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Segunda Leitura

Influenciar talentos é dever ético do profissional do Direito

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O jovem estudante de Direito era de família de poucas posses. Trabalhava o dia inteiro, mas nem por isso deixava de estar presente nas aulas a noite e de tirar excelentes notas. No trato com os colegas era cordial, solícito e bem humorado. Com os professores era respeitoso, não ia além dos limites que a boa educação recebida dos pais lhe permitia. Muito embora estivesse entre os melhores alunos, nunca reivindicou posições de destaque, como orador da turma e afins.

Veio a formatura, logo em seguida foi aprovado em um concurso para uma sociedade de economia mista. Ali fez a sua vida. Bem remunerado, pode desfrutar de boa moradia, automóvel novo e outras facilidades. Não deixou sua paixão pela música clássica de lado, a ela sempre se dedicou participando de exibições na sua cidade. Benquisto na sociedade, aposentou-se, conduzindo-se bem na trajetória e sendo, por isso, querido e respeitado.

Do caso real narrado, deve se concluir que correu tudo bem? Sim e não. Sim, se comparada a sua vida com a de tantos brasileiros, cheios de carência em diversos aspectos. Mas, se pensarmos até onde poderia chegar para o seu bem e do Brasil.

Mas, como isto ocorreria?

Simples. As pessoas, muitas vezes, desconhecem as suas qualidades, o seu potencial. Não submetidas a avaliação, consideram-se um a mais, talvez apenas mais dedicado. Não se pode culpá-las. É difícil conhecer os próprios limites, porque, simplesmente, não costumamos saber os limites dos outros.

Mas então, se do então jovem não foi a culpa por não ir além, a quem se pode atribuí-la?

Na minha opinião, aos professores do curso de Direito. Não aos pais, pois estes nem sempre possuem luzes que lhes permitam ver mais adiante. Regra geral, querem para os filhos estabilidade financeira e que deles permaneçam próximos por toda a vida.

Mas os professores podem ver além. Classes com dezenas de alunos permitem distinguir os que são inteligentes, mas não se dedicam aos estudos, os que ali estão para atender imposição dos pais, os que não tem interessem por nada além da cerveja do apinhado bar da esquina e os que reúnem condições para brilhar, seja qual for a profissão que venham a escolher na área jurídica.

Orientar todos, sempre que possível, é missão do professor, cujas tarefas vão muito além da sala de aula. Passar sua experiência aos que buscam seu destino, aconselhar os que se conduzem mal, os que estão no local errado, sempre é bom. Mas, incentivar os talentosos a alcançarem posição de maior destaque não é apenas um ato de solidariedade. É dever.

Voltando ao exemplo real citado, será que todos os professores que ensinaram aquele jovem tímido e respeitoso não perceberam que ali estava alguém com um potencial imenso? Não viram que dali poderia surgir um cidadão que em muito ajudaria a sociedade, o país? Não tiveram sensibilidade ou foram egoístas, no sentido de não ter interesse por terceiros?

Um professor percebe, facilmente, a vocação e talento dos jovens. Entre os mais destacados é possível distinguir o que tem vocação para ser um bom advogado, um defensor público, um membro do Ministério Público, um magistrado ou outra profissão da área jurídica.

Por exemplo, uma jovem que nos seus trabalhos e exposições revele sua preocupação social com os pobres, poderá fazer um excelente trabalho como defensora pública. Outro, que defende ardorosamente suas posições nos debates, pode visualizar um grande advogado. Aquela que prefere trabalhar individualmente, aplicadíssima nos estudos, pode ser uma pesquisadora de primeira qualidade.

Pois bem, o então jovem estudante tinha todas as características de um bom juiz. Estudioso, educado, cordial, conhecedor dos problemas das classes menos favorecidas, ali estava alguém a ser orientado a fazer um concurso para juiz de Direito. Faltou um professor amigo que lhe desse a mão e mostrasse que o destino lhe reservava mais do que a função conquistada na sociedade de economia mista.

Seria ele mais feliz? Esta é uma resposta difícil, porque felicidade é algo fluído, circunstancial, impossível de ser avaliado. Mas, com 90% de possibilidades, a resposta seria sim. Isto porque teria ampliado seus horizontes, feito amizades além dos limites de sua cidade, conhecido pessoas interessantes, colhido riquíssimas experiências de vida, ascendido socialmente beneficiando toda a sua família e aposentando-se com um rendimento bem melhor.

Mas, a ausência do passo a mais vai muito além da felicidade do personagem. Ela alcança a própria sociedade. Uma pessoa de bem, com todas as condições para exercer a difícil missão de julgar os seus semelhantes, ficou recolhida a um círculo restrito de amigos. Quem perdeu? Mas do que ele, a sociedade. O bem que faz uma pessoa preparada, vocacionada, equilibrada e bem intencionada, espalha-se pelos que a procuram ou a rodeiam. Na minha visão, a perda maior foi do Brasil e não dele.

Esta narrativa retrata a absoluta necessidade de se manifestarem, de serem ativos, daqueles que têm meios de influenciar a vida dos outros. A omissão não é sinal de respeito, mas sim de comodismo, falta de solidariedade ou até mesmo egoísmo. Cada vez que uma pessoa preparada não assume um cargo de mando, permitindo que outro, que almeja apenas a glória passageira do poder, o Brasil dá um passo atrás.

Portanto, professores – mas não apenas eles – têm o dever ético de orientar, estimular, auxiliar, aqueles que, além de poderem alcançar maior sucesso com as suas atividades, possam servir de forma plena ao Brasil. Mãos à obra, precisamos de bons talentos em posições estratégicas.

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 é chefe da Assessoria Especial de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, professor de Direito Ambiental e de Políticas Públicas e Direito Constitucional à Segurança Pública na PUCPR e desembargador federal aposentado do TRF-4, onde foi corregedor e presidente. Pós-doutor pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) e mestre e doutor em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Foi presidente da International Association for Courts Administration (Iaca), da Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) e do Instituto Brasileiro de Administração do Sistema Judiciário (Ibraju).

Revista Consultor Jurídico, 2 de fevereiro de 2020, 8h00

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