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Efeitos da pandemia da Covid-19 na vida dos 'concurseiros' brasileiros

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Vivemos um momento de incerteza face a um inimigo invisível, letal e comum a diversos países. Trata-se do novo coronavírus, cuja disseminação foi declarada como pandemia pela Organização Mundial de Saúde. No Brasil, os entes federados adotam medidas de proteção contra a proliferação do vírus, o que provoca cancelamento e suspensão de diversos concursos públicos.

No isolamento social, há pessoas aproveitando o tempo "livre" para intensificar os estudos ou dar início ao projeto de passar no concurso público. Muitos estão ávidos por dicas sobre como ser aprovado mais rápido. Imaginando a aflição que assola o coração dos estudiosos, apresentamos as presentes reflexões.

Para todo projeto, o importante é ser grato e feliz pela oportunidade de tentar. Independentemente de qual seja a pretensão profissional, se a intenção é boa, se houver amor, força de vontade e equilíbrio, o caminho do sucesso vai sendo revelado. No mundo dos concursos, não é diferente.

A aprovação do candidato no concurso público está baseada em comportamentos, norteados pelo que podemos denominar de quatro pilares da aprovação. Tais bases representam uma forma organização da vida dos candidatos rumo ao sucesso.

O primeiro pilar está relacionado ao comportamento individual, a uma atitude interna. Todos que se propõem a ocupar um cargo público têm vontade de estudar, alguns conseguem transformar o desejo inicial em hábito de estudo. Autocontrole emocional, otimismo, comportamento adequado e prioridade são fatores cruciais para a vitória do candidato.

É indispensável elaborar um planejamento pessoal, adaptar o projeto ao cotidiano. Todo ser humano é filho(a), mãe/pai, irmão(ã), namorado(a), amigo(a) de alguém, todos têm uma história, então viva e estude de forma equilibrada. Disciplina é bem diferente de desespero e nada é mais urgente que paz interior.

Manter foco é imprescindível, mas também não se pode colocar uma importância insustentável entre o estudo e os afazeres diários. Advertimos que o "peso" que cada um atribui ao projeto (assumir um cargo público) pode tornar a caminhada mais penosa e dificultar a aprovação. Nunca é demais lembrar que o concurso não é a única opção profissional da pessoa.

O segundo fundamento, de ordem comportamental, tem a ver com relações sociais. As pessoas próximas ao candidato devem estar cientes e envolvidas no compromisso. Os familiares, namorado(a), amigos seguramente serão atingidos pelo novo hábito (estudar diariamente). Sendo assim, o candidato tem o dever de explicar a situação aos entes queridos e pedir compreensão para esse período. Nesse contexto, é imprescindível um espaço reservado no lar para que se instale o "cantinho de estudo".

É pertinente não se contaminar com energias negativas. Não se recomenda, nesse passo, falar com todos indistintamente sobre o plano profissional, a evolução, as etapas percorridas. Os detalhes devem ser guardados e revelados aos que realmente importam e vão acrescentar. Sem laivo de dúvidas, o ciclo de energia que envolve a pessoa contribui para definição do estado de espírito, seja ao estudar, seja ao se submeter às provas.

As redes sociais são um forte aliado aos estudos, mas também podem representar um inimigo, quando utilizadas em demasia. É essencial ter contato frequente com outros "concurseiros", participar dos grupos de estudos, acompanhar professores, aulas, textos etc. De outro lado, para qualquer indivíduo é saudável conservar suas relações afetivas, os esportes e o lazer. Não obstante, durante a "caminhada", haverá momentos em que a necessidade de isolamento e a concentração no estudo deve ser integral. Enfim, adequado é permanecer comprometido e envolvido com pessoas, coisas e situações que agreguem, tudo com equilíbrio (chave do sucesso). Entretanto, precisamos alertar que o que serve um pode não se encaixar para outro, o que já nos remete ao terceiro pilar.

A terceira base de sustentação para aprovação em concurso público é o método de estudo. Acreditamos que a metodologia de estudo ideal vai sendo construída ao longo da trajetória. Não existe um mesmo método para todos.

Existem, sim, preceitos comuns a todos os candidatos e indispensáveis, podemos citar: um bom material de estudo (atualizado), decorar "letra de lei", entender a doutrina jurídica e analisar a evolução da jurisprudência; estudar as matérias conectadas, de preferência mais de uma por dia; organizar a rotina de estudo conforme edital; aulas expositivas preparatórias para concurso são essenciais para os iniciantes (direcionamento e conhecimento); revisão com qualidade, sem repetições desnecessárias; para cada fase do concurso há um método de estudo mais apropriado; e, por último, esteja sempre em contato com o estudo (nem que seja uma hora por dia). Registramos que nada é imutável, a forma de estudar sempre pode melhorar.

Traçadas tais premissas, salientamos que o método ideal é fruto do conhecimento pessoal, alguns precisam apenas ler e absorvem tudo de imediato; outros têm que escrever ou participar de aulas expositivas para assimilar o conteúdo. Desconfiamos muito quando uma outra pessoa propõe um método de estudo como ideal, inclusive, com definição da carga horária. Nesse aspecto, quanto ao período de dedicação diária aos estudos, consideramos que o tempo é sempre relativo e a quantidade de horas dependerá de quanto é prazerosa e produtiva a forma de estudar.

Cada indivíduo pode ser orientado, mas ao final o método ideal advém da própria percepção de como absorver melhor o conteúdo. É preciso ter maturidade intelectual, tentar e descobrir a melhor forma de estudar. Uma atividade indispensável para a prova objetiva (primeira fase) é resolver questões de concursos anteriores. Existe uma técnica que é simular perguntas de matérias diferentes daquelas estudadas no mesmo dia. Por exemplo, após uma leitura do Código Civil, seleciona-se questões de Direito Penal. Assim, o candidato enfrenta questões de assuntos estudados nos dias ou semanas anteriores, de modo que os fixa, revisando pelas questões práticas. No particular, aplica-se a lógica do "treino difícil, jogo fácil".

O quarto e último pilar refere-se aos testes reais. Compreendemos que a realização de provas de concursos faz parte da preparação, trata-se de necessidade premente e imediata. Há pessoas "fora da curva" que fizeram apenas uma prova e foram aprovadas. No geral, não é bem assim.

Não espere estar totalmente preparado para começar a se submeter às provas. Todos têm suas dificuldades, quanto antes as enxergar melhor. Uns concorrentes estão mais preparados e cada um tem o seu momento de perfeição. Certo é que ninguém está 100% preparado e qualquer um pode ser aprovado.

O ato de participar do concurso é primordial para o candidato ir se acostumando com o clima tenso da sala de prova, com aqueles minutos que antecedem a hora do teste e, principalmente, estar habituado a permanecer concentrado por 4 ou 5 horas resolvendo as perguntas de múltipla escolha. O candidato precisa aprender a não "brigar" com a prova, a não desconfiar do examinador e a perceber as "pegadinhas". Esses conhecimentos auxiliam na velocidade de responder os questionamentos, além de que muitas questões se repetem e o conteúdo é assimilado. Destarte, enfrentar provas de concurso beneficia a preparação. Aplica-se a lógica de que é errando que se aprende.

Por certo que a pessoa que tem como principal meta passar em concurso não pode desistir, mas não é menos certo é que o candidato vai duvidar (faz parte). Reconhecer a evolução, reavaliar o método e atitudes comportamentais também são partes deste processo de preparação. O segredo não é outro senão estudar. O ritmo estudo vira um hábito e a pessoa não para mais até lograr êxito.

A pandemia é uma força maior. Em razão do encolhimento do orçamento público, a dificuldade para realização de novos concursos certamente vai aumentar, todavia os cargos públicos não vão deixar de existir e novas vagas vão surgindo diuturnamente. No período de escassez dos certames, serão selecionados os vencedores, que são aqueles que vão manter a serenidade e a inteligência de se engajar ainda mais no projeto (a recomendação é ficar em casa e não há melhor lugar para estudar).

Vencida a pandemia, o "novo normal" trará consigo muitas vagas em cargos públicos, já que a Administração Pública é regida pelo princípio da continuidade dos serviços públicos (não pode parar). Apontamos, ainda, que a pandemia tornou evidente a necessidade de que os agentes estatais intervenham no auxílio da comunidade, em áreas diversas, tais como: saúde, segurança pública, assistência social, infraestrutura sanitária, dentre outras.

Oxalá que o distanciamento social provocado pela pandemia seja breve, bem como que rapidamente sejam remediados os efeitos nocivos da crise de saúde de importância internacional. Enquanto isso não se perfaz, o momento é propício para que todos comemorem a saúde e a vida individualmente e se concentrem em uma atividade produtiva, enriquecedora do conhecimento e da inteligência.

Assim sendo, refletimos que é maior a importância de cada um assumir o papel de transformador social, adotando a posição do outro para decidir dilemas e conflitos sociais e, assim, ao menos em seu espaço pessoal e profissional, ocupar a posição de um realizador do ideal de solidariedade e de alteridade.

Por tudo que vamos fazer, devemos ser felizes e gratos. Segundo especialistas, quanto mais grato é o indivíduo, mais feliz ele se apresenta. Muitos afirmam também que a felicidade pode ser um sentimento parcial e efêmero, ligado a bens e conquistas materiais, ou uma sensação plena e constante, independente de fatores externos. Em matéria de concurso público, a pandemia não pode ser motivo para declínio ou abatimento, pode sim ser utilizada como uma mola propulsora rumo à aprovação. Sabedoria é construir o caminho do triunfo com "rochas" de amor, gratidão e felicidade.

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 é juiz do Trabalho do TRT da 2ª Região (SP) e especialista em Direito Constitucional.

Revista Consultor Jurídico, 19 de junho de 2020, 6h35

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