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Prisões inteligentes

EUA recorrem à inteligência artificial para monitorar telefonemas de presos

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Novas tecnologias, acionadas por inteligência artificial (IA), estão ajudando os administradores e carcereiros de prisões e cadeias dos EUA a monitorar milhões de telefonemas dos presos e, em certa medida, o comportamento da população carcerária.

Em outras palavras, o sistema prisional americano está montando um sistema de escuta telefônica inteligente que, muitas vezes, funciona em tempo real. O novo sistema substitui, em grande medida, o trabalho humano de escuta telefônica nas prisões, para o qual nunca há pessoal suficiente.

Os sistemas de inteligência artificial usam tecnologia de reconhecimento de voz, analítica de semântica e software de aprendizagem de máquina, para desenvolver bancos de dados de palavras-chaves pesquisáveis. Tudo é parte de uma revolução global em redes neurais, que permite entender a fala e montar bases de dados.

O software de aprendizagem de máquina pode aprender o “idioma prisional” – ou as gírias usadas pelos presos, que surgem periodicamente e que são diferentes nas diversas regiões do país. E então alimenta os bancos de dados com essas gírias, palavras-chaves e linguagens suspeitas, que, quando ouvidas, são transmitidas rapidamente às autoridades prisionais.

A LEO Technologies, uma das fornecedoras do sistema às prisões, emprega tecnologia de transcrição desenvolvida pela Amazon, bem como software de reconhecimento facial. São recursos que são usados nas prisões, mas também vêm expandindo a capacidade de vigilância do governo em outras áreas, segundo os defensores da privacidade dos cidadãos.

O sistema, que está sendo implantado progressivamente em todo o país, já ajudou as autoridades policiais a decifrar crimes não resolvidos, a impedir a ocorrência de novos crimes e a conter a violência, o contrabando de drogas e tentativas de suicídio dentro das prisões e cadeias, de acordo com a ABC News.

Tradicionalmente, os presos são avisados sobre a escuta telefônica e a gravação das conversas. Mesmo assim, eles deixam escapar uma grande quantidade de informações incriminatórias, que são encaminhadas às autoridades prisionais, policiais e a promotores. Além disso, o sistema coleta informações sobre crimes que poderão ser cometidos.

Um exemplo é o de um preso ensinou sua mulher, por telefone, como contrabandear uma substância proibida para a prisão. Ela deveria dissolver a droga em água e usar um pincel de maquiagem para fazer um desenho no verso de um cartão postal. E, depois, mandar o cartão postal pelo correio.

Também por telefone, outro preso pediu a parceiros em liberdade para contrabandear narcóticos para a prisão nas solas de sapatos ortopédicos, que foram prescritos a outro preso por um médico.

Com seu sofisticado sistema de escuta telefônica, os carcereiros descobriram que um preso estava operando um esquema de prostituição, baseado em tráfico humano, de dentro da prisão. Em um telefonema, ele orientou um comparsa sobre o que fazer com uma de suas vítimas. As informações obtidas foram suficientes para a polícia prender o comparsa e libertar a mulher.

Em outro episódio, a polícia apreendeu o carro de um criminoso ao prendê-lo na rua. Na prisão, ele ligou para um familiar e pediu a ele para ir ao depósito da polícia e retirar uma maleta que estava dentro do carro. Ele explicou que a maleta continha cocaína, heroína e medicamentos proibidos. Ele passou ao familiar o código para abrir a maleta. A polícia chegou antes ao depósito, pegou a maleta e nem precisou abri-la à força, porque tinha o código.

As administrações das prisões colocam investigadores e usam presos informantes para aprender a linguagem e as táticas dos presos e, então, atualizar o sistema. Mas os presos são muito criativos, e quando há uma intervenção eles surgem com uma forma de contorná-la.

Apesar de terem dinheiro para implementar o sistema, que custa de US$ 500 mil a US$ 600 mil por ano a uma prisão com mil presos – e que alimenta uma indústria de US$ 1,2 bilhão para monitoramento de telefonemas – as autoridades ainda não descobriram como resolver um antigo problema: como impedir o contrabando e o uso de celulares nas prisões.

O Departamento de Justiça vem buscando há anos uma tecnologia que possa detectar o uso de celulares contrabandeados nas prisões, mas nunca encontrou um método custo-eficiente de fazê-lo e que não provoque consequências indesejáveis, como a de bloquear os celulares dos civis que moram em áreas próximas à prisão.

Organizações de direitos civis também estão combatendo a implementação do sistema em cadeias, onde são colocados os réus à espera de julgamento. As cadeias abrigam, em maioria, réus que não têm dinheiro para pagar a fiança, diferentemente dos réus ricos, que podem pagá-la. Dessa forma, o sistema pode obter informações incriminatórias de réus pobres, mas não as de réus ricos.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 29 de outubro de 2019, 7h04

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