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Pensamento progressista brasileiro perdeu a bandeira da ética, diz Barroso

"O pensamento progressista brasileiro perdeu a bandeira da ética. Sentiu-se obrigado a fazer isso por solidariedade. A consequência foi que a ética passou a ser o discurso da direita, quando a integridade vem antes da ideologia. Ninguém tem o monopólio nem do vício nem da virtude," disse o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, em entrevista exclusiva à TV ConJur.

"Hoje se criou no Brasil uma dualidade que nos faz mal. A gente tinha que ter um pacto de integridade. Estabelecida essa premissa básica. Aí você terá pessoas mais liberais, mais progressistas ou mais conservadoras, porque a democracia tem espaço para todo mundo. Mas a ideia de que você ser honesto é uma coisa de direita é muito ruim, é muito feia, e é uma tragédia para o país."

Segundo o ministro do STF, criou-se uma polarização no pensamento político e social que não é apenas um fenômeno brasileiro. "O mundo vive nesse momento três ondas que se superpõem: o conservadorismo, o populismo e o autoritarismo. Quando se juntam, você cria uma crise democrática, em que líderes são eleitos pelo voto popular com uma forte veia autoritária."

Um dos criadores do programa de pós-graduação em Direito Público da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Barroso diz acreditar que as democracias reduziram a pobreza, mas não a extrema concentração de riqueza. E esse desconforto tem levado instabilidade a países há até pouco pareciam viver uma estabilidade política, institucional e social. 

"Se você olhar o Chile, por exemplo, que foi o país da América Latina que mais cresceu nos últimos anos. Estive lá em julho. Tudo me parecia bem, pacífico, gente alegre. De repente irrompe uma inquietação, como é que eu a justificaria? Houve uma ascensão social. As pessoas se tornaram mais conscientes, mais exigentes e perceberam que a desigualdade era extrema. E reagiram a isso."

A partir desta quarta-feira (18/3) a TV ConJur veicula em seu canal no YouTube trechos da entrevista exclusiva concedida à revista eletrônica Consultor Jurídico, no último dia 10.

Leia aqui e aqui as entrevistas já publicadas e abaixo o primeiro vídeo da série:




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Revista Consultor Jurídico, 19 de março de 2020, 14h43

Comentários de leitores

11 comentários

Ministro Barroso

Hildebrando Evangelista de Brito (Advogado Autônomo - Civil)

Que me perdoem os críticos que me antecederam nos comentários, mas o Min. Barroso é um jurista de enorme saber jurídico, um grande humanista, um homem ético e de fino trato. É sempre um prazer ouvir seus votos e entrevistas, pois sempre demonstra sua preocupação com o futuro do país...!!
Parabéns eminente Ministro!!

Ética é para todos

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Sim, Min. Barroso, a ética deve ser universal e a base para todas as classes sociais, todas as ideologias, todas as religiões, todas as cores do arco-íris. Deve ser o "ponto alfa" de todas as sociedades. Antes de qualquer desacordo, devem estar de acordo sobre isso.

O fator classe média

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Em primeiro lugar, considero impressionante o simples fato de, em menos de sete minutos, o Min. Barroso dizer tanto. ainda estou refletindo sobre tudo o que ele disse, mas, num primeiro momento, penso que tanto a polarização (mundial) quanto a repentina sublevação popular no Chile, como disse o Min., e eu acrescentaria na França, com os coletes amarelos, tem uma explicação comum.
No plano político em sentido estrito, das lideranças políticas formais, partidárias, busca-se um partido, uma força política ou mesmo um político que apresente um discursos conciliador, capaz de estabilizar um centro político. Não está aparecendo tal pessoa, embora busquem diariamente.
Assim, penso que do ponto de vista político, em sentido amplo, o que explicaria tal polarização e repentinas "conscientizações" é o que eu chamaria de "fator classe média". Com isso eu gostaria de salientar que o desaparecimento da classe média cria duas classes antagônicas - os ricos e os pobres. Sem possibilidade de conciliação, pois uns vão querer exterminar os outros. Não duvidem, ainda que os ricos tenham tomado a iniciativa, nada garante que sairão vitoriosos desse confronto. A classe média sempre foi o "fiel da balança". O pobre sempre aspirou chegar à classe média e nela sempre se inspirou. O rico sempre manteve boas relações com a classe média. É justamente o desaparecimento da classe média que, repentinamente, faz o pobre perceber que nunca irá ascender socialmente. E o rico não tem nenhum traquejo para lidar com o Povo como a classe média. No que concerne ao identitarismo, penso que o Min. Barroso foi polido para não ofender , porém eu acho que foram os excessos do identitarismo que provocaram o fortalecimento da "onda conservadora".

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