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Nós, trabalhistas, temos a exata noção de que ser advogado é ser voz

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Colega trabalhista! Receba meu afeto...

Tenho contigo um vínculo forte. Não... Ele não é dado por identidades de classe em favor das quais trabalhamos nem ideológicas, pois sou produto do contraditório, que me constituiu e formou como pessoa e profissional. Também pouco importam aqui as questões de gênero, de religião, de associativismo, políticas, de clientelas, de posição nos processos, de utilização própria de seus conhecimentos técnicos, nem minha análise subjetiva da qualidade de seu trabalho.

Celebro aqui uma identidade de nossas escolhas. Nós nos adjetivamos por uma circunstância voluntária: somos trabalhistas. E hoje, 20 de junho, celebramos o nosso dia. O dia da advocacia qualificada pelo adjetivo derivado do trabalho: trabalhistas.

Tribalistas da tribo do trabalho, tributários do tributo do trabalho, somos as pessoas de Sísifo, a rolar as pedras morro acima e saber que, logo depois, haveremos de reiniciar a tarefa, infinda, mas gloriosa.

Sabemos que o trabalho é legatário do instrumento de tortura, o tripalium, herdeiro da sudorese, e que os direitos líquidos e certos do trabalho nasceram de sangue, suor e lágrimas, os líquidos que de nós a dor excreta.

Somos nós que temos a exata noção de que ser advogado é ser voz, fazer vogar. Somos o verbo, as cordas vocais do procedimento oral.

A advocacia trabalhista é, assim, ora ser vogal, vocal, vozeiro, ora visar a vida desprovida dos vezos e vícios das relações de trabalho segundo o nosso modo de produção. Afirmar e negar, o ócio e o negócio, o ódio, a ação e a conciliação. Pedir, pecar, perder, perdoar, pertencer, perecer, paralisar, parar, permitir, preencher, preparar, pagar, parir, pintar, provar...

Tantos verbos, tantas ações. Tanta esperança e paciência, palavras que se conjugam em nós como se verbos fossem: advogar na área trabalhista é esperançar, é pacientar e apascentar ânimos, inclusive os nossos.

Tudo isso faz de nós seres individuais e coletivos, tutelares e ritualísticos. Há um mundo inteiro em nós. Carregamos conosco o espaço e o tempo de nossas sociedades, as histórias de vida, o aprender, apreender, empreender, o poder e o porvir.

20 de junho: um dia. Um segmento do ano para a ode a um segmento da advocacia. Sigamos assim. Diferentes, únicos, mas vinculados por tantos agires, tantos verbos, tantas qualificações, tantas identidades numa só identidade: parabéns, colega, a quem dedico o carinho e o afeto da profissão que me afetou tanto que o adjetivo trabalhista é substantivado, e o substantivo advocacia é apenas atributo e adjetivo de minha vocação, minha vocalização, minha ação.

 é advogado trabalhista e ex-presidente da Associação dos Advogados Trabalhistas de São Paulo, da Associação Brasileira de Advogados Trabalhistas e da Associação Latinoamericana de Advogados Trabalhistas.

Revista Consultor Jurídico, 20 de junho de 2019, 17h49

Comentários de leitores

2 comentários

A moral

O IDEÓLOGO (Outros)

"Nietzsche argumentou que haviam dois tipos fundamentais de moralidade: moral do senhor (moralidade mestre ou moral nobre) e moral de escravos (moral de rebanho). A moralidade do senhor valoriza o orgulho, força e nobreza, enquanto a moral dos escravos valoriza coisas como a bondade, humildade e simpatia. Moralidade mestre pesa ações em uma escala de conseqüências boas ou más (ou seja, virtudes clássicas e vícios, o consequencialismo), ao contrário da moral de escravos que pesa ações em uma escala de boas ou más intenções (por exemplo, virtudes e vícios cristãos, deontologia kantiana)
Para Nietzsche, uma moral particular é inseparável da formação de uma cultura particular, o que significa que a linguagem, códigos de uma cultura e práticas, narrativas e instituições são orientadas pela luta entre estas duas estruturas morais (https://universodafilosofia.com/2018/02/nietzsche-moral-do-senhor-x-moral-de-escravos/)

Advogado trabalhista

O IDEÓLOGO (Outros)

É um advogado como outros...ou não?

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