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Vacina contra o cinismo

Balaguer Callejón publica a agonia dos seus cartoons da quarentena

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Francisco Balaguer Callejón, um dos maiores estudiosos do Direito Constitucional do mundo, tem uma personalidade forte. É músico, poeta e tem uma coragem peculiar. Durante a quarentena, deu vazão a um outro talento seu. O desenho. O "cartoon", como ele define sua produção gráfica. Nessa empreitada, ele buscou captar a tristeza, o desespero. A agonia das pessoas perante a epidemia que varre o planeta.

Com traços delicados, humanistas, o cientista do Direito, mergulhou nos paradoxos surreais do quadro que vivemos. Das vísceras dessa crise, o granadino arrancou um grito entalado na garganta das pessoas que sabem o que acontece, mas não têm força para convencer a massa ignara da situação.

Valente, Balaguer cobra de quem votou em Trump e Bolsonaro a responsabilidade pelo agravamento da tragédia destes dias. Vai além, investe contra as corporações que dominam a comunicação de massa, hoje, que controlam o pensamento da humanidade, sem qualquer responsabilidade com o presente nem com o futuro.

Em suas próprias palavras, ele produziu "unas viñetas relacionadas con la epidemia para intentar hacer a la gente reflexionar sobre los problemas de nuestro tiempo y también para intentar dar un poco de ánimo en estos días tan difíciles".

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Seu esforço para ser otimista é monumental. Mas nesta meta ele se frustra. Não por culpa dele, claro.

Publicamos em duas partes, nesta quarta-feira (20/5), o "epílogo" de Balaguer e suas "viñetas", com link para o trabalho completo, evidência da agonia de um especialista em Direito, que vê esboroar à sua volta uma sociedade que, à maneira dos seres que se deixaram hipnotizar pelo flautista de Hamelin, cumpriram seu destino atroz.

Leia a primeira parte do texto de Balaguer e os primeiros desenhos de sua série:

A imagem e as palavras de Balaguer
Qualquer um que goste de pintura sabe que um quadro pode conter o universo em apenas alguns traços ou, ao menos, pode fazer com que vislumbremos através do olhar do artista.

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A combinação de desenho e texto que existe no cartoon é, dessa perspectiva, mais um defeito que uma virtude. Se você não é capaz de dizer algo com a imagem tem que recorrer ao texto e se tampouco assim consegue expressar adequadamente, tem que fazê-lo só com o texto, que é o que, definitivamente, estou fazendo com este epílogo, possivelmente porque não confio muito na minha capacidade de explicar com os próprios cartoons.

Essa falta de confiança é normal porque nunca havia feito cartoons antes. Embora tenha estudado desenho na Escola de Artes durante a adolescência, minha relação com a pintura terminou cedo e somente a retomei de maneira esporádica para fazer alguns retratos de amigos, publicados em Livros-Homenagem, a eles dedicados.

A única vez que me aproximei desse gênero foi há quarenta anos, quando era estudante de direito e preparei o roteiro e os textos para uns desenhos realizados por Juan Fernando López Aguilar, nas eleições para a Reitoria da Universidade de Granada nas quais apoiávamos o mesmo candidato.

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A quarentena me permitiu dispor de um tempo livre que não tive em muitos anos e um dia, por puro acaso, me pus a desenhar e elaborei cartoons que depois enviei a Andrés Sopeña e a minha irmã, María Luisa, entre outras pessoas. Tanto Andrés como minha irmã afirmaram que deveria publicá-las, assim que preparei outras tantas e em uma semana já estava tinha as cinquenta que serviram de base para este livro.

Não era a primeira vez que lhe enviava cartoons, porém antes haviam sido sempre de El Roto, uma de minhas principais fontes de reflexão em El País. Sem desmerecer meus outros ídolos, Forges, Peridis e alguns dos famosos artistas de The New Yorker, certo é que El Roto é quem costuma me surpreender com uma cartoon que explica tudo. Como aquela na qual um homem ia correndo muito rápido e dizia “não sei aonde vou, porém se paro para pensar, me passam”.

Um cartoon que poderia sintetizar minha biografia ou, no mínimo meu curriculum vitae, tão absurdo como o de tantas outras pessoas. A melhor que vi até agora sobre a crise sanitária foi aquela: “Sabemos tudo sobre o vírus e nada sobre o que significa”. Talvez tenha sido este cartoon o que me motivou a tentar dar minha própria explicação sobre o que significa o vírus. Para além das videoconferências que tive que ministrar nestes dias, as aulas gravadas ou as publicações de urgência em periódicos e em revistas acadêmicas. Não sei se consegui.

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O cartoon é um gênero muito delicado que às vezes nem sequer se formaliza como tal. Penso, por exemplo, na lápide de Groucho Marx, com o epitáfio “perdoem por não me levantar” que poderia ser um cartoon em si mesmo, ou na cena final de “Quanto mais quente melhor” de Billy Wilder: “Ninguém é perfeito”.

Por outro lado, a interpretação dos desenhos e dos textos pode ser muito diferente e, respeitando essa diversidade, estas linhas adicionais que escrevo a título de epílogo, têm também a função de expor minha própria interpretação de algo que já não me pertence, porque agora pertencerá às pessoas que as lerem e que decidirão livremente o sentido que devem lhe dar.

O que posso dizer é que em sua preparação encontrei certa terapia, que espero se estenda a quem vier a ler este livro, para uma época tão terrível de incerteza, dor e ira. É impossível se acostumar cada dia com a cifra de mortos que nos chega de todo mundo.

É impossível deixar passar a responsabilidade de quem apoiou Trump, por exemplo, ao vermos que ninguém menos que o presidente dos Estados Unidos induz ingestão de desinfetante em alguns seguidores que acompanhavam suas entrevistas coletivas.

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Em que estavam pensando aqueles que conduziram Trump à Presidência? Em que pensavam os que promoveram Bolsonaro? Que pensam agora de ter pessoas desse tipo no comando de seus países? Que pensarão quando todo o horror que nos espera terminar?

Essas inquietações são contempladas por alguns dos cartoons deste livro. Outras têm mais a ver com a situação geral derivada da quarentena, com a rotina e com os novos costumes que está produzindo. Algumas são dedicadas aos chamados “fiscais de varanda” que contribuem para diminuir um pouco mais o nível dos valores com os quais temos que enfrentar esta crise, com o linchamento moral de quem transita pela rua, ao ponto de insultarem pessoas dedicadas ao combate à pandemia que voltavam dos seus respectivos trabalhos.

Permitem-se julgar sem ouvir, condenar e aplicar a pena por si mesmos. Deste ponto de vista, a expressão “fiscal de varanda” não é muito apropriada, porque outros fiscais não se comportam da mesma forma num sistema democrático, estes sujeitos são simplesmente energúmenos que acossam os transeuntes e que deveriam ser punidos por isso.

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Também há cartoons dedicados às vítimas desta crise, esperando que lhes seja feita justiça e se honre sua memória no futuro, para tentar ressarcir a desolação e o desconsolo com os quais tivemos que lhes dedicar tantos adeus sem despedidas, tantas lágrimas sem testemunhas, tanta solidão e tanto vazio.

A maior parte dos cartoons está dedicada à crise sanitária como tal, que deve ser contemplada como parte de um processo e não simplesmente como uma situação produzida pelo mero azar de algo parecido a um “efeito mariposa” derivado do consumo de carne de animal silvestre numa cidade chinesa.

O vírus começa seu trajeto em que comeu esta carne, porém todo o resto fomos nós, a sociedade que construímos que ajudou a criar neste século XXI, como todas as renúncias que temos feito desde que começou o século em matéria de meio ambiente, pluralismo, democracia, direitos sociais, igualdade, liberdades essenciais frente às grandes companhias tecnológicas ou aos especuladores financeiros, definitivamente frente aos agentes globais.

Continua parte 2




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 é diretor da revista Consultor Jurídico e assessor de imprensa.

Revista Consultor Jurídico, 20 de maio de 2020, 21h32

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