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Distúrbios internos

Base eleitoral de Trump sofre duas rupturas na semana do impeachment

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O Partido Republicano sofreu duas pequenas implosões na semana passada, cujo impacto ainda está por ser medido, mas que podem afetar a campanha de reeleição do presidente Donald Trump em 2020. Um grupo de republicanos de peso, que renegam o “Trumpismo”, criou uma organização que irá levantar fundos para fazer campanha contra Trump. E uma das principais revistas evangélicas do país publicou um editorial em que defende o impeachment de Trump.

O grupo de republicanos rebeldes criou uma Super PAC, que é um “super” comitê de ação política (PAC – political action committee), que pode receber contribuições financeiras ilimitadas de pessoas, corporações e sindicatos, para financiar campanhas eleitorais, a favor ou contra certos candidatos, paralelamente às ações do comitê eleitoral do partido.

A organização que vai administrar esse Super PAC recebeu o nome de Projeto Lincoln. Ela pretende levantar “dinheiro vivo” para financiar anúncios na TV e na mídia digital, destinados a convencer conservadores-republicanos e eleitores independentes a votar contra Trump, mesmo que isso custe entregar a Presidência a um candidato democrata.

A campanha também vai visar deputados e senadores “trumpistas”, candidatos nas eleições de 2020, pedindo votos para candidatos republicanos não alinhados com Trump ou mesmo para candidatos democratas, mesmo correndo o risco de perder a maioria no Senado.

Em um artigo publicado no jornal The New York Times, os organizadores do Projeto Lincoln escreveram que o trumpismo abandonou os valores da nação. E que Trump não tem temperamento apropriado para ocupar o cargo de presidente, nem “compasso moral” para liderar o país.

Como a eleição presidencial dos EUA ainda é indireta – isto é, cada estado elege um certo número de delegados para formar o Colégio Eleitoral que vai eleger o presidente – os esforços do Projeto Lincoln vão se concentrar apenas nos estados em que Trump venceu a candidata democrata Hilary Clinton por um pequeno número de votos na eleição de 2016. Essa é uma estratégia que pode surtir efeito na eleição de 2020.

Rebeldia evangélica
A influente revista Christianity Today, criada pela celebridade evangélica Billy Graham (falecido em fevereiro de 2018), publicou um editorial surpreendente na quinta-feira (19/12), no qual defende o impeachment de Trump (já aprovado pela Câmara dos Deputados).

O editorial afirma que Trump deve ser removido do cargo pelo Senado, que irá julgar o processo de impeachment em janeiro, ou pelos eleitores na eleição presidencial de novembro de 2020.

“A remoção de Trump do cargo não é uma questão de lealdade partidária, mas de lealdade ao Criador dos Dez Mandamentos”, diz a revista. Segundo editorial, a tentativa do presidente de usar seu poder político para coagir um líder estrangeiro, com o objetivo de ameaçar e desacreditar seus rivais políticos, “não é apenas uma violação da Constituição; mais importante que isso, é profundamente imoral”.

Por que isso é significativo? Os evangélicos constituem mais de 25% da base eleitoral de Trump. Junto com o presidente, chegaram a formar uma “coalizão evangélica”, para apoiá-lo nas eleições de 2016 e, subsequentemente, seu governo. Chegaram a ir à Casa Branca para fazer orações televisionadas junto com Trump.

O editorial da Christianity Today não vai implodir essa base eleitoral de Trump, mas vai fazer um pequeno rombo, que pode se expandir durante a campanha eleitoral. Afinal, pela primeira vez, há uma divisão publicamente anunciada no meio evangélico, que estava totalmente fechado com Trump.

Os evangélicos se alinharam com Trump em 2016, porque ele prometeu apoiar as principais lutas deles, nomeando juízes extremamente conservadores para a Suprema Corte e para os tribunais federais de primeira e segunda instância.

Por exemplo, os evangélicos se posicionam radicalmente contra o aborto e contra toda decisão judicial que favoreceu a comunidade LGBT – especialmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Coincidentemente, essas também são bandeiras do Partido Republicano, que representa os conservadores do país.

A nomeação de juízes ultraconservadores pode produzir mudanças profundas no que já está estabelecido no país – isto é, reverter as decisões a favor do aborto e da comunidade LGBT.

O editorial se dirigiu ao público evangélico, que continua a apoiar Trump “apesar de seu péssimo histórico moral”. O editorialista escreveu: “Lembre-se de quem você é e a quem você serve. Considere como seu apoio a Trump influencia seu testemunho de seu Deus e Salvador”.

O editorial se somou a outra manifestação cristã, em uma paróquia católica de Massachusetts. Em seu presépio de Natal, a Igreja colocou uma imagem de Jesus bebê em uma gaiola no tradicional estábulo.

A iniciativa é uma referência ao fato de o governo Trump ter separado crianças de seus pais, que entraram ilegalmente no país para pedir asilo e colocado seus filhos em gaiolas. Ao lado da gaiola, na representação de um muro na fronteira dos EUA com o México no presépio, há uma placa com uma seta e a inscrição “Deportação”.

Alguns pastores lembraram que José e Maria pediram asilo ao Egito, quando Jesus ainda era um bebê, por causa de perseguição – a mesma justificativa das pessoas que buscaram asilo nos EUA.




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 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 23 de dezembro de 2019, 9h25

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