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Sobre o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

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Jesuíno Brilhante (1844-1879), o cangaceiro-romântico, significou a justiça onde justiça não havia e a desafronta onde desforra não acontecia. Protetor de camponeses esfomeados, de crianças maltratadas e de moças ultrajadas, Jesuíno intercalava assaltos e ataques a coronéis poderosos com intervenções espetaculares nas vidas de Belém do Brejo da Cruz. Conta-se que, a pedido de um pai humilhado, capturou um mocinho rico que havia engravidado uma moça simples, cujo pai não conseguiu a ajuda do padre, do coronel, do juiz e do promotor, a quem inicialmente recorreu. Não queriam contrariar o homem rico do lugar. Acorrentado, descalço e domado, o galã foi levado por Jesuíno à Igreja: o casamento se fez sobre a mira de suas armas. A população viu a justiça, na obra de Jesuíno; justiça não havia em nenhum outro lugar.

É esse, com algumas variações de pormenor, o enredo que se desdobra em Bacurau. O território imaginário poderia ser qualquer outro ponto do semiárido pernambucano, como Betânia, Cabrodó, Caeté ou Juruma. Bacurau é uma rua do ocidente pernambucano, onde não há Estado, segurança ou água, pela ordem inversa de importância. Mas há celulares, um simpático DJ, uma médica que eventualmente se embriaga (Sônia Braga, no papel de Domingas), um professor dedicado (Plínio, Wilson Rabello), um violeiro cordelista, e muitas outras personagens que decolam tanta gente sofrida. Bacurau é o Brasil.

Ao retornar para o enterro da avó, matriarca com fumos de curandeira e conselheira, Teresa (Bárbara Colen), reencontra suas origens, e a pequena cidade ameaçada por uma horda de psicopatas. Americanos (o líder é alemão), bem armados, com drones, monitores de comunicação, e toda a extravaganza de quem vai guerrear o inimigo letal, matam por prazer. Dois desses psicopatas, após matarem um casal simplório, excitam-se e fazem amor, sob os olhares dos drones. Sadismo maior não pode haver. Bacurau é também o desumano explorador do Brasil, o turista sexual.

Uma estranha ética, irreconhecível para um padrão civilizatório comum, pautava os tiros desse bando de imbecis. Acusavam-se porque um deles havia matado uma criança. O líder do bando, seguramente um alemão educado por alguém que passou pela juventude hitlerista, categoricamente afirmava que não matava mulheres. Brincavam com a vida (alheia, de gente simples e indefesa) como quem tecla joguinhos eletrônicos. A vida não vale nada. A diversão não tem limites, porque o limite da vida é justamente a falta de limites. Bacurau é ainda o desdém do poderoso para com a significação da pessoa comum.

A morte da anciã uniu os bacurauenses. A cena do enterro é antológica, como antológico é o violeiro que dedilha os acordes fúnebres, fazendo eco ao carro de som e à música também fúnebre cantada pelos que choravam a perda da velha. Domingas foi quem mais sofreu. Em uma das cenas, observando uma velha fotografia (e com cuidado pode-se reconhecer Sonia Braga dos tempos de Gabriela), Domingas revela a perda de uma pessoa querida. Bacurau é um pouco também a lembrança que a vida é feita de amizades. Feliz de quem as tem.

As personagens são retalhos de um Brasil antigo e contemporâneo, rural e ao mesmo tempo urbano. Um casal de brasileiros (com inglês fluente) auxiliava o bando assassino. Entreguismo total. Reverência fatal para com o estrangeiro explorador. No momento em que o brasileiro (Antonio Saboia) é assassinado pelo bando, pega-se seu documento, que revela que era um assessor servidor de tribunal. Metáfora ou metonímia?

Em Bacurau há uma mistura de vários gêneros de cinema. É Tarantino (Kill Bill) com a profusão de sangue e de poças de sangue. É John Wayne (O último pistoleiro) com tiros e com o pano de fundo dos cactos que lembram o velho oeste. É Harrison Ford (O caçador de androides) com a distopia futurista de uma vida sem sentimento. É Glauber Rocha (Deus e o Diabo na Terra do Sol) pelos recortes do sol e da lua, da seca e da solidão. É Mel Gibson (Mad Max) pelos tipos neofuturistas e andróginos, a exemplo de Lunga (Silvério Pereira) e de sua androginia devastadora. É José Mujica Marins, o Zé do Caixão, pela profusão simbólica de caixões. É Dias Gomes (O Bem-Amado) pela asquerosa presença de Tony Júnior (Thardelly Lima) o político populista. Misto de serial killer coletivo com romance de tese antropológica, Bacurau tem de carros com placas do mercosul a danças de capoeira perdidas em quilombos. Bacurau é o Brasil, com todos nossos contrastes.

O enredo do cangaceiro romântico é protagonizado na intervenção de Lunga, bandido excluído da cidade. Como os seguidores do beato Antonio Conselheiro, que nas primeiras investidas foram imbatíveis em Canudos, os bacuruenses se escondem, preparando uma arapuca estilo cavalo de Troia que dá o fecho e a desforra. Com a destruição (também impiedosa) dos invasores, lava-se a alma nacional. Bacurau revela que ainda sobrou um Brasil que merece engajamento.

A desforra é brutal. O modo como as cabeças foram empilhadas na entrada da Igreja lembra-nos a foto do bando de Lampião, com as cabeças cortadas, depois da emboscada da gruta de Angicos, em julho de 1938. A cena é idêntica. Bacurau lembra-nos que não somos cordiais, que cortamos cabeças. Celulares filmavam o evento com a maior naturalidade. Bacurau comprova-nos que trivialização da violência. Perdemos a sensibilidade.

A execução de Tony Júnior lembra-nos uma cena medieval de expurgo do inimigo. Mereceu. A cena dos 1.000 livros despejados na porta da pequena escola é o retrato do quanto pouco os vários Tony Júnior que há preocupam-se com a educação. A cena é chocante. A escola abandonada do início do filme, o carro da polícia também abandonado (uma conhecida veraneio preto e branco, o camburão) e a inexistência de qualquer forma organizada de controle comprovam a ausência do Estado. Bacurau é o retrato de uma anarquia forçada.

Bacurau é um fragmento e um testemunho de nossa história, que predica na herança escravocrata, na exploração do estrangeiro, no descaso do Estado e no patrimonialismo do qual não conseguimos nos livrar. Bacurau é um círculo secante (geométrica e não figurativamente) que retoma linha melódica do romantismo do cangaço. Há uma estranha personagem no filme, que não fala, mas que tudo viu: o museu histórico de Bacurau. A resistência em se limpar o sangue das paredes, após a batalha final, é o recado bem claro do museu de que a história se escreve com luta, porque é só essa que a vida muda. Bacurau é também a lembrança iconográfica, coletiva e simbólica de que Jesuíno Brilhante, o cangaceiro romântico, é muito menos do que um tipo perdido na memória nordestina. Ele vive.

 é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) e doutor pela PUC-SP.

Revista Consultor Jurídico, 13 de dezembro de 2019, 6h23

Comentários de leitores

2 comentários

Jesuíno brilhante

O IDEÓLOGO (Outros)

Diz o texto: "Jesuíno Brilhante (1844-1879), o cangaceiro-romântico, significou a justiça onde justiça não havia e a desafronta onde desforra não acontecia. Protetor de camponeses esfomeados, de crianças maltratadas e de moças ultrajadas, Jesuíno intercalava assaltos e ataques a coronéis poderosos com intervenções espetaculares nas vidas de Belém do Brejo da Cruz. Conta-se que, a pedido de um pai humilhado, capturou um mocinho rico que havia engravidado uma moça simples, cujo pai não conseguiu a ajuda do padre, do coronel, do juiz e do promotor, a quem inicialmente recorreu. Não queriam contrariar o homem rico do lugar. Acorrentado, descalço e domado, o galã foi levado por Jesuíno à Igreja: o casamento se fez sobre a mira de suas armas. A população viu a justiça, na obra de Jesuíno; justiça não havia em nenhum outro lugar".

Jesuíno Brilhante é o moderno "Robin Hood" tupiniquim, mas com maior estatura.

Bacurau

MMDC (Outros)

O professor e jurista Godoy abordou com extrema sensibilidade e agudez as mensagens que a obra traz. Obrigado, professor!

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