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Ideias do Milênio

"Hoje, a Otan tem uma visão mais ampla de si mesma como organização de segurança"

Wikimedia Commons

Entrevista concedida pela vice-secretária-geral da Otan, Rose Gottemoeller, ao jornalista Luis Fernando da Silva Pinto para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (17h30), quartas (15h30), quintas (6h30) e domingos (14h05).

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Rose Gottemoeller é a primeira mulher na cúpula da maior estrutura militar do mundo, a Otan, que combina as forças de 28 países: dos Estados Unidos e Canadá aqui na América do Norte, a mais de 20 nações europeias e a Turquia, na fronteira com a Ásia. Uma força de mais de 7 milhões de militares e o armamento de todos esses países combinados defendem um compromisso simples, mas categórico: o de que qualquer ataque contra um integrante da coalizão é considerado um ataque contra todos e deve ser respondido com um arsenal que inclui armas nucleares. Uma vantagem: Rose Gottemoeller é especialista nesse tipo de armamento.

Durante a campanha, Donald Trump questionava a efetividade da Otan. Chegou a dizer que seria melhor acabar com a aliança. Depois de eleito ele amenizou o discurso e passou a questionar os custos elevados para manter essa enorme força militar. Desde 2006, os 28 países membros da Otan se comprometem a dedicar pelo menos 2% de seu PIB para os esforços de defesa, mas, além dos Estados Unidos, apenas o Reino Unido, a Grécia, a Estônia e a Polônia cumpriram o trato. Para Trump, que tem cabeça de empresário, essa conta não fecha, pois os Estados Unidos gastam demais e recebem de menos, é um acordo falido.

Jornal da GloboNews (19/3/2017): A Alemanha rechaçou a acusação do presidente americano Donald Trump sobre uma suposta dívida do país com a Otan, que é a Aliança Militar do Atlântico Norte. Trump fez essa acusação em uma rede social. Ele disse ainda que os Estados Unidos deveriam receber mais pela defesa cara e poderosa que fornecem à Alemanha.

Luis Fernando da Silva Pinto — Desde a criação, em 1949, podemos dizer que o mundo está mais seguro graças à Otan?
Rose Gottemoeller —
A história da Otan nos anos 1950 é fascinante, porque a Europa ainda se recuperava da Segunda Guerra Mundial, e a Otan provou ser um instrumento extraordinário na resolução de algumas das principais questões de segurança provocadas pela Segunda Guerra. Ao mesmo tempo, questões econômicas importantes também eram resolvidas, como, por exemplo, unir França e Alemanha para formar a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, e os dois países estavam, antes disso, na década anterior, em lados opostos do conflito. Então aconteceram muitas coisas nos anos 1950 que estabilizaram a Europa, deixaram a guerra para trás e a colocaram no caminho de sua atual prosperidade. E a Otan participou ativamente desse esforço.

Luis Fernando Silva Pinto — Existe diferença entre ter uma mulher como vice-secretária-geral da Otan e um homem?
Rose Gottemoeller —
Claro. O meu sexo é diferente, o que posso dizer? Então essa é uma diferença, mas se você se refere à forma como vou fazer meu trabalho, acho que cada indivíduo aborda um trabalho de uma forma diferente e, quando penso nos papéis que posso interpretar na Otan, vejo que meus interesses particulares, por exemplo, passei grande parte de minha carreira trabalhando com questões relacionadas à União Soviética e, mais recentemente, à Federação Russa, então posso ajudar a Otan a atravessar esse período delicado que ela está vivendo, como desfazer impasses provocados pela Rússia, cujo comportamento recente tem sido muito difícil. A invasão da Crimeia é um exemplo claro disso. Portanto, tentar desfazer impasses e também promover o diálogo. Acho que posso ter um papel importante e ajudar a Otan a atravessar esse período.

Luis Fernando Silva Pinto — A minha pergunta tem duas falácias. De certa forma, pergunto se a mente de uma administradora mulher é diferente, ou seja, melhor do que a de seus colegas homens. Por outro lado, e aí está a falácia, por que deveria haver alguma diferença?
Rose Gottemoeller —
Sei que há muitas pesquisas do tipo 'mulheres são de Vênus, homens são de Marte' e têm abordagens diferentes. Talvez seja o caso, mas, na minha vida, não vejo isso como algo importante. Para mim, importante é ter pragmatismo, saber solucionar problemas e fazer com que os responsáveis pelo trabalho recebam o crédito. Não se pode conquistar muita coisa em Washington sem se importar com quem leva o crédito. Isso é importante, então vou levar essa lição comigo para Bruxelas.

Luis Fernando Silva Pinto — Nós encarávamos a Otan como a aliança que enfrentava um antagonista, o Pacto de Varsóvia, mas agora ela é definida como uma organização de gerenciamento de crises com capacidade militar. Não sei se entendo bem essa definição. Pode me ajudar?
Rose Gottemoeller —
E eu francamente acho que a Otan precisa passar por outra autoanálise porque temos de lidar com a ameaça ressurgente vinda da Rússia, isso é uma coisa, mas a Otan também pode ajudar muito se dedicando a outras crises significativas na Europa. No momento, a Otan está trabalhando no Mar Egeu, colaborando com as patrulhas de fronteira da ONU e as guardas costeiras para fornecer informações sobre migrantes que estão deixando o Oriente Médio às vezes em circunstâncias muito perigosas e tentando atravessar o Mediterrâneo e o Egeu. E forças navais da Otan trabalhando na área estão salvando muitas vidas. Portanto, a Otan tem uma visão mais ampla de si mesma como organização de segurança, e acho isso positivo.

Luis Fernando Silva Pinto — Porém, existem realidades como a invasão da Crimeia em 2014.

Jornal das Dez (10/3/2014): Os homens armados, acusados de serem milicianos apoiados pela Rússia, tomaram a base naval que fica entre as duas principais cidades da Crimeia, Sebastopol e Simferopol. Eles deram tiros para o alto. Os militares ucranianos de serviço foram obrigados a se render. Um comboio com mais de 100 veículos militares russos chegou hoje a Sebastopol. Os milicianos usam uniformes russos sem insígnias, mas o governo de Moscou nega que tenha invadido a Crimeia.

Luis Fernando Silva Pinto — A Otan não deveria agir, pois a Ucrânia não é um país-membro. Mas a Ucrânia solicitou admissão em 2008, que foi negada. Em retrospecto, pode-se dizer que não foi uma atitude inteligente?
Rose Gottemoeller —
Eu diria que o interesse da Otan aí está indissociado de seu papel de uma aliança de segurança baseada na lei internacional, e ela presta atenção à necessidade de defender princípios e normas legais internacionais, soberania, integridade territorial... A Otan defende esses princípios muito básicos da lei internacional. Então é claro que nos preocuparemos com ameaças aos princípios de soberania e integridade territorial em nossas fronteiras. E isso não foi decidido pela Otan, mas a ONU e os EUA aplicaram sanções econômicas muito fortes contra a Rússia, então a própria Europa, seja através da Otan ou da UE, reagiu de forma enérgica contra a invasão da Rússia ao território ucraniano.

Luis Fernando Silva Pinto — O clube de países que têm arma nuclear só cresce, não para. A senhora é especialista em armas nucleares. Eu gostaria de perguntar se a declaração de Marshall McLuhan de que deveríamos construir um monumento à bomba em todas as cidades porque ela evita guerras corre o risco de perder a validade.
Rose Gottemoeller —
Antes eu gostaria de discordar de sua afirmação de que o clube de nações nucleares só cresce. Acho que temos alguns exemplos notáveis. A Coreia do Norte acabou de testar novamente uma arma nuclear, mas é importante lembrar que os norte-coreanos são o único país neste século que testou armas nucleares.

Jornal das Dez (9/9/2016): A explosão nuclear aconteceu no aniversário de 68 anos da criação da Coreia do Norte e causou um terremoto de magnitude 5.3 na escala Richter.

Park Geun-Hye, presidente da Coreia do Sul: "Nós e a comunidade internacional chegamos ao limite da nossa paciência. Acho que a condição mental de Kim Jong-un, que não ouve a comunidade internacional e os países vizinhos, está fora de controle".

Rose Gottemoeller — Todos os outros países do mundo, nucleares e não nucleares, continuam obedecendo à moratória para testes nucleares, até mesmo enquanto negociávamos o tratado de proibição total de testes nucleares. Então também há uma tendência de redução de armas nucleares. Quero mencionar o Brasil e a Argentina. Nos anos 1980, vocês tinham programas nucleares muito avançados com os regimes militares.

Luis Fernando Silva Pinto — Os dois países.
Rose Gottemoeller —
Os dois. E uma decisão heroica e muito importante foi tomada na época com a criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares, a Abacc, um mecanismo muito importante e um exemplo para o restante do mundo sobre como melhorar a confiança e a transparência na questão nuclear, e ela levou a uma base muito forte para o Tratado de Tlatelolco, que criou uma América Latina livre de armas nucleares. Então, eu gostaria de lembrar às pessoas que todo o hemisfério sul é uma zona livre de armas nucleares, da Antártida à América Latina, da África à Micronésia e ao Pacífico. Foi uma conquista importante da diplomacia e da política numa capital tão importante quanto Brasília. Lamento, mas devo discordar de seu comentário de que o clube cresceu. Temos problemas sérios com países como a Coreia do Norte, mas isso não significa que esteja fugindo do controle.

Luis Fernando Silva Pinto — Talvez minha afirmação tenha sido mais histórica, porque hoje nós temos pelo menos nove países e 15 mil armas nucleares em todo o mundo, então, em comparação às seis originais, o arsenal cresceu.
Rose Gottemoeller —
Ou à arma original.

Luis Fernando Silva Pinto — Sim, a arma original.
Rose Gottemoeller —
Isso não ia durar.

Luis Fernando Silva Pinto — Nem todas essas armas são novas e não sei se alguém sabe se a manutenção delas é adequada. Estamos correndo por aí de olhos vendados ou estamos perfeitamente seguros e tudo vai bem?
Rose Gottemoeller —
A sua pergunta é muito importante, mas quero que as pessoas saibam que o desarmamento está acontecendo. Em relação à sua pergunta sobre armas perdidas e material nuclear e até ogivas indo parar nas mãos de terroristas e do mercado negro...

Luis Fernando Silva Pinto — Essa ia ser a minha próxima pergunta!
Rose Gottemoeller —
Ah, sim. Eu imaginei, porque você perguntou sobre segurança. Acho que isso tem recebido muita atenção desde o fim da União Soviética, no início da década de 1990. Temia-se na época que o arsenal nuclear russo, um arsenal vastíssimo, de repente os portões se abririam, os guardas iriam embora, deixariam de receber material físsil e armas nucleares cairiam nas mãos erradas.

Jornal Nacional (23/10/1978): As negociações Salt, como são chamadas, começaram em 73. Os soviéticos querem limitar o número desses mísseis. As negociações Salt vão ficando mais difíceis porque os armamentos estão cada vez mais sofisticados. Antes se discutia a quantidade de armas de cada lado, agora se discute muito mais a qualidade e a capacidade de destruir de cada arma.

Luis Fernando Silva Pinto — Na Europa, aqui nos EUA, em qualquer lugar, no Rio, onde aconteceu a Olimpíada, qual é o nível de preocupação de alguém que entende muito de armas nucleares de que algo assim aconteça?
Rose Gottemoeller —
É uma preocupação constante hoje em dia, e é por isso que os países, a começar pelo meu, mas o Brasil também está muito envolvido, levam o problema de proteção, controle e contabilidade de material nuclear tão a sério, e também de material radiológico, porque tem de ser assim. É a única abordagem responsável: conhecer a ameaça e entendê-la. As organizações terroristas admitem que querem adquirir esse tipo de capacidade. Então nós temos de estar atentos o tempo todo.

Luis Fernando Silva Pinto — É surpreendente o fato de eles ainda não terem conseguido?
Rose Gottemoeller —
Acho que trabalhamos muito para evitar que eles não consigam, mas não podemos baixar a guarda. Temos de continuar a disponibilizar recursos para isso. Aliás, foi bom você mencionar a Olimpíada do Rio. Eu adorei. A cidade realmente ficou linda. Eu me diverti do início ao fim, mas eu também sabia o que estava por trás de parte do trabalho que foi feito com foco no antiterrorismo para garantir, por exemplo, que nenhuma ameaça nuclear ou radiológica se concretizasse. Eu sei que os governos do Brasil e do Rio se empenharam nisso e trabalharam com afinco.

Luis Fernando Silva Pinto — No Oriente Médio, uma linha de lógica é que, se o Irã resolver realmente construir uma arma, a Arábia Saudita também o fará e vocês teriam uma situação parecida com aquela entre Índia e Paquistão. Isso é inevitável?
Rose Gottemoeller —
Não acredito que seja, de forma alguma. E esse foi o objetivo da negociação que John Kerry comandou no ano passado. Uma grande negociação internacional entre Rússia, China, Reino Unido, França, Alemanha. A UE se envolveu, além dos iranianos, claro, e eles completaram um plano de ação conjunta, que impôs barreiras à conclusão das ambições nucleares do Irã. E ele tem tido muito sucesso em termos de desmantelar peças muito importantes do programa nuclear iraniano. Por exemplo, o reator de água pesada deles, que seria muito importante para produzir materiais físseis que seriam usados em armas nucleares. Eles retiraram a peça central do reator e substituíram por peças que o transformarão num reator de pesquisa. E nós poderemos acompanhar o que acontece lá, portanto passos muito importantes foram dados para garantir que não haja a possibilidade de o Irã adquirir rapidamente uma arma nuclear.

Luis Fernando Silva Pinto — E aí sobra a Arábia Saudita.
Rose Gottemoeller —
Nesse caso, de novo, acho que sua pergunta sobre a chamada proliferação nuclear em cascata é uma preocupação constante, mas quando pensamos nessa proliferação em cascata temos que considerar como os países enxergam seus próprios interesses. No caso da Arábia Saudita, ela faz parte de uma aliança forte, colabora muito com os EUA, nós trabalhamos com eles e com outros países da região para desenvolver uma maior colaboração em matéria de defesa, então devemos nos perguntar por que, nessas circunstâncias, a Arábia Saudita ia preferir o incômodo, a condenação e as limitações internacionais que viriam se optasse por um programa de armas nucleares. Vimos o que aconteceu com a produção de petróleo do Irã devido às rígidas sanções contra o país, então acho muito importante avaliar como os países calculam seus interesses, particularmente quando suas preocupações com segurança são tratadas de outras formas.

Luis Fernando Silva Pinto — Houve uma época em que a senhora perdia o sono por causa de um risco nuclear em potencial e que hoje não perde mais ou vice-versa?
Rose Gottemoeller —
É uma ótima pergunta. Na época em que a União Soviética estava se desintegrando, em 1991 e 1992, eu não trabalhava no governo, ainda estava na Rand Corporation, mas muitos de nós estávamos muito preocupados, achávamos que havia uma ameaça real de que armas ou materiais nucleares pudessem cair nas mãos de terroristas. Houve alguns incidentes famosos naquela época que aumentaram essas preocupações. Mas nós trabalhamos muito nos últimos 20 anos para conscientizar o mundo sobre esse problema e para levar os países a adotar medidas para melhorar a proteção nuclear, o controle e a contabilidade. Então eu me sinto melhor hoje em dia, mas ainda acho importante não relaxarmos. Precisamos continuar. O trabalho nunca termina. Não podemos dizer: 'Basta construir uma cerca aqui, instalar um sistema de contabilidade ali'. Um sistema de contabilidade fica obsoleto em poucos anos. É preciso manter esses programas, fazer a manutenção das instalações, garantir que os recursos necessários sejam alocados para essa missão.

Jornal das Dez (27/5/2016): Hiroshima viveu o horror do primeiro ataque atômico da história. Em questão de segundos, uma bomba nuclear lançada pelos EUA arrasou a cidade inteira e deixou cerca de 140 mil mortos. O ataque a Hiroshima e Nagasaki, três dias depois, colocou um ponto final na Segunda Guerra Mundial, mas deixou cicatrizes profundas na história dos dois países.

Luis Fernando Silva Pinto — Para terminar, a última bomba foi lançada sobre uma cidade em 1945. Você tem um herói, homem ou mulher, que desde então foi muito importante para que esse fato não tenha se repetido até hoje?
Rose Gottemoeller —
O meu herói nesse aspecto é Einstein, porque Einstein se posicionou nos anos 1950, depois de participar do Projeto Manhattan... Muitos cientistas se posicionaram naquele período, mas ele e o filósofo Bertrand Russell escreveram um manifesto muito importante no início dos anos 1950, no qual alertavam para o perigo existencial da proliferação nuclear, de armas nucleares se espalhando por todo o mundo, e falaram da necessidade de se criarem regimes de proteção e também de desarmamento. Esse deveria ser um objetivo internacional dos governos. Então não devo descartar Bertrand Russell de forma alguma, mas era Einstein que sabia, tendo começado a trabalhar nisso no início do século 20, do perigo existencial das armas nucleares, e o fato de um cientista tão envolvido se posicionar eu achei um ato heroico. Então eu diria que ele é meu herói.

Revista Consultor Jurídico, 6 de janeiro de 2018, 9h58

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OTAN

O IDEÓLOGO (Outros)

Rose Eilene Gottemoeller (nascida em 24 de março de 1953) é um diplomata americano que é o atual secretário-geral adjunto da OTAN , que atua sob o secretário-geral Jens Stoltenberg . Ela anteriormente serviu em seu próprio país como Subsecretaria de Estado para Controle de Armas e Segurança Internacional no Departamento de Estado dos EUA (Fonte Wikipédia).

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