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Embargos culturais

Numa e a Ninfa, um ensaio sobre a hipocrisia brasileira

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“Numa e a Ninfa”, de Lima Barreto, é um romance linear, que trata de um casal, Numa e Edgarda, em torno de quem circulam personagens que identificam a ordem política e social do início da República Velha. Há também indícios de uma inegável desordem moral. É o mundo da mediocridade. De todos os romances de Lima Barreto, “Numa e a Ninfa” é o que possui o maior corte de profundidade psicológica. O desfecho do livro é inusitado. É impactante. Provoca uma imediata releitura inconsciente de todo o texto. Tem-se um “flasback” involuntário, uma prestação de contas para a qual o leitor é conduzido pela trama narrativa de Lima Barreto.

Numa é de uma família pobre. Obcecado com a ascensão social, esforça-se muito e consegue frequentar a faculdade de direito. O anel de rubi e o diploma lhe garantem a posição de bacharel. Resolvido. Com o casamento (por interesse, não poderia ser de outra forma) casa-se com Edgarda, filha de Neves Coutinho, viúvo, um político muito influente. Edgarda era leitora fiel de Anatole France. Numa elegeu-se deputado, às custas das ordens do sogro. Edgarda escrevia os discursos para Numa, que lutava contra os inimigos do padrinho, que era seu sogro. Dependia integralmente da esposa. Aceitou inclusive ser traído. Não sobreviveria de outra forma.

Era o tempo das eleições a bico de pena, um tempo em que coronéis (inclusive de batina) determinavam o resultado dos pleitos. Desafetos que por algum descuido conseguissem mais votos eram degolados. Isto é, a votação não era reconhecida pela Comissão Verificadora dos Poderes, que o grupo no poder controlava. A Comissão foi substituída pela Justiça Eleitoral. Além de Victor Nunes Leal (Coronelismo, enxada e voto) o escritor sergipano Gilberto Amado também estudou o assunto (Eleição e Representação). Um tempo de elitismo, marcado por nacionalismo que não passava de forma disfarçada de romantismo. Uma irresponsabilidade. Ainda pagamos. Até quando?

Nesse belíssimo livro o leitor contempla uma descrição minuciosa dos vícios e costumes de uma sociedade que vivia de aparências. Lima Barreto denuncia a distribuição de cargos em troca de favores, a hipocrisia institucional, os privilégios dos militares, a injustiça (Lima narra um caso dramático, relativo à viúva de um bombeiro que pretendia receber uma pensão), o problema da fidelidade partidária, os conchavos políticos, a violência urbana que já sacudia o Rio de Janeiro, o pedantismo acadêmico e a fidelidade partidária (Numa sempre votava com o partido). Invocava com o montepio que beneficiava as filhas de militares, as viúvas que viviam em casas do Estado sem pagar aluguel e filhos que tinham colégios de graça. Não se conformava.

“Numa e a Ninfa” é um romance de crítica ao positivismo, ao bacharelismo, ao Judiciário, ao direito e ao modo como as leis eram discutidas e votadas. A principal função do governo era desagradar; exceto aos governantes, naturalmente. Há também reflexões sobre o papel da mulher na sociedade da República Velha. É de um personagem a lembrança de que “enquanto mulher parir, não há homem valente”.

Na opinião de Lilia Moritz Schwartz, competentíssima biógrafa de Lima Barreto, em “Numa e a Ninfa” o escritor “brinca com os pressupostos políticos falastrões, para quem os indígenas não passavam de inimigos internos, retardatários da natureza que deviam ficar bem longe da ‘civilização’”. Lima Barreto também denuncia o racismo; não como vítima, mas como analista social que bem sabia que uma sociedade racista é podre e diminuída, porque uma sociedade racista é imunda e desinformada. Não há raças. Somos seres humanos. Basta.

A galeria de personagens é uma recolha dos tipos da época. Numa (Dr. Numa Pompílio de Castro) é um velhaco, um arranjador de empregos. Um inoperante. Passou longos meses dormindo na bancada, era o deputado ideal, sua opinião era sabida com antecedência; era a opinião de seu sogro. Edgarda é uma mulher infeliz, para quem o adultério era também forma de sobrevivência, como o leitor poderá descobrir ao virar a última página do livro.

O general Bentes é o protótipo do ditador. Bastos é o chefe político, que nos lembra Pinheiro Machado, o caudilho gaúcho que mandou na política nacional, até ser assassinado por Manso de Paiva, no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro. Fuas Bandeira, diretor do Diário Mercantil, era também “professor de velocípede”. Xistoso, não? Em matéria de amor, era curioso, o Fuas “não conquistava, não namorava, não flertava, não amava: comprava”. Tinha um ar atrevido de pirata argelino.

O Lucrécio Barba-de-Bode é o exemplo mais acabado do servilismo sabujo. Há também o general Forfaible, cuja “jovem mulher empregava o ócio matrimonial fazendo visitas, correndo casas de modas, assistindo a sessões cinematográficas”.

Há também o Xandu, Ministro do Fomento Nacional, que está em todos os lugares, principalmente nos dias de hoje. Vangloriava-se de ter assinado, em único dia, 1.557 decretos. O Doutor Bogóloff é o estrangeiro aproveitador. Dona Alice era “virtuosa e casta; tinha, entretanto, as ridículas arrogâncias de nossa nobreza campestre – uma dureza e um certo desdém em tratar os inferiores, um sentimento de propriedade sobre eles e um séquito atroz de pequeninos preconceitos e superstições”. Era mãe do senador. E o que dizer de seu amante, o Dr. Felicianinho, pouco mais de 20 anos. Dona Alice orçava 70 anos. Por que nos assustamos com a diferença de idade, quando pende em desfavor da mulher, e raramente o contrário? Lembremo-nos de Chiquinha Gonzaga.

Penso que Lima Barreto também era um psicólogo. Demonstra, ao longo de algumas passagens, a deterioração das relações humanas. É o tema da rixa, que resulta em disputas inconsequentes entre pessoas que um dia se amaram. A rixa, nesse sentido, é pura manifestação de frustrações e decepções recíprocas. Lima Barreto é um turismólogo também; descreveu o bairro do Botafogo, como “aquele em que mais agradável é o amanhecer”. Uma carioca que festejava a cidade, ainda que confinado a seus bairros mais humildes. Nesse livro Lima Barreto além disso investiga o problema do plágio, até mesmo o plágio dentro do plágio: é o enigma da trama.

“Numa e a Ninfa” é uma leitura dignificante. Uma experiência estética saborosa. Um curso de sociopatologia brasileira. Uma rigorosa análise de nossos preconceitos. E um aviso. Lima Barreto sabia quem somos.




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 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 24 de maio de 2020, 8h00

Comentários de leitores

1 comentário

Numa e ninfa

O IDEÓLOGO (Cartorário)

Numa Pompílio é um político velhaco, arranjador de empregos, que se casou com Edgarda só para viver profissionalmente do genro. É o retrato da desordem de nossos costumes.
Qualquer semelhança com a atual realidade não é para se desencantar.

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