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Magistrados x imprensa

Ajufe critica "campanha difamatória" de veículos da mídia contra o Judiciário

A Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe) criticou neste domingo (11/2) o que chama de "campanha difamatória e desmoralizadora" de veículos da imprensa contra o Judiciário.

"Querem trazer para o Judiciário uma crise que não é sua e nem foi criada por ele. A corrupção endêmica que se instalou no Brasil não é de responsabilidade dos seus juízes, mas dos que se utilizaram da máquina pública para o locupletamento", afirmou a entidade, em nota assinada por seu presidente, Roberto Veloso.

O texto é uma resposta ao editorial deste domingo do jornal Estado de S. Paulo, intitulado "O cansaço do povo", que faz duras críticas ao Poder Judiciário. A Ajufe compara a situação brasileira à operação mãos limpas da Itália, que vivenciou, afirma, "a perseguição aos magistrados que atuaram firmemente na apuração e condenação dos criminosos" e manobras legislativas para reduzir prazos prescricionais e extinguir crimes.

Para construir seu argumento, o editorial do Estadão cita o discurso da presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, ministra Cármen Lúcia, em visita a Goiás para a cerimônia de inauguração de um presídio, em que ela diz que "o cidadão brasileiro está cansado da ineficiência de todos nós [autoridades públicas], cansado inclusive de nós do sistema Judiciário".

"Os brasileiros estão cansados de um Poder Judiciário que criminaliza a política indistintamente e, assim agindo, avilta um dos fundamentos da democracia representativa", diz o jornal, que, a partir daí, elenca vários exemplos para endossar o ponto que defende. O texto menciona férias de 60 dias para além de recessos do Judiciário e morosidade em tramitação e decisões de processos, como em ações da operação "lava jato", além de classificar como "auxílios imorais" aqueles recebidos pelos integrantes do Judiciário.

A publicação ainda acrescenta que o Poder Judiciário é composto de cidadãos "imunes ao alcance da lei" por terem sido aprovados em concurso público e que, quando punidos, o são com uma "polpuda aposentadoria compulsória". Diz também que, por interesses corporativos, "boicota projetos fundamentais para o país, como a reforma da Previdência", ao suspender campanhas governamentais sobre a mesma. Por fim, afirma que tem como um ponto de esperança a fala da ministra Cármen Lúcia, de que esse Poder Judiciário "esteja com os dias contados".

A Ajufe rechaçou as críticas afirmando que, ao contrário do que se pode pensar, os magistrados estão submetidos a controle e que são responsáveis pelo julgamento de grandes processos de corrupção envolvendo políticos e poderosos empresários. Além disso, o auxílio-moradia estaria resguardado pela legislação. Diz ainda que a magistratura está submetida a uma "enorme carga tributária".

Leia a íntegra da nota da Ajufe:

NOTA PÚBLICA SOBRE O EDITORIAL DO ESTADÃO

A Ajufe - Associação dos Juízes Federais do Brasil, entidade de classe de âmbito nacional da magistratura federal, vem a público se manifestar sobre o editorial do jornal O Estado de São Paulo publicado neste domingo (11/02), intitulado "O cansaço do povo".

Repudiamos, veementemente, a campanha difamatória e desmoralizadora a que tem sido submetido o Poder Judiciário e seus membros, em uma época de intenso enfrentamento à corrupção, quando poderosos e ocupantes de cargos importantes da República estão sentados nos bancos dos réus.

Querem trazer para o Judiciário uma crise que não é sua e nem foi criada por ele. A corrupção endêmica que se instalou no Brasil não é de responsabilidade dos seus juízes, mas dos que se utilizaram da máquina pública para o locupletamento.

Os magistrados, ao contrário do que muitos apregoam, estão submetidos ao controle das partes, das corregedorias e dos tribunais, realizando um trabalho nunca antes visto no Brasil e agora são alvos de ataques covardes, atingidos nas suas honras com o intuito indireto de desacreditar as investigações e julgamentos realizados até o presente momento.

É inaceitável a propaganda agressiva e de má fé que vem sendo realizada por alguns veículos de comunicação contra os magistrados federais, que são responsáveis pelo julgamento de grandes processos de corrupção envolvendo políticos e poderosos empresários, no sentido de possuírem imóvel próprio e ainda assim receberem a verba indenizatória de Ajuda de Custo para Moradia, porquanto o artigo 65, II, da Lei Complementar n. 35/1979, e a sua regulamentação pelo Conselho Nacional de Justiça, asseguram a percepção de tal verba sempre que não houver residência oficial à disposição do magistrado.

A carga tributária suportada pelos magistrados é enorme, sofrendo os seus vencimentos brutos um decréscimo de um terço quando se considera o valor líquido do subsídio mensal. Mas não se abre um debate sério sobre a proporção da contribuição previdenciária sonegada por empresas, nem sobre o que se deixa de recolher de imposto de renda sobre lucros e dividendos de empresários milionários.

E que não se esqueça do que ocorreu após a Operação Mãos Limpas na Itália, com manobras legislativas visando à extinção de crimes e redução de prazos prescricionais, além da perseguição aos magistrados que atuaram firmemente na apuração e condenação dos criminosos. E que se lembre que o Poder Judiciário, ainda é, hoje, aquele que pode garantir que os direitos individuais e da coletividade sejam protegidos frente às inúmeras ameaças e arbítrios cometidos todos os dias.

Brasília, 11 de fevereiro de 2018

ROBERTO CARVALHO VELOSO
Presidente da Ajufe".




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Revista Consultor Jurídico, 11 de fevereiro de 2018, 22h24

Comentários de leitores

7 comentários

Vejamos a inversão...

CarlosDePaula (Advogado Autônomo)

Analisemos uma parte do texto: "(...)Querem trazer para o Judiciário uma crise que não é sua e nem foi criada por ele. A corrupção endêmica que se instalou no Brasil não é de responsabilidade dos seus juízes, mas dos que se utilizaram da máquina pública para o locupletamento (...)".

Opa! Quem mesmo está se utilizando da máquina pública para também enriquecer?
O judiciário, não conseguindo os aumentos que todos desejam e da forma legal, decidem por eles mesmos. Através de uma liminar!

Que país é este? Brasil...

Eu vejo um museu de grandes novidades!

Marcelo-ADV (Outros)

Crise, perseguição, operação mãos limpas, etc.

Tudo a ver com subsídio (parcela única), teto, auxílio-moradia (salário indireto, e não verba indenizatória), revisão anual (que depende de lei específica), etc., não é mesmo?

Quaisquer críticas ao Judiciário, às decisões judiciais, etc., aparece uma nota para dizer: é perseguição, por causa do combate à corrupção, etc.

Enfim, já assistimos a esse filme.

Processo de acumulação primitiva

O IDEÓLOGO (Cartorário)

No capítulo XXIV, do Livro I, do Volume II, o genial Karl Marx demonstra o “segredo” da acumulação primitiva, demonstrando os nexos e as relações que são necessárias para que tal desenvolvimento acontecesse.
Os Juízes querem participar do "Capitalismo". Colaboram com a circulação de mercadorias, bens e direitos. Porém, deveriam dividir o auxílio com os seus subordinados.

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