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Decisão do TSE de manter Lula em propaganda eleitoral precisa ser reavaliada

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O Tribunal Superior Eleitoral tomou uma decisão, na última terça-feira (18/9), com base em interpretação abrangente dos direitos políticos. Foi julgada pelo Plenário do TSE a Representação 0601144-24.2018.6.00.0000, feita pela Coligação Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos, que apontava irregularidades na propaganda eleitoral gratuita na televisão da Coligação O Povo Feliz de Novo por ter sido capitaneada pelo ex-presidente Lula, candidato com registro indeferido pelo mesmo tribunal.

Por unanimidade, o TSE julgou improcedente a representação, acompanhando-se os termos do voto do relator, ministro Sérgio Silveira Banhos, proferido em 10 de setembro, no qual se indeferiu a medida liminar que requeria a suspensão da veiculação da propaganda impugnada. O TSE entendeu que a mesma apresenta linguagem completamente compatível com o processo eleitoral, sob o argumento de que a participação do ex-presidente fazia alusão aos seus anos de governo na condição de apoiador do candidato daquela coligação.

A representação, por sua vez, apontou que a presença do ex-presidente no guia eleitoral violaria o que foi decidido no Registro de Candidatura 0600903-50.2018.6.00.0000, de relatoria do ministro Barroso, que vedou a prática de atos de campanha pelo ex-presidente Lula, especialmente a veiculação de propaganda eleitoral que o relacionasse como candidato a presidente, além de confundir o eleitor por meio de estados emocionais ou passionais de dúvida quanto à possibilidade de candidatura do ex-presidente (artigo 242, Lei 4.737/65).

É importante ressaltar que a decisão é abrangente, de tal maneira que, a despeito de impossibilitado de concorrer ao cargo de presidente pela inelegibilidade decorrente da Lei da Ficha Limpa, ainda assim é possível que transmita apoio a outros candidatos. Um posicionamento diverso, de acordo com a compreensão do TSE, acarretaria uma pena de banimento, medida incompatível com o regime político democrático.

Entretanto, é de bom alvitre destacar que esta situação inédita, em termos de corrida presidencial no Brasil, pode provocar a transferência de votos e, por consequência, interferência no resultado da eleição por um sujeito que está impedido de praticar os atos de campanha, de modo que é razoável questionar até que ponto essa presença massificada na propaganda eleitoral de um candidato com registro de candidatura indeferido comprometeria a clareza necessária que o ordenamento jurídico tem de oferecer aos eleitores quanto ao candidato que eventualmente sufraguem.

Esses são alguns aspectos que podem questionar a validade ou a legitimidade de um resultado eventualmente influenciado por uma exposição massificada, fundamentada em divergências jurídicas. Certo é que os direitos inerentes à participação política devem ser respeitados. Contudo, em nome da coerência do ordenamento, a permissão concedida em 18 de setembro precisa ser continuamente reavaliada e fiscalizada, especialmente nestes últimos dias de campanha eleitoral, os quais, nos últimos anos, mostraram-se decisivos.

Wilson Sales Belchior é advogado e sócio do Rocha, Marinho e Sales Advogados.

Revista Consultor Jurídico, 24 de setembro de 2018, 6h37

Comentários de leitores

6 comentários

que a regra que venha para todos...

calvet neto (Advogado Assalariado)

Estive eu pensando...
Então que bom que vamos ter agora todas as eleições bem mais justas e equilibradas.
acabaremos com o apoio do prefeito ao seu sucessor, do governador ao seu sucessor... porque certamente há uma clara e imperiosa artimanha, que cria um estado mental no eleitor de que fulano é o candidato de cicrano e isto vai tornar o processo eleitoral muito passional...
Que coisa maravilhosa agora no Brasil... vamos acabar com os prefeitos cabos eleitorais dos candidatos a deputados estaduais e federais... Porque o apoio dos prefeitos é disputado à tapa...ou melhor... a preço...
enfim, as eleições no Brasil de hoje em dia, graças ao Lula, será livre e bem mais democrática... sem qualquer tutela.
O povo não sofrerá mais pressão de uma imagem política de qualquer líder... viva a democracia....

A razão é o bom senso perduram de forma independente

elizio Marques da Silva (Advogado Assalariado - Comercial)

Perfeito o comentário 'Interferência indevida é a sugerida pelo articulista' . A logica favorece qualquer candidato a não aceitar apoio de condenados pela justiça. Lula é fora a parte, e todos os candidatos dos mais diversos partidos, fazem questão de aparecerem ao seu lado na campanha eleitoral. Será que a sabedoria popular identificou que há injustiça nesse caso?.

"Bom Alvitre"

ju2 (Funcionário público)

Quem ainda escreve "bom alvitre" não pode ser "boa bisca". Pensamento rococó.

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