Consultor Jurídico

opinião

Antes de julgar um advogado criminalista, pense nisso

Por 

Quem conhece a minha história sabe que fui escolhida pela esfera criminal. Na faculdade eu acreditava que a minha grande paixão era o Direito Civil até me deparar com a prática criminal. Não tenho dúvidas de que as demais áreas também sofrem injustiças, mas, senhores, nada se compara com as injustiças envolvendo o nosso maior bem: a liberdade humana.

A esfera criminal é empatia e compaixão. É enxergar quem não é visto. É enxergar os odiados sem nenhum julgamento prévio e nem após. A esfera criminal é amor ao próximo. É uma área de atuação que envolve sentimentos tão nobres entre o advogado e seu cliente e, no entanto, fora dela está o lado sombrio, o lado do preconceito, o lado do julgamento, o lado da hostilidade.

Engana-se quem pensa que o lado escuro está na atuação do advogado criminalista, muito pelo ao contrário, o lado escuro está juntamente com as pessoas que se acham melhores do que as outras, com as pessoas que acham que possuem o direito de apontar o dedo ao próximo sem ao menos conhecer a sua história, com as pessoas que viram as costas quando o outro precisa de ajuda, com as pessoas que não fazem nada para ajudar, mas estão prontas para julgar quem está ajudando, com as pessoas denominadas "cidadãs de bem".

"Em time que está vencendo não se mexe". Com certeza você já ouviu essa frase, mas o que ela tem a ver com a presente situação? Hostilizar o cliente do advogado criminalista e propagar o mal em nada adiantou, mas apenas o excluiu mais da sociedade e, de certa forma, incentivou mais o Estado tratá-lo de forma indigna dentro dos presídios e delegacias. Esse ódio, rancor pelo outro, qual bem lhe trouxe?

O "time" dos preconceituosos e julgadores já perdeu, está mais do que provado que tratar pessoas de forma desumana apenas aumentará a criminalidade, aumentará a reincidência, caso contrário, da forma em que estamos vivendo, já era para estarmos vivendo em um mar de rosas.

Está na hora desse time ser alterado, tendo em vista que a sua atuação se mostrou falha, mas por que ninguém está interessado nessa mudança, além dos advogados criminalistas? Por favor, não diga que é em razão de pregarmos a impunidade e pelo fato de defendermos "bandido", até porque tal argumento também já se mostrou falho. 

Nós, advogados criminalistas, buscamos viver em uma sociedade harmonizada como qualquer outro cidadão, mas a diferença é que tentamos obter esse nosso objetivo ajudando quem normalmente nunca foi ajudado, tentamos tratar determinadas pessoas de uma forma que nunca foram tratadas, nós as olhamos com compaixão.

Portanto, você, "cidadão de bem", antes de desprezar qualquer advogado criminalista, tente deixar seu preconceito e julgamento de lado e enxergue a importância social e a nobreza da nossa profissão, pois, tenha certeza, não haverá ninguém além de nós que olhará para você quando em um miserável dia cair nas armadilhas do nosso sistema. Realmente, espero que jamais precise de nosso trabalho, mas se precisar, teremos misericórdia da mesma forma que temos quando defendemos o "bandido" de que tanto fala.




Topo da página

 é advogada criminalista e especialista em Ciências Penais pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

Revista Consultor Jurídico, 12 de dezembro de 2020, 9h13

Comentários de leitores

1 comentário

Rebeldes primitivos

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

Com a Constituição de 1988 foram enaltecidos os direitos em detrimento das obrigações.
Os "rebeldes primitivos", expressão emprestada do historiador marxista Erick Hobsbawm e adaptada ao contexto brasileiro, sufragados por intelectuais que abraçaram o pensamento do italiano "Luigi Ferrajoli, expresso na obra "Direito e Razão", passaram a atuar em "terrae brasilis" em agressão à ordem estabelecida, ofendendo os membros da comunidade.
Aqueles despossuídos de prata, ouro, títulos e educação especial, agredidos pelos rebeldes, passaram a preconizar a aplicação draconiana das normas penais, com sustentação no pensamento do germânico Gunther Jabobs, resumido no livro "Direito Penal do Inimigo". Acrescente-se, ainda, a aplicação das Teorias Econômicas Neoliberais no Brasil, sem qualquer meditação crítica, formando uma massa instável e violenta de perdedores, fato previsto pelo economista norte-americano, Edward Luttwak, no livro denominado "Turbocapitalismo".
Diante desse "inferno social" o Estado punitivo se enfraqueceu.
O STF em sua missão de proteção da sociedade, através da Constituição, recuou, e permitiu a saída das prisões de infamantes, apodrecidos e mentecaptos rebeldes primitivos.
Homicidas, pederastas, insinuantes estelionatários, latrocidas, feminicidas, retornarão com a autorização das autoridades ao convívio social para, mais uma vez praticarem "infames crimes".
Quanto aos assessores desses perdedores, os advogados, vibram com a criminalidade, com o caos, com as matanças, com as chacinas, nenhum desses criminosos imundos deixará de depositar no bolso de seus defensores, o objeto misterioso ($$$$$).

Comentários encerrados em 20/12/2020.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.