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Embargos culturais

A ira de Aquiles e a astúcia de Ulisses para os nossos dias

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Não se sabe exatamente se Homero (de algum modo o antepassado mais distante da literatura) teria existido de fato ou não. Imagina-se um poeta cego e errante. Homero é sinônimo de poeta, de tradição, de cânone literário. É muito provável que os poemas a ele atribuídos sejam o resultado de longa tradição oral: eram recitados pelos rapsodos (trovadores) que vagavam pelas cidades gregas cantando glórias e batalhas em forma de versos polidos em uma linguagem artificial e sofisticada. É a teoria coletivista. Memorizavam os cantos. Por isso, uma métrica tão consistente, são versos hexâmetros (seis sílabas) que facilitam a mnemônica.

A tradição atribui a Homero a autoria da Ilíada (que narra o fim da guerra de Tróia) e a Odisseia (que conta o retorno do guerreiro Ulisses para seu reino, Ítaca). A Ilíada centra-se em Aquiles (e em sua ira). A Odisseia centra-se em Ulisses (enfatizando sua astúcia). São poemas memoráveis. Aquiles é passional, suas reações são explosivas, é um tipo sanguíneo. Aquiles é um colérico. Ulisses é racional, reflete, pensa, sabe o momento certo para falar, o que falar, o que não falar, é moderado. Como se lê no Canto XX da Odisseia, “consegue conter os impulsos e medita”. Mente, se necessário. E se não for necessário, mente também. Dissimula. Inventa. Distorce palavras e fatos.

Héris, a deusa da discórdia, por não ter sido convidada para uma festa no Olimpo, lançou entre os convivas um pomo de ouro, com a inscrição: para a mais bela das deusas. É o pomo da discórdia. Atenas (sabedoria), Afrodite (beleza) e Deméter (agricultura) disputaram o título. Os deuses se negaram a escolher. Chamaram um mortal, Páris, filho de Príamo, rei de Tróia, para que indicasse qual das deusas era a mais bela. Afrodite o subornou, prometendo a mais bela entre as mortais. O juiz aceitou a prebenda. Um caso para o Conselho Nacional de Justiça.

A mais bela era Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta. Recebido pelo rei espartano, em cujo palácio foi alojado, Páris, o príncipe troiano, seduziu e raptou a mais bela das mulheres que já houve. O marido ensandecido reuniu exércitos de toda Grécia. Ainda que julgando-se traído o marido apaixonado sublimou a dor justamente porque confiava nos anos que devotou a esposa que se foi. Os gregos foram lutar em Troia, hoje no norte da Turquia. Agamenon, irmão de Menelau, cometeu o desatino de provocar Aquiles, tomando-lhe uma companheira.

Aquiles, enfurecido, recusou-se a lutar ao lado dos gregos, sabendo que era o mais bravo e feroz entre os guerreiros. Sua mágoa não tinha limites. Depois de muita insistência, indicou para substituí-lo um amigo, Pátroclo, a quem emprestou sua armadura. Seu escudo continha inúmeras alusões. Heitor, irmão de Páris, matou Pátroclo no campo de batalha.

Aquiles, explodindo de ódio, reconciliou-se com Agamenon. Matou Heitor, amarrou o corpo do inimigo em sua carruagem, arrastando-o por três voltas em torno do túmulo de Pátroclo. Nunca se viu tamanha fúria e crueldade. Mas há um código de honra a ser respeitado. No Canto XXIV da Odisseia há uma comovente cena na qual Aquiles entregou o corpo dilacerado de Heitor ao pai, Príamo, o rei de Tróia. A leitura desses versos comove a mais insensível das almas.

Ulisses se revela nos Cantos IX a XII da Odisseia. A narrativa de suas aventuras encanta os convidados do banquete de Alcino, rei dos Feácios. Ulisses ouviu o canto das sereias sem cair na sedução e morte subsequente. Foi amarrado ao mastro do navio, enquanto, com cera nos ouvidos, os remadores circundavam aquelas figuras híbridas. As sereias eram mulheres e eram peixes. Essa passagem foi explorada por Adorno e por Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento, como ilustração para a astúcia da razão. Para Kafka, também no século XX, o pior das sereias não era o canto, era o silêncio...

Ulisses astutamente derrotou os 108 pretendentes de sua esposa, Penélope. Na narrativa da Odisseia apresenta-se Penélope como um modelo de virtudes, de caráter, de retidão. É anteposta a Cliteminestra, que traiu o esposo, abandonou os filhos, e que foi por eles assassinada, ainda que arrependida. Cliteminestra era irmã de Helena. É a lei bárbara da vingança, que leva à loucura e à morte.

O encontro de Ulisses com o filho, Telêmaco, também é emocionante. Disfarçado de mendigo, Ulisses chegou ao palácio. Foi reconhecido apenas por Argos, o seu fiel cão. O cão estava deitado, ergueu cabeça e orelhas. Com o chefe ausente, fora abandonado em uma estrumeira, diante do portal da cidade, ali ficava, cheio de parasitas. O topos literário da fidelidade dos cães tem nessa passagem seu ponto de partida. Seu ponto mais alto encontra-se no Cão das Lágrimas, que José Saramago inseriu numa das partes mais fortes do Ensaio sobre a Cegueira.

Ulisses venceu aos pretendentes, reconquistou seu reino, seu poder, firmando sua glória. Essa literatura fantástica, mágica até, sugere metáforas que transcendem no tempo e que expõem a condição humana. Movido pelo ódio, Aquiles não calculava o resultado de suas ações. Dissipou sua energia numa vingança desnecessária. Não levava em conta o seu valor. Sua aparente prepotência escondia o baixíssimo juízo que fazia de si. Perdeu seu tempo. Ulisses é o calculista frio, dissimulado, chega a ser um velhaco, um verdadeiro embusteiro.

A Ilíada é um poema de guerra, a Odisseia é um livro de aventuras. Segundo um de nossos maiores críticos (Otto Maria Carpeaux) “versos de Homero serviam para apoiar opiniões literárias, teses filosóficas, sentimentos religiosos, sentenças dos tribunais, moções políticas”. O simbolismo de Aquiles, a ira, pode sugerir o trágico que representa a responsabilidade que temos para com nossas escolhas. O simbolismo de Ulisses, a astúcia, pode sugerir a fragilidade de um compromisso moral que se espera que tenhamos para com nós mesmos.

Assumindo todos os riscos, eu ainda prefiro a sinceridade de Aquiles ao fingimento e à hipocrisia de Ulisses. O fingido ocupa-se apenas com a vitória, não importa o método. É um dissimulado, quer ficar bem. O irado sincero contenta-se com a luta. Não sai de sua cabeça o verso da música que nos lembra que é de batalhas que se vive a vida.

 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 17 de novembro de 2019, 8h00

Comentários de leitores

2 comentários

A vingança

O IDEÓLOGO (Outros)

Acompanha o Homem. Está no Estado, quando o acusador procura condenar o acusado.

Muiiiiiito bom.

Duns Escoto (Outros)

Parabéns. Texto excelente.

Há vida no Brasil. Sem palavras, além de tudo, lembrar do grande Otto Maria Carpeaux, mostra que o Dr. Arnaldo é nosso Homero.

Não desista. Pode até haver poucas visualizações, mas as que viram sabe a grandeza do texto.

Isso sim muda o mundo e o Brasil.

Parabéns.

Comentários encerrados em 25/11/2019.
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