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Opinião

Podemos sair do desastre humanitário da pandemia mais ricos como cidadãos

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Uma recessão mundial parece inevitável. E ela nos colherá após anos de recessão doméstica. Não virão tempos fáceis. Parece inevitável que todos ficaremos, ao menos temporariamente, mais pobres do ponto de vista material. Porém, na vida, tudo pode servir de aprendizado.

Sou convencido de que podemos sair do desastre humanitário da pandemia da Covid-19 mais ricos como cidadãos e, talvez, também espiritualmente. Para isso, procuro alinhavar uma agenda pós-crise, mas que já pode ser colocada em prática desde logo. Toda escolha dessa natureza tem alguma dose de subjetividade, mas eis a minha lista de propostas: integridade, solidariedade, igualdade, competência, educação e ciência e tecnologia.

A integridade é a premissa de tudo o mais. Ela precede a ideologia e as escolhas políticas. Ser correto não é virtude ou opção: é regra civilizatória básica. Não há como o Brasil se tornar verdadeiramente desenvolvido com os padrões de ética pública e de ética privada que temos praticado. Um pacto de integridade só precisa de duas regras simples: no espaço público, não desviar dinheiro; no espaço privado, não passar os outros para trás. Será uma revolução.

Solidariedade significa não ser indiferente à dor alheia e ter disposição para ajudar a superá-la. Ela envolve, para quem foi menos impactado pela crise, a atitude de auxiliar aqueles que sofreram mais. Como, por exemplo, continuar pagando por alguns serviços, mesmo que não estejam sendo prestados. Da faxineira à manicure. E, evidentemente, caridade e filantropia por parte de quem pode fazer.

A superação da pobreza extrema e da desigualdade injusta continua a ser a causa inacabada da humanidade. Vivemos num mundo em que 1% dos mais ricos possui metade de toda a riqueza. E num país no qual, segundo a organização Oxfam, 6 pessoas somadas possuem mais do que 100 milhões de brasileiros. A pandemia escancarou o déficit habitacional, a inadequação dos domicílios e a falta de saneamento, em meio a tudo o mais. Já sabemos onde estão as nossas prioridades.

Quanto à competência, precisamos deixar de ser o país do nepotismo, do compadrio, das ações entre amigos com dinheiro público. Aliás, uma das coisas que mais dão alento no Brasil é o fato de que, quando se colocam as pessoas certas nos lugares certos, tudo funciona bem. Há exemplos recentes, no Banco Central, na Petrobras, na Infraestrutura e na Saúde. Precisamos derrotar as opções preferenciais pelos medíocres, pelos espertos e pelos aduladores. É hora de dar espaço aos bons.

O déficit na educação básica - que é a que vai do ensino infantil ao ensino médio - é a causa principal do nosso atraso. No Brasil, ela só se universalizou 100 anos depois dos Estados Unidos. Elites extrativistas e incultas escolheram esse destino. A falta de educação básica está associada a três problemas graves: vidas menos iluminadas, trabalhadores de menor produtividade e reduzido número de pessoas capazes de pensar soluções para o país. Ao contrário de outras áreas, os problemas da educação têm diagnósticos precisos e soluções consensuais. Há tanta gente de qualidade nessa área que é difícil entender o descaso.

E, por fim, há a urgente necessidade de mais investimento em ciência e tecnologia. O mundo vive uma revolução tecnológica e está ingressando na quarta revolução industrial. A riqueza das nações depende cada vez menos de bens materiais e, crescentemente, de conhecimento, informação de ponta e inovação. Precisamos prestigiar e ampliar nossas instituições de pesquisa de excelência, assim como valorizar os pesquisadores. A democracia tem espaço para liberais, progressistas e conservadores. Mas não para o atraso.

Tem se falado que, depois da crise, haverá um novo normal. E se não voltássemos ao normal? E se fizéssemos diferente?

*Artigo originalmente publicado no jornal O Globo.




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 é ministro do Supremo Tribunal Federal, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), mestre pela Universidade de Yale, doutor e livre-docente pela Uerj e colaborador acadêmico (Senior Fellow) da Harvard Kennedy School.

Revista Consultor Jurídico, 13 de abril de 2020, 12h16

Comentários de leitores

8 comentários

Fato

JL ADVOCACIA CRIMINAL (Advogado Autônomo - Criminal)

Com a inteligência que lhe é peculiar, aliado ao texto anterior que escreveu sobre educação, este novo artigo se mostra, novamente, uma boa leitura, pena que aqueles que fazem politicagem não se interessam por aqueles que pensam, e esse é o abismo brasileiro. Infelizmente só ostentaremos o patamar de um ideario político a altura quando 80% do Congresso não estiver mais lá, e uma nova safra de políticos façam a diferença, com cátedra, inteligência e acima de tudo - honestidade.

"... não basta ser honesta, tem que parecer honesta"

J. Ribeiro (Advogado Autônomo - Empresarial)

A velha narrativa para boi dormir. A doença crônica deste país ainda continua sendo o "corporativismo" exacerbado.
Esqueceu ele de adentra no assunto que deveria melhor expor e criticar: a deficiência e as mazelas do Judiciário. O alto custo social, a baixa produtividade, a politicagem e a insegurança jurídica.
Deveria falar mais do seu quintal, como a extinção do TSE e TREs, TST e TREs, moralização das Cortes Estaduais, redução e adequação do STJ e a transformação e formatação do STF em Corte Constitucional.
Demais assuntos apenas repetiu o que os especialistas já há muito vem expondo.
Entretanto, quando alguém pretende moralizar a gestão publica, expor as feridas escondidas, procuram desesperadamente criar crise política utilizando as instituições corrompidas para tapá-las e esconde-las da sociedade.
A grande reforma e certamente será o maior legado do governo atual será a da Reforma Administrativa.

Ministro barroso

O IDEÓLOGO (Cartorário)

É um dos mais brilhantes Ministros do STF.
O seu pensamento é uma aula de cidadania.

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