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Contribuição social

Supremo mantém cobrança de adicional de 10% na multa de FGTS

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É constitucional a contribuição social de 10% nas multas de FGTS em caso de demissão sem justa causa, prevista no artigo 1º da Lei Complementar 110/2001. Embora essa verba já tenha ajudado a União a fazer a recomposição das contas vinculadas ao FGTS atingidas pelos expurgos inflacionários dos Planos Verão e Collor I, é possível admitir a continuidade da cobrança.

Hoje em dia, cobrança serve para financiar programas como o Minha Casa, Minha Vida

Com esse entendimento, o Plenário virtual do Supremo Tribunal Federal negou provimento a recurso extraordinário interposto por uma empresa de Santa Catarina que pedia o fim do acréscimo de 10%. O percentual é cobrado em conjunto com os 40% a que o trabalhador demitido sem justa causa tem direito, mas a fatia fica com a União.

A recomposição das contas vinculadas ao FGTS atingidas pelos expurgos inflacionários foi determinada pelo próprio STF, no RE 226.855. O rombo era orçado em R$ 42 bilhões. Com a LC 110/2001, o objetivo foi alcançado em 2007.

A autora da ação apontou que a Caixa Econômica Federal afirmou, em ofício, que a arrecadação da contribuição está sendo remetida ao Tesouro Nacional, uma vez que as contas do FGTS já não são mais deficitárias.

A cobrança chegou a ser extinta pelo Congresso em 2013, mas a proposta foi vetada pela presidente Dilma Rousseff. No texto, ela afirmou que o adicional não poderia ser cortado pois seus rendimentos são usados no financiamento de programas sociais como o Minha Casa Minha Vida.

O fato de a verba ser utilizada para outra finalidade que não para a qual foi criada — recompor as contas do FGTS — foi o que motivou a interposição do recurso, que tramitou em repercussão geral. Prevaleceu o voto divergente do ministro Alexandre de Moraes, que interpretou a norma e concluiu que seu objetivo primordial não é o apontado pela empresa autora.

Segundo o ministro, a destinação da verba é a preservação do direito social dos trabalhadores previsto no art. 7º, III, da Constituição Federal, sendo esta sua genuína finalidade. Assim, a recomposição das perdas das contas do FGTS pelos expurgos inflacionários foi apenas uma das formas possíveis de cumprir esse objetivo.

Voto do ministro Alexandre entendeu que norma que institui a cobrança permanece legitimamente em vigor
Rosinei Coutinho/SCO/STF

"Disso se pode concluir que, a partir de 2004, tais receitas poderão ser parcialmente destinadas a fins diversos, desde que igualmente voltados à preservação dos direitos inerentes ao FGTS, ainda que indiretamente. Portanto, parece evidente que a referida contribuição, para qual o legislador complementar não atribuiu qualquer lapso temporal, permanece legitimamente em vigor", concluiu.

Divergência
Acompanharam o voto divergente os ministros Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Luiz Fux, e Gilmar Mendes. A tese definida pela maioria foi:

É constitucional a contribuição social prevista no artigo 1º da Lei Complementar nº 110, de 29 de junho de 2001, tendo em vista a persistência do objeto para a qual foi instituída.

Ficaram vencidos o relator, ministro Marco Aurélio, acompanhado pelos ministros Luiz Edson Fachin, Rosa Weber e Luís Roberto Barroso. Para eles, o objetivo primordial da arrecadação era realmente recompor as contas do FGTS em relação aos expurgos inflacionários. Exaurido o escopo da contribuição, esta perde automaticamente a legitimação constitucional.

"A exposição de motivos do projeto de lei que a originou relacionou o tributo umbilicalmente ao propósito de recompor as perdas das contas do FGTS sofridas ante expurgos inflacionários, considerados os planos econômicos Verão (1988) e Collor (1989), cumprindo determinação deste Tribunal no recurso extraordinário nº 226.855", ressaltou o relator.

Assim, o veto presidencial de Dilma Rousseff escancarou o redirecionamento do tributo para o programa Minhas Casa, Minha Vida. "Não pode o Estado, seja qual for a nobreza do pretexto, fugir ao desenho imposto pela Constituição Federal no tocante às características de cada espécie tributária", concluiu.

Para ministro Marco Aurélio, criação do tributo está umbilicalmente ao propósito de recompor as perdas das contas do FGTS
STF

Tema recorrente
A cobrança do adicional de 10% sobre o valor da multa foi alvo de ações diretas de inconstitucionalidade que tramitaram no Supremo Tribunal Federal e tiveram julgamento concluído em 2012 (ADIs 2.556 e 2.558). A relatoria foi do ministro Joaquim Barbosa. A corte entendeu pela constitucionalidade da Lei Complementar 110/2001.

Por outro lado, entendeu que "o argumento relativo à perda superveniente de objeto dos tributos em razão do cumprimento de sua finalidade deverá ser examinado a tempo e modo próprios". Foi o que ocorreu neste recurso extraordinário, com repercussão geral reconhecida pelo Plenário.

Clique aqui para ler o voto do ministro Marco Aurélio
Clique aqui para ler o voto do ministro Alexandre de Moraes
RE 878.313

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 é correspondente da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Revista Consultor Jurídico, 18 de agosto de 2020, 10h00

Comentários de leitores

4 comentários

E a tese do Simples?

Thör Carvalho - Gepp Advogados Associados (Advogado Sócio de Escritório - Tributária)

Para as empresas inscritas no Simples, ainda pode restar uma chance. É preciso esperar para ler a publicação da íntegra do acórdão, mas a princípio o julgamento de ontem no STF não enfrentou o argumento apresentado no RE 1.065.829/RS: de que, pelas redações do caput e do § 1° do art. 13 da LC 123/06, a contribuição social prevista no art. 1° da LC 110/01 não seria exigível das empresas inscritas no Simples Nacional.
O mencionado RE está suspenso no TRF da 4ª Região, aguardando o julgamento final do Tema 846.

Inacreditável

Marcelo-Advogado (Advogado Autônomo - Consumidor)

O STF muito tem surpreendido em decisões cujas matérias envolvam questões tributárias. Esse acórdão, que será redigido pelo divergente ministro Alexandre de Moraes, mostra o quanto é difícil empreender e contratar em um país como o Brasil. A multa de 10% sobre o saldo do FGTS foi criada unicamente para cobrir os custos com a condenação sobre os expurgos inflacionários dos Planos Verão e Collor I sobre o saldos de fundo de garantia. Daí que, com a recomposição do valor dispendido pela União, o adicional deixa, automaticamente, de existir, sob pena de claríssimo enriquecimento ilícito do governo e empobrecimento empresarial. Mas a tese prevalente, por incrível que pareça, tornou um "tributo" efêmero em permanente. O STF, mais uma vez, legislou tipicamente ao atribuir, sem lei autorizativa, nova destinação à malfadada multa. Depois os críticos de plantão não entendem o motivo de o Brasil não conseguir estabilidade política-econômica. O contribuinte, com certeza, tem todos os motivos morais e éticos para desconfiar de cada passo que o Legislativo, o Executivo e o Judiciário dão quando o mote é dinheiro!

Comentário Perfeito!

Leonardo Stein (Advogado Autônomo - Civil)

Lendo a notícia me vieram comentários a mente, mas lendo o seu, não tiro nem coloco nada.

Coberto de razão, infelizmente nosso país é uma piada.

Recuperações judiciais e falências

O ESCUDEIRO JURÍDICO (Cartorário)

Mais um encargo no "lombo" dos empresários.

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