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No cenário de crise, torna-se imprescindível investir em governança

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A Covid-19 trouxe muitas lições para as empresas e a sociedade em geral, todos sabemos disso. Muito se especula sobre como será o comportamento do consumidor e das próprias empresas após a pandemia e as palavras de ordem parecem ser inovação e tecnologia. Sem dúvida. O aumento substancial das vendas por e-commerce e a necessidade do home office (teletrabalho) são ótimos exemplos para demonstrar o quão importante é o investimento das empresas nesse sentido.

Contudo, tão necessário quanto investir em tecnologia é dedicar especial atenção aos temas relacionados a governança corporativa.

Uma pesquisa aplicada pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), realizada no período de 27 de marco a 5 de abril do corrente, apontou que 90,2% das 205 empresas consultadas não estavam preparadas para enfrentar uma situação de crise como a da Covid-19 ou outras de magnitude semelhante. A mesma pesquisa apontou que 48,3% dos respondentes relataram que suas respectivas empresas não possuem políticas e procedimentos formais, aprovados pela diretoria e/ou conselho de administração, que visem a direcionar a atuação da organização durante períodos de crise [1].

O despreparo pode custar caro. A governança reúne e alinha a cultura de responsabilidade e visão estratégica da empresa, agindo como um "guia" que conduz a organização em busca da longevidade e engrandecimento de seu valor econômico. Uma governança anêmica pode ser comparada a suprimir o guia quando já se está no meio do caminho. Em meio a uma pandemia dessa dimensão, a ausência de diretrizes faz com que toda gestão seja comprometida e se coloque em xeque os valores e interesses da organização, que poderá sofrer abalos não só financeiros, como também jurídicos e reputacionais, este último de valor intangível.

Ademais, a pandemia acendeu um holofote sobre a responsabilidade social corporativa das empresas, um dos pilares em que se assenta a governança. Significa dizer que o compromisso da empresa com a sociedade da qual faz parte, está sendo cada vez mais notado por todas as partes interessadas, isso inclui funcionários, investidores e reguladores. Mais do que nunca, há uma preocupação com a forma como as empresas tratam seus funcionários e se os seus produtos e serviços estão ajudando a atender às necessidades da sociedade.

Notamos um maior engajamento das empresas nesse sentido durante a pandemia, mas é preciso afastar o oportunismo. Não basta fazer propaganda ou promover ações isoladas, a empresa deve incorporar ações de responsabilidade social em sua cultura por meio da criação de políticas e promoção de boas-práticas, compreendendo, inclusive, a pauta da inclusão e diversidade. Isso precisa estar no DNA da empresa.

As vantagens são muitas. A governança previne conflitos de interesse, confere propósito e transparência à gestão, descentraliza a tomada de decisão, melhora a imagem da empresa e da sua marca, gera maior visibilidade de mercado e, consequentemente, maior competitividade. Dando destaque à responsabilidade social corporativa, uma empresa socialmente responsável motiva seu público interno e externo. Internamente, por meio do employer branding [2], promove maior engajamento dos colaboradores e aumenta a retenção de talentos. No fim das contas, o importante é entender como os mecanismos de governança agregam tremendo valor para a empresa.

Por tudo isso, torna-se imprescindível investir em governança e incluí-la na agenda das empresas. É preciso fortalecer os seus mecanismos, especialmente neste momento de pandemia. A percepção que se tem hoje é de que o comportamento das empresas durante a crise vai impactar diretamente a sua reputação, portanto, o nível de governança e a promoção de responsabilidade social, dentro e fora da empresa, certamente serão levados em consideração pelos consumidores na hora de comprar e pelos investidores no momento de decidir onde aplicarão o seu dinheiro. A recomendação vale para qualquer empresa, grande, média ou pequena, de qualquer segmento, e em especial as startups, onde a fome por crescimento demanda a captação de investimentos para expansão do negócio.

 

[1] Trata-se da pesquisa "Covid-19 (Coronavírus), Gerenciamento de Crises e o Papel dos Administradores nas Organizações", publicada pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) em abril de 2020. A pesquisa na íntegra pode ser acessada pelo link <https://conhecimento.ibgc.org.br/Paginas/Publicacao.aspx?PubId=24211>.

[2] Employer Branding pode ser traduzido como a reputação da organização enquanto empregadora, definido pelas ações que esta empregadora promove para construir e manter uma imagem positiva da empresa não só perante os clientes finais, mas perante os próprios colaboradores.




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 é advogada empresarial, pós-graduada em Contratos Empresariais pela FGV-SP (GVLaw) e LLM em Direito Societário pelo Insper-SP.

Revista Consultor Jurídico, 21 de junho de 2020, 6h04

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