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Jurista de jornal

Joaquim Falcão, o especialista em constitucionalismo javanês

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No livro Como a Picaretagem Conquistou o Mundo, o jornalista britânico Francis Wheen constatou que fazer sucesso, na atualidade, nada tem a ver com qualidades — no sentido original da expressão —, mas com a falta delas. Na política, no mundo dos negócios, na cultura de massas, o triunfo, a glória e o dinheiro, conclui Wheen, estão reservados, predominantemente, a vigaristas. Um exagero, por certo.

Em outro livro, lançado neste mês pelo advogado Walfrido Warde, o autor de O Espetáculo da Corrupção chegou à conclusão que algo pode ser ainda pior que a corrupção, quando a histeria se apossa dos corações e mentes do vulgo: o combate à corrupção.

A indústria do combate à corrupção chamou para o picadeiro iluminado um sem-número de falsos heróis na política, no jornalismo e, principalmente, no mundo jurídico. A falsidade se apura quando se compara o currículo e a obra dessas vestais com os sentimentos morais que elas expressam.

Eliana Calmon, Modesto Carvalhosa, Walter Maierovitch, Conrado Hübner Mendes, Luiz Flávio Gomes, Rodrigo Janot, a delegada Érica Mialik Marena, Sergio Moro e seus colegas da “força-tarefa” são alguns exemplos dos paladinos que ganharam notoriedade com a escalada punitivista que tomou conta do país e entrincheirou o Judiciário.

Mas ninguém surfou tão bem na luta do bem contra o mal quanto o “jurista” Joaquim Falcão. Jamais manejou um processo, como advogado, no TJ-RJ, no STJ ou no STF. Sua experiência como réu é maior. No entanto, virou o maior “especialista” em atacar juízes e ministros, para agradar as arquibancadas frenéticas que desejam ver restaurados o pelourinho e a guilhotina em praça pública.

A série de pesquisas que assinou, com o timbre da Fundação Getulio Vargas, sob o título de “Supremo em Números” é exemplo da sua habilidade: ele concluiu que o STF trabalha pouco. No ano passado, cada ministro julgou 12 mil processos — seriam 50 julgamentos por dia, considerando-se 240 dias úteis no ano. A pesquisa resultou em centenas de aparições de Falcão na imprensa e no seu afastamento da Fundação Getulio Vargas.

Falcão poderia ser personagem do conto O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto; de A teoria do Medalhão, de Machado de Assis; ou do livro de Francis Wheen. Ele foi o primeiro literato a ingressar na Academia Brasileira de Letras sem nenhum livro conhecido de sua autoria. Em seu currículo na plataforma Lattes, ele informa a autoria de 55 livros: praticamente todos, senão todos, são coletâneas de textos alheios ou dele próprio, publicados em jornais e sites — uma dica para jornalistas interessados na imortalidade: qualquer profissional com mais de cinco anos de ofício pode passar de cem livros com um simples corta-e-cola.

As peripécias de Joaquim Falcão para ocupar espaços chegam a ser cômicas. A mais recente, porém, foi longe demais. No afã de capitanear o cordão de vivandeiras e puxa-sacos que passaram a adular o presidente eleito, Jair Bolsonaro — outro personagem para o livro de Wheen —, o “jurista” atacou o decano do STF, ministro Celso de Mello.

Para o neobolsonarista, foi um desplante o ministro responder ao gravíssimo ataque do tosco Eduardo Bolsonaro, que falou em fechar o tribunal se seu pai fosse contrariado, já que quem manda no país é quem tem mais popularidade — algo com que, aparentemente, Falcão concorda —, embora o próprio pai tenha atribuído problemas psiquiátricos a quem pensa assim.

Em entrevista, Falcão decretou que ministros do Supremo devem fazer voto de silêncio. Para o constitucionalista, só o presidente pode falar e, ainda assim, nos autos. “O Celso de Mello inventou um cargo que não existe, que é o de decano”, protestou o oferecido professor, referindo-se ao título universal que qualquer aluno de Direito conhece e ao juiz qualificado pelo presidente da corte, Dias Toffoli, com toda razão, como “a maior autoridade moral da nação”.




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 é diretor da revista Consultor Jurídico e assessor de imprensa.

Revista Consultor Jurídico, 1 de novembro de 2018, 10h21

Comentários de leitores

11 comentários

Vergonha alheia.

Samuel Cremasco Pavan de Oliveira (Advogado Autônomo)

Difícil acreditar que texto tão rasteiro, tão vil, tenha sido publicado nesta revista eletrônica, que conquistou sua relevância no mundo jurídico com méritos, por sua qualidade.
E ainda é assinado pelo Diretor de Redação.

Se me coubesse dar um conselho, recomendaria a imediata exclusão desta lamentável página.

Essa passou mesmo do ponto

Flávio Ramos (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

As críticas anteriores aos desafetos da Conjur (Eliana Calmon e Joaquim Barbosa) podiam trazer uma certa desconfiança para o veículo mas mantinham uma honestidade expositiva. Dessa vez veio puro desapreço, sem proporção com o narrado nem com o esperado dos textos da Conjur.

Sério que publicaram isso?

O desperseguido político (Administrador)

Texto tosco! Sem mais...

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