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Covid-19: o Estado pode ser responsabilizado por omissão?

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Recentemente foi noticiado na imprensa que um grupo de parentes de vítimas do coronavírus entrou no último dia 10 com uma queixa contra as autoridades de Bérgamo, na Itália, por negligência e erros na gestão da pandemia da Covid-19, que matou mais de 34 mil pessoas no país. Tratou-se da primeira ação coletiva do gênero proposta na Itália.

Os autores da referida ação sustentam a omissão do Estado no tratamento dos pacientes internados em razão do coronavírus, razão pela qual deve ser responsabilizado.

Nesse sentido, surge a reflexão quanto à possibilidade de responsabilidade do Estado, no Brasil, por eventuais omissões praticadas durante a pandemia de Covid-19, isso porque o Direito Administrativo brasileiro adotou, como regra, a responsabilidade objetiva do Estado, nos termos do artigo 37, §6º, da Constituição Federal, salvo nos casos de omissão em que deve ser comprovada a omissão estatal.

Nos casos de responsabilização do Estado por omissão, conforme acima mencionado, vige a teoria da responsabilidade subjetiva do Estado, na qual, além da conduta, do dano e do nexo causal entre ambos, é necessário também comprovar a existência da culpa, na modalidade de negligência, imprudência ou imperícia.

No caso relatado na Itália, os autores da ação coletiva sustentam que o Estado foi negligente no atendimento dos seus familiares, tanto pela forma como foram tratados nas instalações hospitalares quanto pela forma como ocorreram os sepultamentos, como pela ausência de informações prestadas aos referidos familiares.

No Brasil, ainda não há ações nesse sentido, quer individuais, quer coletivas, no entanto, ante o modelo de responsabilização civil do Estado adotado, é possível que eventualmente possam vir a ser propostas ações nesse sentido.

Dessa forma, é importante discutir algumas das possíveis hipóteses que caracterizariam a responsabilidade civil do Estado por omissão em razão da pandemia de Covid-19.

Nesse sentido, uma primeira hipótese seria a ausência ou deficiência no atendimento médico das vítimas, ressaltando-se que, em se tratando de responsabilidade subjetiva, não se mostra suficiente apenas afirmar que houve deficiência no atendimento, já que a obrigação do Estado é dispensar um tratamento digno e eficiente a todos, no entanto não há como se garantir o resultado consistente no restabelecimento ou na preservação da vida, já que isso depende de fatores externos, fora do alcance de seus prepostos. Mas deve, sim, o Estado garantir a disponibilização de leitos, medicamentos e todos os outros tratamentos recomendados em protocolos nacionais e internacionais.

Um outro ponto, muito questionado pelos italianos, que também é dever do administrador pátrio, diz respeito à informação, tanto quanto aos dados estatísticos em relação à pandemia de Covid-19 como com relação aos pacientes hospitalizados, já que é direito dos familiares ter acesso às informações acerca do estado de saúde dos seus parentes.

Os exemplos aqui trazidos não trazem maior celeuma, ante a grande facilidade em se comprovar a eventual responsabilidade civil do Estado por omissão.

No entanto, há hipóteses que trarão maiores discussões no mundo jurídico, em especial pela dificuldade em se comprovar a culpa do Estado em qualquer uma de suas modalidades, a exemplo do caso de mortes causadas em regiões onde não haja saneamento básico, de comunidades indígenas para as quais não foram criados planos específicos para o combate ao vírus ou ainda no caso da ausência de ações direcionadas a grupo vulneráveis, como os moradores de rua, ou ainda pela falta de planejamento de ações de combate à pandemia de Covid-19.

Uma outra hipótese que também causará muitas discussões diz respeito ao óbito de detentos em razão de Covid-19, ainda que o Estado tenha garantido o atendimento médico adequado, mas em razão da sua condição de guardião, nos termos dos posicionamentos majoritários trazidos pelo Supremo Tribunal Federal acerca do tema.

Assim, podemos observar que ainda são muitas as questões e não temos respostas para várias delas, razão pela qual é possível concluir que o assunto ainda gerará muitos debates e possivelmente ocasionará uma rediscussão acerca dos limites da responsabilidade civil do Estado, especialmente na sua modalidade subjetiva, dentro de uma perspectiva de um novo Direito Administrativo o Direito Administrativo da crise.




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 é juíza de Direito substituta do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios, professora de Direito Constitucional e Administrativo da Escola de Magistratura do Distrito Federal–ESMA, especialista em Função Social do Direito pela Universidade do Sul de Santa Catarina–UNISUL e mestranda em Políticas Públicas pelo Centro Universitário de Brasília–UNICEUB.

Revista Consultor Jurídico, 27 de junho de 2020, 18h31

Comentários de leitores

1 comentário

O autor faltou mencionar decisão do STF sobre Covid-19

VASCO VASCONCELOS -ANALISTA,ESCRITOR E JURISTA (Administrador)

Por Vasco Vasconcelos, escritor, jurista e abolicionista contemporâneo. O Artigo em tela seria perfeito se tivesse mencionado
a decisão do Egrégio STF, que determinou aos Estados e Municípios brasileiros administrar a pandemia da COVID- 19, ficando a União responsável apenas por repassar os recursos financeiros para atender a assistência e o tratamento dessa pandemia. O que se viu foi uma roubalheira geral
dos recursos da União, com aquisição de equipamentos de EPI superfaturados.(A CRISE DA ABSTINÊNCIA) . Isso levou a PF entrar em cena para dar um basta na malversação dos recursos do erário. Não obstante, políticos inescrupulosos, mais preocupados com as próximas eleições, do que com a COVID-19, subindo em caixões e/ou fazendo o marketing das sepulturas, ao invés de dedicar realmente em salvar vidas, ou pelo menos debelar a pandemia. Talvez se tivesse cancelado o carnaval, a situação no Brasil seria outra.
Foi infeliz a decisão do Egrégio STF, que (DATA-VENIA), de forma equivocada , ter restringido as prerrogativas do Presidente da República, os poderes do executivo, em face do advento da pandemia da COVID-19, enfim que retirou de forma acintosa ,quase todo o poder do nosso Presidente Bolsonaro, e repassando para os governadores e prefeitos. Isso ficou patente a interferência dos Poderes. Então nobre articulista, se alguém não teve o tratamento humanizado, e/ou viu seus parentes partindo para outra esfera, em face a omissão/imperícia, tudo isso, é de responsabilidade dos respectivos dos governadores e prefeitos, excluindo assim o Presidente da República.

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