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Opinião

Brasil precisa começar a combater seus "golens institucionais"

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Vendo os movimentos recentes das instituições do Brasil, me veio à mente a figura do “Golem”. Esses seres da mitologia judaica eram monstruosidades criadas a partir de matéria inanimada (pedra e argila mais comumente) e trazidos à vida por poderes mágicos e/ou divinos. Completado o processo, eles são concebidos para fazer o bem, seguindo tola e cegamente seus propósitos, e acabam por se tornar incontroláveis e uma força a ser combatida.

Fazendo um paralelo com essa mitologia, é quase divertido pensar que o Brasil está vendo a conjuração de diversos “Golens Institucionais”, cuja força vital está na falência moral, educacional, civilizatória, dentre outras, que já há gerações estamos experimentando.

Os elementos para as aberraçōes jurídicas produzidas pela lava-jato, atos do congresso, ascensão de políticos populistas e para o recrudescimento do “punitivismo” e extremismos de todas as formas, cores e tamanhos, que estavam cozinhando em fogo baixo há muitas décadas.

E nem se diga que essas criaturas vieram de surpresa. Anteriormente aos duros anos pelos quais passamos - já pedindo vênia para usar e simplificar a tradição da alquimia - foram registrados diversos “homúnculos” (também seres místicos e artificiais, porém bem mais diminutos) no país: alguns com barba espessa e falando alto o próprio nome; outros se travestindo de palhaços e fazendo gracinhas; muitos repetindo bordões à exaustão; bem como, num fenômeno de manada, uma verdadeira comunidade desses diabretes agredindo física e verbalmente outros (até mesmo lhes alvejando com emissões corporais), dentre outros espetáculos grotescos quando diante de votações televisionadas por emissoras com algum Ibope.

Aos mais cultivados parecia algo não mais que incômodo ou triste, que seria apagado pelo progresso. Ledo engano. O fato é que esses pequenos seres, com seus poucos centímetros, agradavam mais ao povo do que aqueles sofocratas de padaria esperavam.

Brasileiros com problemas reais, cujas dimensões são, em inaceitável parte, recordistas no planeta, uma hora teriam que tentar resolver suas vidas.

Apenas para ilustrar, o Brasil é o país com maior número absoluto de homicídios do mundo, bem como com resultado análogo em número (baixo) de crimes investigados; sistema de saúde, educação e saneamento caros e deficitários; instituições públicas inchadas, ineficientes e geradoras de desigualdade produzindo funcionários mal e atrasadamente pagos abaixo de verdadeiros marajás, seres supremos (alimentados pelos “poucos” impostos que alguns defendem) cujos privilégios fazem o teto constitucional virar piso com valores indecentes de vencimentos, muitos na casa da centena de milhar de reais. Poderia continuar esse rol mas, parando aqui, os quilowatts de energia e/ou as florestas para impressão agradecem.

Com efeito, tudo isso compôs e potencializou o cenário de terra arrasada da economia, do desemprego e.. ‘voilá’! Prontos o altar e a matéria prima (argila é lama, certo?) para os místicos da política, imprensa e instituições públicas diversas criarem, declaradamente para a solução dessas questões, seus “Golens”.

Neste ponto, todos temos aquela vontade de culpar alguém ou algo: direita, esquerda, coxinhas, petralhas, classe média, black blocks, movimentos sociais, religiosos, sindicalistas, empresários, autoridades policiais e judiciárias, criminosos comuns ou organizados, políticos, industriais, funcionários comissionados, latifundiários, militantes, apolíticos, artistas, banqueiros, estudantes, organismos internacionais, países estrangeiros, minorias, maiorias, políticas repressivas, permissivas, etc.. 

Diante de tantos alvos (não sei mais quem sobra!), de tantos problemas, de tanto tempo, não acho que minha inclinação pela responsabilidade individual seja maculada por entender que o silêncio dos bons não pode ser escusado neste contexto.

Agora, os “Golens” são tudo o que o povo vê, com uma ladainha, como ruído de fundo, entoada pelos integrantes da velha política, impotentes que estão diante desses Leviatãs.

Fato é que, no desenho atual, tais personagens vão não só continuar a ser protagonistas, mas também a proliferar.

Apenas o mesmo povo, unido de forma suficiente — outorgando ou não seu poder a pessoas públicas, estadistas, com carisma e a coragem para arriscar seu capital político — pode reconduzir essas criaturas artificiais à matéria inerte original.

Carlos Valentim é advogado.

Revista Consultor Jurídico, 12 de janeiro de 2018, 6h49

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