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Embargos Culturais

​​A primavera de Casablanca, Said e o mundo dominado pelos dogmas e pela intolerância

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Em cartaz em algumas salas de cinema menos americanizadas o perturbador filme Primavera em Casablanca. Dirigido por Nabil Ayouch, e estrelado pela expressivamente linda Maryam Touzani (que também é autora do roteiro), o filme entrelaça cinco destinos que permitem uma refrescante leitura da expansão islâmica no norte da África. Já está entre os clássicos que definem um conceito de “oriente” com referências em premissas não essencialmente religiosas.

Um dos personagens, Ilyas, persiste no delírio onírico de que Bogart e Bergman protagonizaram Casablanca no Marrocos. O clássico de 1942 foi filmado em Los Angeles. A revelação dessa invenção comercial, no fim do filme, denúncia como compreendemos a cultura na ótica do que a indústria cultural nos impõe. É assunto tratado por Adorno e pelos intelectuais alemães que fugiram do nazismo para os Estados Unidos, onde mantiveram a chama da Escola de Frankfurt, assunto de um delicioso livro recentemente lançado no Brasil (Grande Hotel Abismo, Stuart Jeffreys, Cia. das Letras, 2018).

Primavera em Casablanca revela uma sociedade que se despedaça, por intermédio de seus habitantes, que são figuras desencontradas. Há uma forte denúncia de imposições linguísticas: o professor da aldeia deveria ensinar em árabe, para alunos que só entendiam berbere, no contexto de uma cultura que exigia o domínio do francês. Afinal, na voz de um protagonista, do que importa uma língua se a voz de seu falante lhe é proibida? Ou, de que importa a fé se nossos sonhos nos foram despedaçados também? Substancializa-se nesse filme o conceito levantino de “destino”, que nega o livre-arbítrio e que nos prende no mantra da expressão “maktub”, que encerra um mundo onde tudo já estaria pré-determinado. É a história de amor entre o professor Abdala e a misteriosa Yto.

A reflexão sobre esse belíssimo filme pode ser complementada pela leitura de Edward Said, particularmente sua tese sobre o “orientalismo”. Ao longo do filme todo, lembrei-me, o tempo todo, desse importantíssimo intelectual palestino. Ele estava naquela sala de cinema, em forma de desafio intelectual.

Said morreu de leucemia em 2003 após doze anos de luta contra a medonha doença. Viveu desassossegado com uma identidade palestina que teimava em formatar. Edward Said foi também um dos mais importantes críticos literários do século XX. Said nasceu em Jerusalém, em 1935, cidade sagrada pelas religiões, profanada pela política, ultrajada pela ganância, símbolo da vastidão e da exiguidade humanas. Said viveu em ambiente pietista anglicano, comprovando que casamentos e adultérios de Henrique VIII propiciaram doutrina que cativou até radicais levantinos.

Said foi criado no Cairo e valendo-se da nacionalidade secundária norte-americana do pai viveu em Boston e estudou em Harvard e em outras universidades norte-americanas. A partir de 1963, lecionou em Nova Iorque, ambiente cosmopolita que o albergou e que presenciou sua morte. Said sentia-se um errante. Como todas as crianças, inventou e criou seus pais, família, história. A riqueza do pai comerciante propiciou educação primorosa, elegante. Said militou na Organização Pró-Libertação da Palestina, da qual se afastou em oposição a Arafat, decepcionado que ficara com a corrupção das elites árabes.

Crítico da cultura, Said concebeu o oriente como invenção funcional do ocidente. Esse último caricaturou aquele primeiro, opondo progresso e atraso, civilização e barbárie. Romantizado em túnicas, camelos e sabres e sistemáticas orações prostradas para a cidade do Profeta, o oriente protagoniza estereótipos que justificam carnificinas, como recentemente vê-se em Bagdá.

É este o grande mote de seu mais importante livro, Orientalismo, publicado em 1978, e que foi traduzido em várias línguas. A tese consistia na concepção do oriente como uma invenção do ocidente, premissa empiricamente comprovada em farta pesquisa bibliográfica. Trata-se de um livro apaixonante.

Edward Said foi também um ativista de causas nobres e apontou para os enigmas da globalização perversa. Denunciou esse palco sangrento no qual os descontentes com a paz matam em nome de verdades messiânicas, tradutoras da ganância e da miserabilidade de uma existência centrada na burrice destruidora de espaços pluralistas e compreensivos. São esses poderosos que manipulam a cultura, criando uma falsa ética a partir de uma duvidosa estética, dimensionando a gangrena moral de nosso tempo.

Depois da obra de Said, nossa concepção do outro nunca mais foi a mesma. O outro é uma invenção nossa e, portanto, é um pouco de nós mesmos. Na teoria da cultura, que também transita nos valores do justo e do direito, a concepção de Said é comprovada pelas figuras imaginárias que frequentam ambientes que não conhecemos.

Quando Said morreu, ouviu-se um estranho ruído. É que os anjos choraram, enquanto os ainda perversos comemoravam um mundo cada dia mais vazio de idealistas e de humanistas. Edward Said foi um humanista, porque acreditava em valores permanentes entre os seres humanos. E também foi um idealista, porque acreditava que o combate em frentes culturais substitui a irracionalidade das guerras e a perversidade da exploração humana.

O filme Primavera em Casablanca também é um primor da estética humanista, no sentido que retrata a experiência humana como errática, desesperadora e substancialmente incompreensível. É um libelo contra as certezas dos dogmas e dos conformados. À bela imagem preta e branca de Casablanca, que Hollywood inventou como propaganda de guerra, o diretor Nabil Ayouch contrapôs uma efígie colorida, que espelha um mundo irracional, dominado pelos dogmas, pela intolerância e pelos desencontros.

 é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela USP e doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP. Tem MBA pela FGV-ESAF e pós-doutorados pela Universidade de Boston (Direito Comparado), pela UnB (Teoria Literária) e pela PUC-RS (Direito Constitucional). Professor e pesquisador visitante na Universidade da Califórnia (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 22 de julho de 2018, 8h05

Comentários de leitores

4 comentários

Outra opinião

Alexandre S. R. Cunha (Economista)

Pois também se fala que Orientalismo contém erros, omissões, meias verdades, quando não mentiras deliberadas. O livro seria, nas palavras de Nelson Ascher, "uma diatribe confusa, desinformada e raivosa que se resume na aplicação a um caso particular da batida tese genérica de acordo com a qual intelectuais são, em sua maioria, lacaios da classe dominante" (Folha de São Paulo, 2003). Um reforço à corrente do terceiro-mundismo. Que os (neo)marxistas exploraram muito bem, como de hábito.

A triste visão compartimentada do ocidentalismo

Advogado. Pós-graduando em Filosofia e Teoria do Direito. (Advogado Sócio de Escritório - Civil)

No campo da Filosofia há quem envide esforços em comprovar não a origem ocidental da filosofia, mas "A IMPOSSIBILIDADE da origem oriental da filosofia" (G. REALE), em um texto e em contexto que mais parece justificativo de prévias e apressadas conclusões do que propriamente investigativo da realidade. Demonstração clara e qualificada do nosso egocentrismo ocidental, que criou uma filosofia oficial e outra menor, subalterna, na medida em que os gregos pensavam por "amor à sabedoria" e os povos do oriente por mera "necessidade prática", como se isso toldasse os vastos e profundos conhecimentos adquiridos até então...

Só mais um capítulo da nossa burrice de todos os dias.

Puxa, até parece uma foto, bela quanto aos efeitos!

Citoyen (Advogado Sócio de Escritório - Empresarial)

Pois é.... parece sim, pela destreza e facilidade descritiva do Professor, uma foto em preto e branco, como sempre. Mas o grande problema das fotos em preto e branco é que flagram o instante, ainda que o instante se perpetue, mas não acrescentam ao instante um caminho, uma cor. Ou será que não o fazem porque o caminho é sempre, para aqueles a quem se o indica, uma negação do "livro arbítrio" individual? __ O fato é que o "livre arbítrio" é, para quem o deveria exercer, uma solução para um processo de "livre artíbrio", isto é, decisões que se fazem sobre opções. A lezeira intelectual tem levado o Ser Humano, pior talvez, o Cidadão a não buscar alcançar o "seu livre arbítrio", exercendo, assim, seu processo de escolhas sobre uma solução que lhe é oferecida, e que lhe parece satisfazer a necessidade presente ao tempo da oferta-escolha. O tema, com alterações de locais, parece que ocorrerá no Brasil, brevemente, no processo de escolha eleitoral. Aceitarão os Eleitores, a quem se explicam os objetivos em lingua russa ou chinesa, ou até inglesa, os meios que serão adotados, simplesmente, para que possam VIVER COM ALEGRIA, SEM TRABALHO ou COM POUCO TRABALHO; SEM DOENÇA ou com TRATAMENTO para a DOENÇA QUE VIER, e assim para cada território do interesse privado. E todos ficarão felizes, e todos votarão naqueles que USAREM, apenas USAREM, os VOCÁBULOS CHAVES que À ALMA de CADA UM satisfizer, ainda que as EXPLICAÇÕES sobre os MEIOS continuem a ser formuladas em RUSSO, CHINÊS, INGLÊS ou qualquer outra lingua, porque não importa a COMPREENSÃO dos MEIOS, só importa a PALAVRA do FIM. E assim caminha a HUMANIDADE, aqui, em Casablanca, na Europa, com relação à África, à Síria, e, de modo geral, em qualquer parte do nosso Mundo.

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