe política; em 2018, uma facada acabou definindo os rumos da eleição para o Executivo, já que a dramaticidade do evento causou comoção suficiente para que a campanha presidencial se sustentasse em ativismo nas redes sociais.

"Desde então, houve um deslocamento das preocupações sociais. A pandemia trouxe à tona novamente o debate sobre razão, ciência, moderação, e foi surgindo uma série de demandas por ações que são difíceis para nomes associados à nova política", pontua o analista. Sem novas excepcionalidades, opina, é "pouco provável que o Brasil caminhe para um sistema em que recursos políticos não sejam importantes no resultado final".

Ele acrescenta que destino de certas figuras proeminentes da primeira onda de bolsonarismo em 2018, como Wilson Witzel, afastado do governo do Rio de Janeiro, e Carlos Moisés, afastado do governo de Santa Catarina, também foram aprendizados que os eleitores absorveram e levaram em consideração nessas eleições.

Junte-se a isso as mudanças nas regras eleitorais e um novo contexto de crise sanitária causada pela crise da Covid-19, e tudo volta a apontar para um favorecimento do status quo. "A campanha ficou escondida com as restrições de aglomeração, o custo para o eleitor se informar em relação ao processo eleitoral foi maior. Além disso, as regras eleitorais beneficiaram partidos maiores: com a proibição das coligações, as candidaturas ficaram fragmentadas. Tudo isso ajuda quem está buscando a reeleição", avalia.

O enfraquecimento do bolsonarismo, no entanto, não implica automaticamente no enfraquecimento político de Jair Bolsonaro como possível candidato à reeleição, segundo o cientista político e professor da FGV Sérgio Praça. Para ele, o resultado das eleições não "mandou um recado" aos políticos sobre a forma de correta de conduzir a administração pública, mas demonstrou em parte o enfraquecimento do movimento capitaneado por Bolsonaro.

"O movimento do bolsonarismo como força política que vai perdurar no tempo não é tão forte como se pensava", afirma Praça. "Foi muito baixa, pra não dizer nula, a capacidade de Bolsonaro impulsionar candidatos." Mas a eleição para presidente tem outra dinâmica, explica. "Não dá para descartar o Bolsonaro para 2022."

Já Humberto Dantas é mais cético quanto ao remanescente do capital político do presidente para as eleições presidenciais. "O Bolsonaro é um franco-atirador aos moldes de Stallone. Nos filmes dele, todo mundo morre, os amigos morrem, a humanidade é aniquilada, mas o Stallone continua em pé, segurando a bazuca, gritando na selva. E onde isso vai dar? Onde a política sempre foi feita, para o bem ou para o mal, por pior que ela possa ser", prevê. 

"Tem espaço para os radicalismos também na política tradicional. Talvez a política não precise de tanta novidade, mas só de um pouco mais de cuidado. Eu acho que é isso que estamos percebendo."

Por outro lado, para Adriano Oliveira, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), não é possível falar em uma derrota da "nova política", porque o conceito foi criado artificialmente para atribuir caráter coletivo à intenção do eleitor. "Amazonino Mendes venceu em Manaus, isso por acaso é o fim da velha política? Cícero Lucena vai ao segundo turno em João Pessoa (PB), Guilherme Boulos em São Paulo, a disputa está entre dois candidatos jovens aqui no Recife. Pode ser mera coincidência. Não vejo nenhuma intencionalidade para criar nova ou velha política", pondera.




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Revista Consultor Jurídico, 16 de novembro de 2020, 19h57

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