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Vontade dos eleitores

Maioria dos americanos não quer abertura de processo de impeachment de Trump

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Saiu na sexta-feira (26/4) o resultado de uma pesquisa do Washington Post e da ABC News que solidifica a posição das lideranças do Partido Democrata de não abrir o processo de impeachment do presidente Donald Trump, pelo menos por enquanto. A pesquisa mostra que a maioria dos eleitores americanos não quer saber de impeachment, no momento.

De acordo com a pesquisa, 56% dos entrevistados é contra a abertura do processo de impeachment do presidente, 37% é a favor e 6% não sabe dizer. É claro que a maioria dos eleitores democratas quer impeachment já: 62% é a favor, 29% é contra e 9% não sabe.

Mas o que tem mais peso é a opinião dos eleitores republicanos e, de certa forma, a dos independentes: 87% dos republicanos é contra (78% dos quais é fervorosamente contra), 10% é a favor e 3% não sabe dizer. Entre os independentes, 59% é contra, 36% é a favor e 4% não sabe.

Quem quer abertura de processo de impeachment já?

 

Sim

Não

Não sabe

Geral

37%

56%

6%

Democratas

62%

29%

9%

Republicanos

10%

87%

3%

Independentes

36%

59%

4%

Nota: os autores da pesquisa dizem que as percentagens não totalizam 100% por causa de arredondamentos.

A razão de a opinião dos eleitores republicanos ter mais peso, no que se refere a abrir ou não o processo de impeachment, é a de que será preciso que pelo menos 20 senadores republicanos votem a favor dele no julgamento final.

A Câmara dos Deputados, com maioria democrata, poderá processar o impeachment. Mas a palavra final cabe ao Senado, que irá julgá-lo. Nesse caso, serão necessários os votos de dois terços dos senadores (ou 67 de 100 votos), para confirmar o impeachment. O Partido Democrata tem 47 votos – e, por isso, precisa da ajuda de 20 republicanos.

Dificilmente senadores republicanos irão votar a favor do impeachment – a não ser que isso seja uma exigência de suas bases eleitorais. Nas assembleias rotineiras com seus constituintes (ou por cartas), os senadores terão de ouvir: ou você vota a favor do impeachment ou não será reeleito. A pesquisa mostra que isso não vai acontecer no momento.

Donald Trump, livre do impeachment por enquanto

A opinião dos eleitores independentes (assim chamados por não serem republicanos, nem democratas), importa porque haverá renovação de dois terços do Senado em 2020 – além da eleição para presidente. Tanto os candidatos ao Senado, como os candidatos à Presidência, precisam dos votos dos independentes para se eleger. Para isso, precisam valorizar suas opiniões.

A pesquisa foi feita no rastro da divulgação do relatório Mueller, que trouxe as conclusões do procurador especial Robert Mueller e sua equipe de 17 procuradores e mais investigadores do FBI, depois de quase dois anos de investigações. A equipe investigou, entre outras coisas, se houve conspiração do comitê de campanha de Trump com os russos para interferir nas eleições de 2016 e se o presidente cometeu crime de obstrução da justiça.

Sobre as investigações, 53% dos democratas entrevistados, 56% dos republicanos e 51% dos independentes declararam que elas foram justas e imparciais.

Sobre o relatório, 64% dos republicanos, 52% dos democratas e 41% dos independentes declararam que ele não os fez mudar de opinião sobre Trump. Para parte dos republicanos, a opinião sobre Trump melhorou, para parte dos democratas, piorou.

Durante toda a investigação, Trump criticou as investigações, chamando-as, por exemplo, de "caça às bruxas" e "hoax" – e se declarando inocente, insistindo que não houve conluio com a Rússia. Sobre isso, 90% dos democratas, 61% dos independentes e 19% dos republicanos declararam que Trump mentiu ao povo americano.

Apesar de tudo isso, a maioria não quer abertura do processo de impeachment. A teoria é que os eleitores não querem cassar um presidente que foi eleito pelo voto. Preferem que isso seja resolvido nas próximas eleições.

Essa é também a opinião das lideranças do Partido Democrata (e parte do Partido Republicano): se desfazer de Trump nas eleições de 2020 apenas. Os principais dirigentes do partido calculam que é um risco eleitoral muito grande abrir um processo de impeachment na Câmara e, depois, perder a votação no Senado.

Isso já aconteceu no passado. No final dos anos 90, a Câmara dos Deputados, com maioria republicana, processou e aprovou o impeachment do ex-presidente Bill Clinton. Mas, no julgamento no Senado, Clinton foi absolvido. Isso elevou, instantaneamente, o índice de aprovação do governo Clinton para 73%.

A popularidade do Partido Republicano, que processou o impeachment na Câmara, caiu para 31%. Foi, certamente, um tiro que saiu pela culatra.

O índice de aprovação de Trump no momento está em 39%. Os democratas não querem correr o risco de a história se repetir. O movimento pelo impeachment já, no Partido Democrata, vem principalmente do baixo clero do partido e de alguns dos candidatos das eleições de 2020. Uma "CPI" para processar o impeachment teria muita cobertura das emissoras de televisão.

Como um todo, o Partido Democrata quer continuar investigando Trump, expedindo intimações para obtenção de documentos e de testemunhos e trabalhando algumas avenidas sobre obstrução da justiça que o procurador especial abriu, mas não concluiu.

A posição das lideranças é a de que um processo de impeachment poderá até ser aberto algum dia. Mas até lá, será preciso engrossar muito o caldo no caldeirão de investigações contra o presidente – por enquanto, em fogo lento.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 28 de abril de 2019, 11h12

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