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Opinião

O pessoal é político: gênero, raça e classe em tempos de coronavírus

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A expressão do pensamento feminista cunhada por Carol Hanischi em 1969 com a publicação do artigo "O Pessoal é Político" sintetiza a maneira como as esferas públicas e privadas se relacionam na dinâmica dos conflitos sociais. Às vezes indicando um caminho para sua compreensão, outras tantas, representando a chave para solucioná-los.

A ideia de que os problemas pessoais são problemas políticos ajuda-nos a compreender, em tempos de pandemia, que é a doação de parcela de nossas liberdades individuais o que pode evitar o colapso dos serviços essenciais e nos permitir uma condição existencial que nos leve ao final dessa jornada com sanidade física, mental e política.

Mas será que a "dose" de sacrifício é igual para todos os segmentos da sociedade brasileira? Evidentemente não. O coronavírus, a princípio, parecia promover uma mudança no vetor das vulnerabilidades, visto que atingia eminentemente pessoas de classe social mais elevada, advindas de países cujo processo de contaminação se iniciara anteriormente.

Bastou o primeiro caso diagnosticado na Bahia vir a público, para percebermos que por aqui a coisa seria bem pior: em poucos dias a patroa diagnosticada após chegar da Itália havia transmitido para sua empregada doméstica e, esta, para sua mãe.

Se a crise gerada pela pandemia leva empresas a buscarem alternativas de sobrevivência econômica, o que dizer às mulheres que: chefiam 40% dos lares brasileiros; que suportam taxa de desocupação formal superior à dos homens; e em Salvador, segundo dados do IBGE (2018), representam 40% dos trabalhadores informais, 2,7% a mais que os homens?

Como é que se explica quarentena domiciliar a mulheres negras, chefes de família e trabalhadoras da informalidade, para quem o lar representa o lugar mais inseguro às suas vidas? Segundo Atlas da Violência 2019, enquanto a taxa de feminicídios de mulheres não negras teve crescimento de 4,5% entre 2007 e 2017, a taxa de feminicídios de mulheres negras cresceu 29,9%.

As mulheres são ainda aquelas que se encontram no front das profissões relacionadas ao cuidado e saúde, sem as quais os serviços mais essenciais hoje não se sustentam: enfermeiras e auxiliares de enfermagem, junto com médicos/as representam indiscutível grupo de risco, mas, indubitavelmente, são as duas primeiras categorias, diante das condições em que as unidades hospitalares funcionam no Brasil, as mais vulnerabilizadas.

Portanto, se é verdade que a pandemia nos leva a refletir sobre a fragilidade da nossa existência, há um composto estruturante público e privado de gênero, raça e classe que precisa ser considerado tanto na destinação dos apoios estatais emergenciais quanto na ressignificação das nossas relações familiares, comunitárias e de trabalho.

Não podemos tornar mulheres, negras, negros e pobres mais uma vez os alvos da seletividade de uma tragédia sem precedentes na nossa história.

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Firmiane Venâncio é defensora pública do estado da Bahia e doutoranda em Gênero pelo Programa de Estudos Interdisciplinares sobre Gênero, Mulheres e Feminismos da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Revista Consultor Jurídico, 31 de março de 2020, 6h34

Comentários de leitores

1 comentário

A quem realmente interessa todo esse alarde?

Antônio César Alves Fonseca Peixoto (Advogado Assalariado - Civil)

Enfim dão voz aos que colocam em dúvida tanta preocupação com a saúde pública. A quem interessa de fato todo esse alarde em torno do noss bem estar? Diariamente morre-se nas filas dos hospitais sem que o Poder Público se manifestasse com tanta ênfase. Por que não fazem campanhas maciças contra as calamidades públicas: Improbidade, ineficiência, injustiças de toda ordem? A propósito não tenho notícias de que os agentes políticos e demais servidores públicos tiveram alguns de seus privilégios comprometidos. Afora os servidores que lidam diretamente com a pandemia expondo suas vidas, com o que os demais estão contribuindo? Quanto mais os que estão em casa e em quarentena?
Lembro que muitos de nossos irmãos brasileiros têm mais medo da vida do que da morte. Há sim, inúmeros motivos para nos solidarizarmos uns com os outros, mas esse me parece bem pouco convincente. Seria porque o novo virus não faz distinção de pessoas? Causa espécie a alusão por alguns gestores públicos à preocupação de seus Estados com a vida das pessoas. Afinal, quem se importa?

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