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PREJUÍZO AO CONSUMIDOR

STJ reconhece ilegalidade da cobrança de taxa na compra de ingresso on-line

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A 3ª turma do Superior Tribunal de Justiça decidiu, nesta terça-feira (12/3), que é ilegal a cobrança da taxa de conveniência para ingressos comprados pela internet em sites de eventos. A decisão tem validade em todo o território nacional.

No voto, a relatora, ministra Nancy Andrighi, explicou que a venda de ingressos pela internet, que alcança interessados em número infinitamente superior do que o da venda presencial, privilegia os interesses dos promotores e produtores do espetáculo cultural.

"Isso porque, eles conseguem, muitas vezes em prazo menor, vender os espaços destinados ao público e obter o retorno dos investimentos até então empregados, transferindo aos consumidores parcela considerável do risco do empreendimento", disse.

A ministra defendeu que uma das formas de violação da boa-fé objetiva é a venda casada, que consiste no prejuízo à liberdade de escolha do consumidor decorrente do condicionamento, subordinação e vinculação da aquisição de um produto ou serviço à concomitante aquisição de outro, quando o propósito do consumidor é, unicamente, o de obter o produto ou serviço principal.

"A venda do ingresso para um determinado espetáculo cultural é parte típica e essencial do negócio, risco da própria atividade empresarial que visa o lucro e integrante do investimento do fornecedor, compondo, portanto, o custo básico embutido no preço."

De acordo com a ministra, se os responsáveis por um evento optam por submeter os ingressos à venda terceirizada, por meio virtual, devem oferecer ao consumidor diversas opções de compra. "Caso contrário a liberdade dos consumidores de escolha é cerceada, limitada unicamente aos serviços oferecidos pela empresa escolhida, de modo a ficar caracterizada a venda casada", avalia.

Abusividade 
Na ação, a Associação de Defesa dos Consumidores do Rio Grande do Sul processa a empresa Ingresso Rápido e afirma que a abusividade está no fato de o consumidor, além de pagar taxa elevada de conveniência para adquirir o ingresso pela internet, ainda tem que se dirigir a um ponto de entrega dos bilhetes ou enfrentar filas no dia do evento para validar a compra.

Na prática, os sites cobram em média 20% sobre o valor do ingresso para um evento. Cobrar diferentes preços fere o artigo 39 do Código de Defesa do Consumidor, uma vez que as empresas calculam a taxa de conveniência cobrada ao consumidor percentualmente sobre o valor do ingresso de acordo com o setor comprado.

Em 2016, a 16ª Câmara Cível do TJ-RS declarou a legalidade da cobrança da taxa de conveniência na compra de ingressos por meio de sites. De acordo com a decisão, não se trata de mecanismo único e obrigatório para que os usuários adquiram ingressos para espetáculos ou eventos esportivos, e sim de mera opção, colocada à disposição dos consumidores.

REsp 1.737.428/RS

 é correspondente da revista Consultor Jurídico em Brasília.

Revista Consultor Jurídico, 12 de março de 2019, 16h01

Comentários de leitores

2 comentários

'Taxa' de Comodidade (Parte II)

Darling Barboza (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

Concluímos: para além da transferência indevida do risco, e da venda casada, brilhantemente trabalhados pela ministra Nancy Andrighi, há evidente FALHA na prestação de serviço, em virtude do não oferecimento da conveniência (conforto, bem estar, descomplicação de uma rotina) o que afasta o fato motivador da referida taxa.

Neste raciocínio a cobrança da taxa de comodidade seria justa somente para compras online em que a prestação de serviços é oferecida em sua totalidade (compra online - cobrança de taxa de conveniência - emissão do ingresso online - possibilidade de impressão ou apresentar em celular - somente ir para o show/evento).

"Taxa" de Comodidade (Parte I)

Darling Barboza (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

A lide não está no fato de que a venda dos ingressos pela internet alcança interessados em número maior ao da venda presencial, o que acarretaria em privilégios aos promotores do evento.
A problemática é a forma como é prestado o serviço da venda online, o não acompanhamento tecnológico dos sites que vendem tickets de shows e eventos dentro de uma sociedade cada vez mais conectada a qual não admite pagar por serviço prestado pela metade, como afirma a ministra pela mera disponibilização dos ingressos na internet.
A ADECONRS questionou unicamente a legalidade de ingressos apenas de shows e outros eventos (compra online - cobrança de taxa de conveniência - necessidade de retirar pessoalmente ingresso - enfrentar filas), todavia, cumpre trazer à baila que quando se adquire via internet ingressos para CINEMA, também há cobrança de taxa de conveniência, mas o consumidor não se sente violado ao passo em que é ofertada toda a comodidade de uma compra via internet, ou seja, obtém a emissão do ingresso no exato instante e online, podendo realizar a impressão ou apresentá-lo em tela de celular, bastando ir para o evento. O serviço é prestado em sua totalidade.
Em outra esfera, empresas como Via Fácil e Sem Parar também cobram mensalmente pela utilização da conveniência que oferecem.
O abuso/violação direto ao consumidor ocorre na exata medida em que há cobrança da taxa de conveniência para a compra online de ingressos para shows e eventos, mas mesmo assim se exige que a emissão seja física e pessoal do ingresso (o que acarreta em filas, tempo) ou então que o consumidor pague pela entrega em endereço que indica, mediante quantia e regramentos variáveis.
... Continua...

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