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Juiz e acadêmico

Nova faculdade no Rio homenageia desembargador Paulo César Salomão

A cidade de Miguel Pereira, no Rio de Janeiro, inaugurou na sexta-feira (23/2) o primeiro campus da Faculdade de Miguel Pereira. O nome das instalações homenageia o desembargador Paulo César Salomão, desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e histórica liderança do Judiciário local, morto há dez anos.

Desembargador Paulo César Salomão é homenageado em Faculdade de Miguel Pereira, no Rio de Janeiro.
TRE-RJ

O discurso inaugural do campus em homenagem ao desembargador ficou a cargo do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ex-desembargador do TJ do Rio e amigo de longa data do homenageado. Na fala, relembrou dos momentos de amizade com o irmão mais velho, companheiro da militância pela valorização da magistratura.

Paulo César Salomão era magistrado de carreira, juiz desde 1982. Foi nomeado desembargador em 1998, mas antes disso foi corregedor da Justiça Eleitoral e titular da vara de falências do estado. Era especialista em Direito Empresarial. Entre 1981 e 1982, foi membro da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, a primeira da história do Brasil, única anterior à Constituição de 1988.

*Notícia editada para correção

Leia o discurso do ministro Luiz Fux:

Permitam-me saudar primeiramente a Lourdinha, e seus filhos, Andrea, Paulinho e Carol, porquanto não vou fazer discurso protocolar senão lavrar um testamento de fé e de gratidão em prol do valor “amizade”.

Tarefa essa difícil de erguer a minha voz, repleto de emoção e saudade para participar deste ato de inauguração de uma casa de cultura com o nome do meu saudoso amigo Paulo Cesar Salomão, o desembargador, o amigo Paulão.

O momento é singular. A inauguração de um novo campus universitário acompanha a história prospectiva do mundo, no sentido de que o maior patrimônio do ser humano será o “saber”. Como dizia Rui: “Na ordem da sacralidade das palavras a educação vem abaixo apenas da ‘oração’”.

Paulo Cesar Salomão, como magistrado, destacava-se pela sua independência, aquela de que nos falava Couture, “a independência olímpica que envolve os juízes que não temem”, e ao mesmo tempo era altivo com os opulentos e caridoso com os indigentes.

Relembro-me de uma luta política que travávamos em prol dos magistrados de primeira instância e que influiria no salário dos desembargadores. Certa feita um desembargador conhecido como erga omnes abordou-nos no térreo do tribunal e disse ao Paulo: se o senhor não parar com essa campanha, seu nome vai parar no Conselho da Magistratura. E o Paulo respondeu: “O Conselho vai sustentar os meus filhos? Então eu vou continuar a nossa luta que é justa!

Paulo era atualizado, bom jurista, pensava nas virtualidades da lei, como deveria ser aplicada ao caso concreto, e seguindo Calamandrei entendia que primeiro dever-se-ia construir uma decisão justa para depois dar-lhe uma roupagem jurídica. Para ele, era assim que se fazia justiça.

Destacou-se no campo do Direito Empresarial, mas seu conhecimento era enciclopédico, uma vez que atuara como defensor e juiz em todas as áreas do Direito e em diversas comarcas.

Arregimentou inúmeros amigos na magistratura , mas não era homem de receber aplauso fácil, pois para ele sinceridade não tinha limite: “Dizia aquilo que pensava até o fim”.

O Paulo magistrado e professor está consagrado no nome de prédios públicos da magistratura e, agora, como acadêmico, neste campus universitário.

Desejo mesmo falar do meu amigo Paulão, e nesse instante me vem à mente a sábia frase “amigo é uma família que o coração escolhe”.

Fomos amigos, parceiros, cúmplices e terapeutas um do outro. Fomos pais dos nossos filhos na mesma época.

Lourdinha, sua companheira querida e exemplar da primeira à última hora, mantinha e mantém até hoje com a minha mulher Anne uma amizade sincera, um reflexo feminino daquilo que eu e Paulo representávamos

Muitas manhãs; eu e Paulo passeávamos no calçadão com as crianças antes do trabalho, ele com a Andrea eu com a Marianna, depois ele com o Paulinho e a Carol e eu com a Marianna e o Rodrigo.

Nossa amizade transbordava; convivíamos no trabalho durante os dias úteis da semana; saíamos sábados à noite e no domingo fazíamos o famoso “churrasco na laje do Paulão”.

Por isso, pra mim a imagem do Paulo se chama “saudade”.

Aprendi com o Paulão que os amigos que nos acompanham no mundo fazem parte de quem somos.

Mas viver também não é fácil.

Veio a enfermidade e eu não queria acreditar. O Luis Felipe, hoje ministro do Superior Tribunal de Justiça, também conhecido como Felipão que hoje faz as suas vezes com uma amizade sincera e que compartilha comigo os sonhos e as desventuras, procurava me esconder de forma sublime a gravidade do quadro. Sabia o quanto me doía saber de um ocaso próximo.

Um dia li um livro cujo título era “Anatomia da Esperança”. Li e reli e na essência descobri que a fé era o coração da cura. Escrevi uma carta para o Paulo e disse-lhe “Deus faz as contas: no caminhar da nossa caridade e conduta tem muito saldo de ‘vida’”.

Ele plastificou a mensagem e andava com ela no bolso.

No dia da grande noite coloquei-a junto a ele naquele sono que o levaria à finitude da vida.

Mas não há só tristeza. Há um fato pitoresco antes de sua passagem espiritual. Próximo ao final de sua nobre existência o Paulo me ligava para tomarmos uma caipirinha escondidos de todos, porque o Felipão nas nossas reuniões era seu “controller” e dizia que iria embora se ele tomasse mais uma.

Eu ligava pro médico e dizia: doutor ele precisa partir feliz! Autorizado, eu o pegava na esquina sem que ninguém o visse e passávamos a tarde relembrando a nossa trajetória e resolvendo os problemas do “mundo” como sói ocorrer em mesa de bar. Depois o levava de volta repleto de felicidade pensando na vida, naqueles devaneios que nos movem.

E eu me despedia dele dizendo: “Não chegou a sua hora, não”.

Mas um dia ela chegou e tirou um pedaço de mim. É muito bom olhar como bom amigo e enxergar o Paulão aqui do meu lado recebendo a contrapartida de uma vida exemplar como chefe de família, magistrado e professor.

Muitas forças foram necessárias dos amigos e dos familiares para superar o padecimento, sobretudo de uma mãe que se deparara com a inversão dos sofrimentos da vida;

E estava ali condoída D. Julia Salomão essa mãe que encarna o poema Para Sempre, de Carlos Drummond de Andrade:

“Por que Deus permite que as mães vão embora?

Mãe não tem limite, é tempo sem hora, é luz que não se apaga

Mãe é eternidade, fica sempre junto ao seu filho

Se eu fosse rei do mundo baixava uma lei: mãe não morre nunca.”

Esse o sentimento dos amigos e da família por D.Julia Salomão; uma matriarca ímpar e que conduz a união familiar de todos os que conviviam com o Paulão.

Amigos Presentes

Na vida, há sentimentos que acabam,

Há verão, há inverno, há o hoje e o amanhã

Mas há o perene, o permanente como Paulo Cesar Salomão, que me ensinou que a amizade é uma das mais nobres relações que se pode manter nesse mundo de Deus.

Que o senhor das ideias e das palavras permita que no dia de hoje o Paulão esteja participando dessa homenagem e o coloque no mais alto patamar dos homens que amaram o próximo, a verdade e a justiça.

Hoje antes de vir para cá senti falta de conversar com o Paulão. Mas o faço agora:

BOM DIA, PAULÃO! ESSA FESTA É PARA COMEMORAR A BELA EXISTÊNCIA QUE VOCÊ TEVE AQUI ENTRE NÓS.

ESTEJA CIENTE DE QUE NÓS NÃO SÓ NOS LEMBRAREMOS SEMPRE DE VOCÊ, MAS ANTES, NUNCA NOS ESQUECEREMOS.

Que Deus te guarde!

Revista Consultor Jurídico, 27 de fevereiro de 2018, 15h52

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