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Condição de suspeito virou refúgio permanente de uma máquina desajustada

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Não existe vida pior que a de suspeito. O culpado ganha o direito de circular de cabeça em pé depois de cumprir sua pena, mas o suspeito está condenado a viver em um vale de olhares esquivos. E se existe uma indústria que escapou da recessão nesses últimos anos foi a de suspeitos. Na verdade, funcionou com força máxima, como se estivesse liberada pelo pessoal do controle de qualidade para bater recordes de produção.

Para ser apresentado à mídia como suspeito é suficiente que alguém tenha o nome mencionado na delação premiada de Fulano ou citado na gravação de Beltrano, ou ainda que as iniciais de seu nome tenham aparecido na planilha de um certo esquema. Pior se aparecer como alvo de operação policial batizada em latim.

São tantas as operações e seus suspeitos que as autoridades mal conseguem dispensar igual atenção para todos. Tome-se os números da Lava Jato: cinco anos, 60 fases, quase mil mandados expedidos, 159 réus e centenas e centenas de suspeitos, com seus nomes inteiros nos jornais e na internet e só a parte pior de suas histórias. Em um único dia chegou-se a expedir mais de cem mandados.

A imprensa mal consegue digerir, perde rápido o interesse pelo assunto ou descobre outros mencionados, citados, investigados e listados mais interessantes... Parece que há sempre um suspeito muito mais suspeito do que aquele da operação que passou. E, de tão suspeito que parece, o sujeito acaba tido quase como um legítimo culpado. Como disse o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay, defensor de réus da Lava Jato, “informações pela metade podem ser o bastante para não apenas constranger, mas para transformar em fato consumado”. É isso.

O suplício dos suspeitos era mais tolerável antigamente, quando as notícias eram consumidas, arquivadas e esquecidas. Mas, hoje, a história de qualquer um deles está a poucos clicks de distância de qualquer curioso ou interessado. Basta “dar um Google”. E, se não bastasse a lembrança, também vem com ela a confusão, pois os inteligentíssimos algoritmos conseguem achar quase tudo, mas não sabem discernir: entregam fatos, versões, notícias velhas e novas, tudo embrulhado no mesmo pacote. O algoritmo secreto parece ter o faro dos mais perspicaz dos editores de tabloides sensacionalistas.

Tem mais. A internet oferece infinitas possibilidades para fazer de uma notícia sem sal uma narrativa mais destacada e picante, com frases capitulares e imagens atraente. As histórias podem ser livremente aumentadas, recontadas e transformadas. E é só postar no grupo do WhatsApp que ficam novinha em folha, como se tivesse acontecido hoje.

Na era digital, quem um dia foi suspeito dorme sempre com a pulga atrás da orelha. De que buscas no Google a história da suspeita vai emergir? Quem está vendo? Encara o amigo e pensa: será que ele acredita em mim, ou no Google? Talvez, cumpra uma das penas mais duras, porque não pode se explicar, não tem para quem contar sua história. É a sua palavra contra o Google.

Sabemos que as coisas podem ficar ainda piores. Hoje as suspeitas ganham crédito porque aparecem na mídia, mas talvez isso não seja mais necessário em breve. Já existe tecnologia razoavelmente acessível para produzir vídeos e sons extremamente realistas e falsos, os chamados deepfakes.

Na reta final da eleição de 2018, circulou um exemplo, muito grosseiro, do que essa tecnologia é capaz. Um vídeo mostrava o então candidato ao governo de São Paulo João Dória no que seria um encontro com mulheres em um motel. Confundia, mas não convencia. Porém, há vários vídeos absolutamente convincentes de políticos americanos, atrizes e atores, já em circulação. Uma coisa é atribuir uma frase a alguém, outra é vê-la falar. O impacto é enorme.

Razões para preocupação há muitas. Eleitores, parceiros de negócios, clientes, departamentos de compliance... Todas as novas relações na era digital começam com uma pesquisa no Google e, assim como nas histórias de amor, uma primeira impressão negativa pode não ser definitiva, mas é sempre um convite para a cautela.

O assunto foi abordado no final do ano passado pela respeitada publicação Foreign Policy Magazine. Uma das soluções seria a criação de álibis virtuais que registrariam todas as falas verdadeiras, de um político, por exemplo, para confrontá-las com eventuais fakes, deepfakes e suspeitas. Seria como gerar cópias autenticadas de nós mesmos. Que mundo será esse?

 é jornalista

Revista Consultor Jurídico, 14 de março de 2019, 7h33

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