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Embargos culturais

O Decamerão de Giovanni Boccaccio e a tragédia em forma de novela

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Ao longo da peste que dizimou Florença, no século XIV, dez jovens inspirados e criativos deixaram a cidade, isolando-se em um palácio, no qual passaram um tempo incontável objetivamente, referenciado por “dez jornadas”. Fugiram da realidade, como forma de sobrevivência. Esse tempo poderia ser figurativamente uma representação ideal de “dez dias”, de onde o título desse livro atemporal. “Decamerão” é neologismo, com origem na língua grega: deca (dez) e merón (dias)1.

Com a intenção de passarem as horas, do modo menos angustiante possível, dividem a responsabilidade de narrarem estórias. É como escaparam do destino. Em cada jornada apresentam dez narrativas. Ao fim, o leitor tem uma centena de deliciosos pequenos contos, cheios de ironia, de sensualismo, de anticlericalismo. São narrativas irreverentes. Há uma obsessão com amantes, traições, com embustes vários. Extrai-se das linhas gerais desses contos uma visão de vida e de (in)justiça, cética e realista, e ao mesmo tempo confiante no fim da tragédia. Pequenas estórias que divertem enquanto afastam o medo.

São narrativas primorosas. O autor, Giovanni Boccaccio (1313-1375) é ao lado de Dante Alighieri e de Francesco Petrarca um dos pais fundadores da língua italiana moderna. Ainda que conhecessem o latim, expressavam-se e escreviam em dialeto toscano, variante de um latim vulgar falado em Florença que se sobrepôs na Itália toda, como uma língua culta. Acrescentaria Nicolau Maquiavel.

Algumas narrativas anunciam o surrealismo das pinturas de Jeronimus Bosch (1450-1516) e, no século XX, o manifesto de André Breton, a paleta de Salvador Dalí e o cinema de Luis Bunuel. Há uma novela que descreve feitiço feito por um homem, transformando sua mulher em uma égua. Quando está a ponto de aplicar a cauda um compadre, afirmando que não deseja ver uma cauda na esposa do amigo, arruína o efeito de todo o feitiço. Em outro conto, uma senhora, amada, ao mesmo tempo, por dois homens, mas não tendo amor a nenhum deles, ordena que um deles, fingindo-se de morto, entre em uma sepultura. Pede que o outro vá lá retirá-lo. Ela se livra dos dois...

Em outra novela, três rapazes tiram as calças de um juiz, enquanto ele, na tribuna, expunha sua decisão. Derruba-se a seriedade da autoridade. Há também narrativas que retomam lugares-comuns. Dois homens amam uma mesma mulher. Prometem que o que morrer primeiro volta em sonho para contar como é a vida no além. Em outra, um sujeito ciumento, disfarçado de padre, recebe a confissão da própria esposa. Ela confessa que está apaixonada por um padre que a visita todas as noites.

Um marido tranca a porta da casa e deixa a esposa para fora. Não conseguindo entrar, a esposa faz um barulho fingindo ter se jogado no poço. O marido corre até o poço. A esposa entra em casa e tranca a porta. Em outra narrativa, a mulher de um médico coloca o amante em uma arca, supondo que estava morto. A arca foi roubada por dois agiotas. O amante acorda, havia tomado ópio, e é preso como ladrão e condenado à forca. A empregada da senhora revela o que ocorreu, o amante livrou-se da forca e os agiotas foram condenados a pagar uma multa em dinheiro. Um senhor deu de comer, à esposa, o coração de um homem que matou, e que era amante da esposa. Sabendo do fato a mulher suicidou-se, jogando-se de uma janela. Em seguida, foi enterrada ao lado do amante.

Há nessas narrativas a lembrança da irrelevância de problemas que em tempos comuns são considerados sérios e intransponíveis. Tudo é objeto de escárnio. Os personagens insinuam que, com o fim da peste, serão pessoas melhores, mais humanas e que terão cuidado para com o próximo. Duvido. Passado o perigo, retoma-se a vida, com todas as suas injustiças e inverdades. A peste de Florença não melhorou os florentinos, bem como todas as pestes e desgraças não tornaram o mundo um mundo melhor e mais justo. A memória histórica é frágil.

Tudo é muito passageiro. Passado o perigo, esquece-se que houve perigo. Ruy Castro, nas primeiras páginas de seu último livro, sobre o Rio de Janeiro do início do século XX, conta-nos com riqueza de pormenor a destruição causada pela gripe espanhola. Até o presidente da República, Rodrigues Alves, morreu daquela gripe, em janeiro de 1919. O carnaval seguiu a tragédia, não obstante tantas mortes. A vida continuou. Passada a tragédia, o mundo persistiu (e persistirá) como sempre foi. Não nos iludamos. O homem é o lobo do homem.


1 Dedico esse pequeno ensaio ao meu amigo Alberto Vespasiani, professor em Roma, a maior autoridade em Giovanni Boccaccio no campo de estudos de direito e literatura. Nos encontraríamos em evento acadêmico no mês que vem.

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 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 5 de abril de 2020, 8h00

Comentários de leitores

2 comentários

Belo texto !

Rejane G. Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Elegante maneira de dizer algo que eu também sempre digo. Lembrei de Gabriel Garcia Marques, uma passagem de "Cem Anos de Solidão", quando uma personagem "sobe aos céus", envolta em lençóis. Todos ficaram deslumbrados e, em seguida, uma mulher já reclamava da falta dos lençóis.

O lobo humano

O IDEÓLOGO (Cartorário)

Diz o texto: "Tudo é muito passageiro. Passado o perigo, esquece-se que houve perigo. Ruy Castro, nas primeiras páginas de seu último livro, sobre o Rio de Janeiro do início do século XX, conta-nos com riqueza de pormenor a destruição causada pela gripe espanhola. Até o presidente da República, Rodrigues Alves, morreu daquela gripe, em janeiro de 1919. O carnaval seguiu a tragédia, não obstante tantas mortes. A vida continuou. Passada a tragédia, o mundo persistiu (e persistirá) como sempre foi. Não nos iludamos. O homem é o lobo do homem".
"Homo hominis lupus. A frase em destaque significa “o homem é o lobo do homem” em latim. Tal sentença foi criada por Plauto, um dramaturgo romano que viveu no período republicano de Roma entre 230 – 180 a.C., aparecendo pela primeira vez em sua obra conhecida como “Asinaria”. Nessa obra, a variação escrita por Plauto se encontra da seguinte forma: “o homem não é homem, mas sim um lobo para com um estranho.” Aqui, o autor tenta exprimir um comportamento antropológico característico do ser humano — a capacidade que nós temos de julgar e excluir aqueles que não fazem parte de nosso grupo (http://ciencianautas.com/o-homem-e-o-lobo-do-homem/).

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