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País dividido

Americanos financiam juiz acusado de assédio sexual e acusadora

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O processo de confirmação do juiz Brett Kavanaugh para a Suprema Corte dos EUA, em andamento no Senado, vem dividindo o país como poucas vezes se viu em sua história. Depois que o juiz foi acusado de assédio sexual pela psicóloga Christine Blasey Ford, sua nomeação esteve à beira do colapso. Isso disparou uma “guerra” entre os favoráveis e os contrários à nomeação de Kavanaugh — uma “guerra” que inclui ameaças contra as vidas do juiz e da denunciante.

No imbróglio, ficou claro que tanto Kavanaugh quanto Christine Ford precisariam contratar serviços de segurança e arcar com outras despesas que não cabiam em seus orçamentos. Por exemplo, a denunciante teve de mudar de residência e fazer viagens de avião sem ter dinheiro para as passagens.

Mas essa questão financeira foi rapidamente resolvida. Partidários da “causa” de Kavanaugh levantaram, para ele, mais de US$ 500 mil pela internet. Partidários da “causa” de Christine Ford levantaram, para ela, mais de US$ 700 mil, segundo o USA Today, a CBS News e outras publicações.

Nos dois casos, o dinheiro foi levantado através da plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) GoFundMe — que pode ser traduzido como “Me financie”; mas a ideia mais clara vem da frase popular “vamos fazer uma vaquinha para ajudar...”.

A página no GoFundMe em favor da “família Kavanaugh” foi criada por John Hawkins, dono do Right Wing News, um site conservador de notícias. Hawkins disse que abriu essa conta porque estava indignado com a forma com que o juiz e sua família estavam sendo tratados durante o processo de confirmação. Disse que o dinheiro era para a família, sem especificar destinação de verbas.

Duas páginas no GoFundMe foram criadas a favor de Christine Blasey Ford e sua família. Uma delas, com a chamada “Cubra as despesas de segurança da Dr. Blasey”, recebeu contribuições de 6 mil pessoas, levantando US$ 200 mil (ultrapassando a meta de US$ 175 mil) em nove dias. A página, criada pela professora da Universidade de Georgetown Heide Feldman, especifica que os fundos extras irão para “organizações que cobrem custos similares em situações comparáveis”.

A segunda página, com a chamada “Ajude Christine Blasey Ford”, recebeu contribuições de 11 mil pessoas, levantando mais de US$ 500 mil. O dinheiro é para a família, sem destinação de verbas específicas. A descrição da causa sugere que os doadores também ajudem outras organizações, como a Charity Rape Abuse and Incest National Network (Rainn). Os dois sites já cumpriram suas metas e interromperam o recebimento de doações.

Christine Ford e Kavanaugh fizeram depoimentos e foram interrogados na sexta-feira (28/9) em uma audiência do Comitê Judiciário do Senado. No final da audiência, os senadores aprovaram a indicação de Kavanaugh por 11 votos a 10, com a condição de adiar a votação em plenário por uma semana, para que as denúncias contra o juiz fossem investigadas pelo FBI, que deverá divulgar um relatório brevemente.

O GoFundMe é uma organização com fins lucrativos, sediada na Califórnia, que opera a plataforma de doações populares nos EUA, Canadá e Reino Unido. As doações se destinam, principalmente, a causas nobres, mas podem financiar planos de negócios, inventores, artistas, estudantes, cirurgias e contas médicas ou hospitalares, eventos etc.

Mas o GoFundMe também é usado para financiar causas duvidosas. Por exemplo, uma página da plataforma levantou US$ 183.259 para ajudar um policial branco que matou a tiros um rapaz negro, que estava desarmado, em Ferguson, Missouri. O policial nem sequer foi processado, e o projeto foi considerado “altamente racista e inflamatório”.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 4 de outubro de 2018, 10h56

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