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Morreu um grande brasileiro: Pedro Casaldáliga

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Morreu um grande brasileiro. O bispo da Igreja católica, Pedro Casaldáliga, que morreu na manhã deste sábado, em Batatais (SP), aos 92 anos de idade, nasceu numa cidadezinha da Catalunha, mas viveu uma vida inteira no Brasil e pelo Brasil. Pelos pobres e indígenas do Brasil. E lutou sua vida inteira para que os pobre e indígenas tivessem um país melhor para todos os brasileiros.

O bispo, que passou boa parte de sua
vida no Brasil, morreu aos 92 anos
Cefep/Reprodução

Não importa que, por ter nascido fora do Brasil e por ter contrariado os poderosos desse país, esteve a ponto de ser expulso do Brasil nas trevas da ditadura militar. Não aconteceu, mas se tivesse acontecido seria a ordem natural das coisas. Seu espírito libertário não combinava nem um pouquinho com ditadura.

Pedro Casaldáliga nasceu em Balsareny, província de Barcelona, em 16 de fevereiro de 1928, em uma família muito católica que logo, logo iria viver o drama da Guerra Civil espanhola e que colocaria o pequeno Pedro no lado errado da luta. Se pudesse escolher, Pedro certamente haveria de se alinhar com os republicanos progressistas e não com os falangistas conservadores e catolicos. O fato é que a guerra marcou sua vida muito cedo, causando grande sofrimento à sua familia, independentemente das opções ideológicas que ela tenha feito.  

Aos 24 anos, ordenou-se padre, da Congregação Claretiana. Formou-se em jornalismo e dirigiu a revista Iris, dos claretianos, foi professor de um colégio de padres, como costumavam fazer todos os padres naqueles tempos. E em 1968, mal completados os 40 anos, mudou-se para o Brasil.

Foi direto para o Brasil profundo. Estabeleceu-se em São Félix do Araguaia, no norte de Mato Grosso, que então era um estado único junto com Mato Grosso do Sul. Uma vastidão de terra dominada pelo latifúndio, que já naquele tempo começava o processa de expansão da fronteira agrícola para o oeste. Quem também ocupava a região eram os índios – Xavantes, Karajás, Tapirapés e mitos outros povos – já sofrendo então o impacto da nova economia que avançava por aqueles grotões.

 Em plena ditadura militar, envolveu-se logo com os movimentos sociais, na luta pela posse da terra, na defesa da causa indígena e dos direitos humanos. Ajudou a fundar o Cimi, o Conselho Indigenista Missionário, e a CPT, a Comissão Pastoral da Terra. Em 1971, foi sagrado bispo pelo papa Paulo VI. Ele que já não usava batina, adotou um chapéu de palha no lugar da mitra e um cajado indígena no lugar do báculo, símbolos do poder episcopal.

Junto com Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e Tomás Balduíno, de Goiás, e outros poucos hierarcas, lideraram a parcela da Igreja que não aderiu aos generais. Por isso nunca foi prestigiado pela cúpula católica nem pelo papa João Paulo II. Mas se tornou um herói da resistência ao autoritarismo e à repressão. 

A nomeação como bispo foi uma maneira de preservar o agitador social. Sua atuação e favor dos pobres e oprimidos lhe valeram inúmeras ameaças de morte. Matar um bispo não é o mesmo que matar um padre. Então mataram seus colaboradores, assim como morriam aos montes os pobres que ele atendia, de morte matada ou provocada pela doença e pela fome.

Em 1976, ao tentar defender duas mulheres que estavam sendo torturadas em uma delegacia de polícia, em Ribeirão Cascalheira (MT), foi assassinado o padre João Bosco Penido Burnier, que o acompanhava na diligência. Atiraram no padre que estava de batina, pensando que era o bispo. O último atentado ele sofreu já em 2012, quando atuava junto com os Xavante pela recuperação da Terra Indígena Marawatsede, no norte de Mato Grosso.

Foi um dos impulsores da Teologia da Libertação, o movimento dos padres progressistas que pretendia tirar a igreja da sacristia e levava-la às ruas em defesa da justiça social. Sua atuação provocou a ira dos militares que tentaram expulsá-lo, movendo cinco processos nesse sentido contra ele. A pressão nacional e internacional impediu que a medida se concretizasse.

Era um intelectual, escreveu 27 livros, incluindo poesia, teatro, religião, antropologia e sociologia. Em parceria com Pedro Tierra e Martin Coplas, escreveu a Missa da Terra Sem Males, uma cantata em memória do extermínio dos povos originários das Américas. Outros tantos livros foram escritos sobre ele. Sua vida é contada também no filme Descalço sobre a Terra Vermelha, do diretor espanhol Oriol Ferrer, disponível na internet, no site da TV Brasil.

Dom Pedro Casaldáliga morreu neste sábado, em Batatais em decorrência de complicações respiratórias. Ele sofria de mal de Parkinson, há alguns anos. Tinha 92 anos. Seu corpo será velado em Batatais, na comunidade claretiana da qual fazia parte, em Ribeirão Cascalheira, na igrejinha construída no local em que foi assassinado o padre Burnier, e em São Félix do Araguaia, onde ele morava e  fica o cemitério dos Karajás, em que pediu que fosse enterrado.

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 é diretor de redação da revista Consultor Jurídico.

Revista Consultor Jurídico, 8 de agosto de 2020, 18h55

Comentários de leitores

5 comentários

Grande Dom Pedro Casaldáliga I Pla

Élison Vieira (Advogado Associado a Escritório - Criminal)

Fica aqui minha reverência e meu sentimento de tristeza pela morte do Bispo Dom Pedro. Saiu do Mato Grosso para se despedir de nós, aqui em Batatais. É fácil ficar ao lado dos ricos e poderosos. A arma de Dom Pedro sempre foi a resistência pela voz e pela oração. Essa maldita ditadura que teima em voltar pelas mãos do inquilino do Alvorada, sempre terá adversários renhidos. Ainda mais agora, que há ao lado de Deus, um advogado pelas causas das minorias. Grande Pedro. Recepcionado por Deus.

Bispo de São Felix do Araguai Teologia da Libertação.

Renato Adv. (Advogado Autônomo - Civil)

Na verdade, o Bispo ora reverenciado e sua Teologia da Libertação, era mesmo, de tendência Comunista, que pregava o uso de armas para tomar terras dos que ele achava que não era o real proprietário. Em toda aquela região, existiam padres Italianos, Espanhois e Franceses, que acompanhavam grupos armados do MST invadindo e tomando as melhores terras mais próximas de fontes de água (Rios da Morte, Araguaia, São José e outros), usando armas de fogo, furto de gado etc. Essa, é pequena parte de historia que ocorria naquela região. Qual Interesse? Implantação de regime da esquerda, era essa a historia corrente à época na região. Lamentável mas faz parte da verdade.

O bispo guerrilheiro

Flavio l. Dutra (Prestador de Serviço)

Lá pelos meus 20 anos, cheio de ilusões e simpatias ideológicas pelos movimentos socialistas como a maioria dos jovens, eu sempre ouvia falar do Bispo guerrilheiro de São Félix do Araguaia. Era mítico nas rodas de conversas dos "revolucionários" de botequim daquele tempo.

Karl Marx no Catolicismo.

Osvaldir Kassburg (Oficial da Polícia Militar)

Que Deus tenha piedade da alma desse irmão.
Ele era mais um adepto da Teologia da Libertação.
É preciso dizer que a Teologia da Libertação foi condenada pelo Vaticano, é cria de Leonardo Boff, um ex-padre, pois foi banido da Igreja Católica.
Bispos e padres marxistas como Boff, são um mal do qual padece parcela significativa do clérigo catolicista.
A igreja católica que se banhou em sangue, matando tanta gente na fogueira durante a "Santa Inquisição", se imiscuiu com o Estado chegando a confundir-se com ele em certo período, responde atualmente a infindáveis acusações de pedofilia, etc., mas parece não ter aprendido com os equívocos do passado.
Continua se preocupando mais com a política que com a salvação da alma dos fiéis. A CNBB assume clara ideologia marxista tendo exercido papel decisivo na formação e atuação do MST, movimento que em qualquer país democrático minimamente sério seria declarado organização terrorista.
Não é difícil saber o motivo pelo qual essa Congregação Religiosa vem perdendo rebanhos inteiros de fiéis para as pentecostais e neo-pentecostais. De sofismas em sofismas, sob o argumento de combater a pobreza, prega e age para a implantação do comunismo, como se esse regime não tivesse multiplicado a miséria, além de ter promovido mortandade em massa de pessoas e desrespeito imensurável aos direitos humanos em todos os países em que foi implantado.
O mote para esse pensar e agir segundo a Teologia da Libertação é bonito e até comove incautos, no entanto o fruto dessa atuação político ideológica está aí, basta olhar para a Venezuela, e amanhã para a Argentina, que trilha o mesmo caminho.
“Quanto mais a sociedade se distancia da verdade, mais ela odeia aqueles que a revelam”. George Orwell.

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