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Jogo sujo

Campanhas eleitorais para juízes nos EUA terminam na Justiça

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Nas disputas que envolvem as eleições primárias do Partido Republicano para a escolha de candidatos às eleições de juízes, em novembro, no Condado de Torrant, Texas, parte das brigas terminou na Justiça: a juíza da Vara de Família Diane Haddock moveu uma ação civil contra sua supervisora, a juíza Patricia Bennett, por persegui-la no trabalho e violar seu direito constitucional de não sofrer coerção política.

A juíza-supervisora não é candidata. Ela quer que o juiz Jim Munford, também do mesmo tribunal, seja o candidato do partido. E a “guerra” que ela disparou não visava, originalmente, Diane Haddock, mas o marido dela, Gerard Haddock. O marido, junto com companheiros de partido, estaria fazendo uma campanha “suja” contra Munford. E ele estaria fazendo isso em retaliação a uma campanha “suja” contra Diane.

As duas partes criaram sites para detratar o oponente. Entre as ofensas publicadas no site TFM (Tarrant Families Matter), fundado por Gerard Haddock e outros, um dos associados escreveu que o juiz Jim Munford era um RINO, que significa “Republican in name only” (republicano apenas no nome – ou republicano de fachada).

Para os republicanos em todo o país, essa é uma ofensa grave. No Texas, um estado onde os republicanos ganham quase tudo – e os democratas quase nada – esse é o suprassumo da maledicência. Um jogo sujo.  

Os companheiros de campanha de Munford, por sua vez, criaram um site no nome de Gerald Haddock (https://geraldhaddock.com), sem consentimento – uma prática conhecida como invasão cibernética (cyber-squatting), para detratar o casal. O site acusava Diane e Gerard de doar dinheiro para manipular disputas políticas no Condado de Torrant, de espalhar mentiras sobre os candidatos adversários e tentar intimidar membros do Partido Republicano local.

A juíza supervisora Patricia Bunnet ficou furiosa com os ataques a seu candidato, segundo a ação – especialmente com o artigo que o definia como RINO. Em um momento em que a juíza Diane Haddock iniciava um julgamento, com todas as partes na sala, ela recebeu uma ordem da supervisora para comparecer a seu gabinete imediatamente.

No gabinete, a supervisora ordenou à Diane, segundo a ação: “Mantenha seu marido sob controle”. E a instruiu a convencê-lo a deixar de lado suas atividades políticas. Isso deu mais um fundamento à ação que a juíza moveu contra sua supervisora: violação do direito do casal à liberdade de expressão.

Diane não cumpriu as ordens da supervisora. Então, se iniciou o processo de retaliação no emprego, diz a ação. “Eu fui submetida a constantes atormentações, ameaças, maledicências, obstacularizações e calúnias”, diz a petição.

Nos sites e no Facebook, a “guerra” continuou. Os aliados de Munford lembraram que, recentemente, a juíza Diane foi acusada de “assassina” e “corrupta” por parte da população. Isso porque, em uma disputa entre avós e mãe pela guarda da filha, a juíza decidiu em favor da mãe que, mais tarde, foi acusada de matar a filha. Os adversários acusaram a juíza de ter recebido suborno para decidir em favor da mãe. E passaram a se referir a ela como “Lábios de galinha”.

Os adversários de Munford, com Gerard Haddock à frente, acusaram o juiz de violar a Segunda Emenda da Constituição, ao assinar uma ordem de apreensão de armas em um caso de família e de ele ter maltratado sua primeira mulher.

A Segunda Emenda é a que garante aos cidadãos o direito à posse e porte de armas – provavelmente, a Emenda Constitucional mais querida dos republicanos e mais defendida pelos candidatos do partido em comícios, para convencer os eleitores a votarem neles.

Em novembro de 2017, Gerard Haddock disse ao presidente da seccional da ABA (American Bar Association) do Texas, Tom Vick, que Diane, cansada da “guerra”, iria desistir de ser juíza, apesar de ela desejar se manter no cargo até a aposentadoria aos 65 anos, o que aconteceria em janeiro de 2022.

Quando a notícia correu, os adversários a converteram em decisão de Diane de se demitir imediatamente – e comemoraram no Facebook. Prova disso, seria a de que ela teria retirado vários objetos de decoração de seu gabinete. Diane não pretendia renunciar ao cargo, e retirou os objetos, que eram dela, para decorar um loft em que o casal pretendia passar uma temporada no centro de Fort Worth, Texas.

Um candidato do Partido Democrata ao cargo de juiz do Condado de Torrant poderia assistir de sua poltrona o desenrolar dessa “guerra” e apenas sorrir calado. Isto é, se houver um candidato democrata. O Texas é um estado republicano, onde os eleitores votam em republicanos. Assim, se o candidato não for um republicano convicto, mas quer ganhar a eleição, é melhor ser um RINO (republicano de fachada).

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 14 de outubro de 2018, 13h13

Comentários de leitores

1 comentário

Periculosidade autorizada!

José R (Advogado Autônomo)

Gente temerária e perigosa nas questões corporativas e de ego malferido,,,

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