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Pecado de Prestes, Marcelo Odebrecht e Dallagnol foi a convicção de serem corifeus

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Com as primeiras revelações sobre as mensagens supostamente trocadas entre o MPF e o então juiz Sergio Moro, logo vieram à memória as cadernetas de Prestes e os celulares de Marcelo Odebrecht.

Posteriormente, com a nota publicada por Lauro Jardim sobre uma dessas relações, desdobramento inevitável foi o de ultrapassar a simples constatação da semelhança entre tais atos para perquirir que outras identidades poderiam haver entre os fatos, circunstâncias e sujeitos aparentemente tão distintos, que desvelassem os valores, motivações e estratégias que os levaram a desnecessariamente armazenar em meios facilmente decodificáveis e apreensíveis — seja por terceiros, amigos, inimigos ou, quiçá, até por acidente — registros tão delicados cuja publicidade poria em risco suas liberdades, patrimônio, credibilidade e/ou conquistas.

Neste ponto foi inevitável a lembrança de uma norma de segurança repetida à exaustão nos tempos de oposição clandestina ou semiclandestina ao regime militar, a qual poupou perdas, sofrimentos e até a vida de muitos que a obedeceram, da mesma forma que impôs pesadas perdas e até a morte a quem dela se descuidou.

“Ponto não se anota. Se grava na memória.”

Neste ponto, depois de exauriente releitura dos fatos e personagens em busca de um ou mais liames que dessem sentido ao temerário ato de armazenar informações que poderiam lhes trazer dissabores e até tragédias, aflorou como um estalo de Vieira a percepção de que, apesar do discurso materialista de Prestes e do pragmatismo de Marcelo, conscientemente ou não, compartilhavam eles com o evangélico Dallagnol a convicção íntima de tratarem-se de corifeus, cada qual de seu Armagedom particular, no qual o papel messiânico que desempenhavam lhes outorgava uma garantia metafísica de sucesso e invulnerabilidade.

É obvio que um fundava-se no marxismo e no materialismo histórico, outro em um conjunto de balizas e princípios codificados por seu avô, e o terceiro, no Evangelho, mas todos eles — sem exceção — sentiam-se e agiam como Messias a caminho de suas páscoas particulares, com a fé de quem já tinha experimentado sua epifania.

Messianismos iguais abundam em todos os meios, ainda que com repercussões mais paroquiais; porém, em relação às legiões de missionários que abundam nos mais diversos credos, religiosos ou não, justificável se faz trazer sempre lembrado e repetido o conselho dos mais velhos de que “cautela e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém”.

 é consultor do Fraga e Trigo Advogados.

Revista Consultor Jurídico, 6 de agosto de 2019, 6h13

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