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Advogados dos EUA estão tentando imprimir política no DNA da banca

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Nos Estados Unidos, 26 dos 45 presidentes eram advogados. Atualmente no Congresso, 57 dos 100 senadores são advogados. Que os caminhos da advocacia e da política se entrelaçam com muita frequência, não é novidade. A novidade é que advogados começam a politizar, em certa medida, os escritórios de advocacia, assumindo posições políticas e defendendo causas abertamente.

Muitos advogados gostam de se envolver em política e ativismo, por natureza. Mas, alguns descobriram que podem fazer isso como modelo de negócios. É uma forma de fazer marketing, definir um nicho de mercado e de conquistar clientes – com o efeito colateral de perder alguns clientes também pela posição política que assumem.

Geralmente, o advogado ativista ganha clientes quando assume uma causa e a defende com vigor, consistência e persistência. Os clientes assumem que ele fará a mesma coisa por ele, se for defender sua causa na justiça. Assumem que é o modus operandi do advogado.

Às vezes, as coisas acontecem por caso – e não precisa ser algo realmente importante. O advogado Daniel Uhlfelder contou ao Jornal da ABA (American Bar Association), que tinha 400 seguidores no Twitter, por defender a causa “Praias da Flórida para Todos”, que combate proprietários que querem tornar privadas as praias em frente a suas mansões à beira-mar.

Um desses proprietários é o ex-governador de Arkansas, Mike Huckabee, que tentou tomar algumas medidas para excluir o público da praia em frente a sua mansão na Flórida. O advogado o atacou e ridicularizou no Twitter. Huckabee protocolou uma queixa contra Uhlfelder na seccional da ABA na Flórida. Ele deu, involuntariamente, grande notoriedade ao advogado, que passou a ter 100 mil seguidores – e ganhou alguns clientes novos.

A atuação política e a defesa de causas, através da mídia social ou de blogs, também resulta em conquista de clientes – e na perda de outros – por uma razão simples: as pessoas gostam de lidar com profissionais que pensam como elas (ou têm ideias afins) ou que compartilham valores e opiniões. E fazem restrições aos que estão do outro lado.

O advogado Luke Malek, de Idaho, disse ao jornal que toda vez que expõe seus posicionamentos políticos, sabe que as probabilidades são altas de ganhar e perder clientes. Malek disse que seu escritório já perdeu clientes ou teve de enfrentar a raiva ou a frustração de alguns deles. Mas, no final das contas, desenvolve fortes relacionamentos com os atuais e novos clientes, que aprovam sua atuação política.

Em um país predominantemente controlado por republicanos e democratas, o advogado Jeremy Green, de Brooklin, Nova York, decidiu promover as bandeiras do Partido Socialista-Democrata. Faz eventos, incluindo de levantamento de fundos para campanhas eleitorais. Em seus anúncios de emprego, ele informa o posicionamento político do escritório, para os candidatos saberem no que estão entrando.

“Alguns dos meus clientes gostam das minhas atividades políticas. Alguns me contrataram por causa disso. O bom de ter seu próprio escritório é que você não tem de se preocupar em ser abertamente o que você é”, ele disse ao jornal. Green estabeleceu um nicho bem limitado, mas que trouxe bons resultados.

O advogado Joseph Hoelscher, de Santo Antonio, Texas, disse que seu escritório adotou a prática de liberar todos os advogados para expressarem publicamente suas convicções, incluindo as políticas, e defender suas causas. Mas os recursos da banca só podem ser usados se a causa ou atuação política for aprovada por voto dos sócios.

As causas da banca incluem legalização da maconha, reforma da justiça criminal e questões ligadas ao bem-estar das crianças. “Da perspectiva de negócios, concluímos que elevar o nosso perfil não iria prejudicar a banca, porque nossas causas são alinhadas com nossa prática”, ele disse.

A nova atitude dos escritórios contraria, em parte, uma convicção de longa data nos EUA: “Não se discute política em namoro, em reuniões de família e no trabalho”.




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 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 23 de junho de 2020, 7h26

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