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Ideias do Milênio

"Todo indivíduo pode fazer diferença no mundo, é possível para todos nós"

Women for Women

Entrevista concedida pela iraquiana Zainab Salbi, fundadora da organização Women for Women, ao jornalista Jorge Pontual para o Milênio — programa de entrevistas que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças (3h30 e 7h30), às sextas (12h30) e aos sábados (5h30).

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Quando a gente vê notícias de guerra, em geral não pensa no sofrimento dos civis, as pessoas que mais sofrem, e são essencialmente as mulheres, as mulheres que sofrem mais. E elas também são as sobreviventes e que têm de levar a vida de antes. E a gente vai conversar hoje no Milênio com Zainab Salbi, que é uma pessoa que se dedicou a isso, a ouvir essas mulheres e ajudá-las a sobreviver e a ir em frente e construir uma nova vida. Ela fundou uma organização chamada Women for Women, Mulheres para Mulheres. E esse livro aqui documenta esse trabalho. É um livro sobre as mulheres de seis países em guerra que ela visitou e ajudou nessa organização que ela fundou. Então vamos começar conversando com ela sobre essa organização.

Jorge Pontual — Conte como você fundou a Women for Women.
Zainab Salbi —
Eu fundei a organização por causa da guerra da Bósnia. Havia campos de concentração e de estupro na Bósnia, as mulheres recebiam números quando chegavam aos campos e, quando seus números eram chamados, elas eram levadas a um aposento e estupradas em massa. Era algo muito sistemático. Eu não tinha nada a ver com a Bósnia, não conhecia o país e muito menos o povo, mas eu estava estudando nos EUA sobre o Holocausto no mesmo mês em que soube da guerra na Bósnia. Eu estava estudando como as pessoas diziam “nunca mais”, estudando as imagens, as histórias e tudo mais e, literalmente, no mês em que eu estudava o Holocausto, surgiram na capa da Time, da Newsweek e por todo o mundo imagens dos campos de concentração e estupro bósnios. Para mim, foi um cálculo muito básico: disseram ‘nunca mais’ e está acontecendo de novo. Precisamos fazer alguma coisa. Eu tinha 23 anos de idade, nenhuma experiência profissional, apenas muito limitada, registrei a organização, arrecadei ajuda para 33 mulheres em setembro de 1993, e quase 25 anos depois já ajudamos mais de 430 mil mulheres e distribuímos cerca de US$ 120 milhões para mulheres sobreviventes de guerras. Isso fez com que eu acreditasse que todo indivíduo pode fazer diferença no mundo. É possível para todos nós.

Jorge Pontual — A ideia é que mulheres que queiram fazer parte desse esforço tenham uma irmã. Assim, cada mulher que ajuda entra em contato com uma mulher que recebe ajuda. De certa forma, ambas se ajudam. Fale sobre essa relação.
Zainab Salbi —
Quando o assunto são mulheres sobreviventes de guerras ou qualquer vítima pobre, quem ajuda... Existe uma dinâmica de poder entre quem ajuda e quem recebe ajuda. 'Eu sou tão boazinha por te ajudar, e você é uma coitadinha que recebe minha ajuda'. E eu sou contra essa dinâmica de poder, porque, na realidade, são circunstâncias, e nossa dignidade, nossa inteligência, nossa sabedoria e nossas... Esperanças não desaparecem só porque alguém decidiu bombardear minha casa, bombardear meu país, iniciar uma guerra, e eu, que tinha uma vida normal, fiquei sem nada. Então a ideia é ajudarmos umas às outras mantendo a integridade e a dignidade de quem recebe a ajuda e lembrando que as duas partes são iguais. Não nas circunstâncias, mas na humanidade de ambas. Portanto, o programa pede que qualquer mulher do mundo apoie apenas uma mulher de cada vez, patrocine uma por vez, e a chamamos de “irmã”. E pedimos duas coisas. A primeira é mandar dinheiro, porque o dinheiro fala. Dinheiro é tangível, as pessoas precisam dele. É mais fácil mandar roupas ou alimentos, mas as pessoas precisam de dinheiro. Assim elas podem comprar o que quiserem, para o que seja, até mesmo uma calça jeans. A decisão é dela. Então eu peço para toda mulher patrocinar uma mulher por vez, enviar US$ 30 por mês e trocar cartas e fotos com a irmã. É nessa troca que está a igualdade, porque são duas mulheres compartilhando suas histórias. Pedimos que elas não deem só dinheiro, mas deem também sua história. E quem recebe não deve apenas receber o dinheiro, mas compartilhar sua história também. Assim, as duas aprendem, há humildade, é uma jornada de humildade e há uma conectividade, porque estamos nisso juntas. É um pedido muito simples. Nós arrecadamos dinheiro com o povo, e tenho muito orgulho disso. Esses US$ 120 milhões não vieram de um cheque gordo de uma pessoa, mas do povo. Uma guarda florestal, uma bancária, uma pessoa rica, uma pessoa pobre, qualquer pessoa que quisesse, porque a maioria das pessoas pode doar isso, poderia participar. É assim que arrecadamos o dinheiro.

Jorge Pontual — E em situações nas quais as mulheres são sistematicamente estupradas? Porque, em algumas culturas, elas ficam estigmatizadas, não é?
Zainab Salbi —
Em todas as culturas as mulheres estupradas são estigmatizadas. É fácil dizer 'esta cultura' ou 'aquela cultura', mas a verdade é que o estupro constrange as pessoas. Até mesmo na cultura americana... Eu sou sobrevivente de estupro, e quando falo sobre isso — e hoje eu estou bem; nem sempre estive, mas agora estou —, as pessoas... Ficam tensas, sabe? Então, em todas as culturas há um desconforto quando você fala de estupro, porque revela uma violação que nós... Trata-se de algo de esfera privada que revelamos em público. Então... Mas o que o estupro faz, na minha opinião, é criar muitos danos. Esse é um aspecto do estupro. Em guerras, a maioria das mulheres estupradas nunca é morta. Geralmente uma mulher simbólica, uma só, é morta. Geralmente as mulheres estupradas em guerras são mutiladas. Um seio pode ser cortado ou elas sofrem cortes. Geralmente elas são libertadas em guerras e, na minha opinião, é uma mensagem de um homem para outro homem: 'Eu invadi seu país e estuprei suas mulheres'. E elas costuma ser libertadas principalmente quando estão grávidas. A mensagem é: 'Eu plantei minha semente na sua mulher'.

Um dos horrores do século 20, que se agravou no nosso século, é o uso sistemático do estupro como uma arma de guerra. Não tem nada a ver com prazer sexual, é uma forma de violência coletiva, que destrói o moral do inimigo e vitimiza mulheres e meninas. Como ajudar as mulheres nas zonas de guerra a superar esse trauma é um dos principais objetivos da organização Mulheres para Mulheres, criada por Zainab Salbi. Os números, assustadores, dão a dimensão do horror que é o estupro como arma de guerra.

Zainab Salbi — O estupro na guerra tem uma intenção. Não tem nada a ver com sexualidade, mas com invasão. Tem a ver com domínio e poder, e as mulheres são usadas como instrumento para exibir domínio e poder. Cada sociedade lida com isso de uma forma. No Iraque, de onde eu sou, hoje existe uma crise social envolvendo mulheres estupradas pelo Isis ou forçadas a se casar com integrantes do Isis. E se você for xiita ou yazidi... Há uma crise nacional porque a sociedade não sabe... Não é que a sociedade evite as mulheres, mas ela não sabe lidar com isso. Essas mulheres estão tendo filhos, os pais são integrantes do Isis, obviamente terroristas horríveis, e ninguém sabe o que fazer com isso. O país não sabe o que fazer. A quem essas crianças pertencem? Como tratar as mulheres? Como tratar as crianças? Legalmente, para onde elas vão?

Jorge Pontual — Você evoluiu desde esse trabalho inicial. Fale sobre essa evolução pessoal.
Zainab Salbi —
Eu criei o WfWI porque havia outras mulheres sobreviventes de guerra e eu queria ajudá-las e incentivá-las a romper o silêncio e a falar, até que a certa altura eu percebi que estava pedindo que elas fizessem algo que eu mesma não estava disposta a fazer. Ou seja, eu pedia que rompessem o silêncio: 'Fale sobre o que lhe aconteceu, fale sobre o estupro, sobre a violação, vamos denunciar juntas'. E eu achava, como mulher instruída, que eu não tinha história: 'As histórias são dessas mulheres pobres. Mas eu cresci em meio a privilégios, com recursos financeiros, estudei, tenho roupas boas. Eu não tenho uma história, são essas pobres mulheres que têm'. Até que fui desmascarada por uma congolesa que me contou como ela e os filhos tinham sido estuprados e como a casa dela foi incendiada, saqueada... Uma história terrível. E ela olhou para mim e disse: 'Nunca contei minha história a ninguém, só a você'. Perguntei: 'Devo mantê-la em segredo? Porque eu contaria sua história, arrecadaria dinheiro e atenção e traria de volta para o país e para mulheres como você. Devo mantê-la em segredo?'. Ela olhou para mim, aquela congolesa analfabeta, e disse: 'Se eu pudesse contar ao mundo o que me aconteceu, eu contaria, para que outras mulheres não precisassem passar pelo que eu passei. Mas eu não posso. Você pode. Então conte ao mundo todo. Só não conte aos meus vizinhos'. O que é compreensível. E foi a maior lição de humildade da minha vida, porque percebi que ela tinha mais coragem do que eu, ela entendeu que, rompendo seu silêncio, poderia ajudar outras mulheres poupando-as do que ela tinha sofrido. E eu fiquei com vergonha. Pensei: 'Não posso militar pelos direitos das mulheres e pedir que elas falem se eu não consigo fazer isso'. Então tive de fazer uma escolha: eu falava sobre a minha vida, revelava a minha vergonha e continuava a trabalhar com outras mulheres ou abandonava aquilo e continuava em silêncio por não conseguir fazer o que pedia que elas fizessem? E decidi ficar e romper meu silêncio.

Zainab Salbi cresceu privilegiada em Bagdá, e chamava Saddam Hussein de tio. O pai dela era o piloto pessoal de Saddam e chefiava a viação civil do Iraque. Ela conta em seu livro de memórias Entre dois mundos que viver na intimidade do ditador iraquiano era um exercício diário de medo e paranoia. A mãe dela temia que Saddam quisesse a jovem Zainab para ele. Obrigou a filha, aos 19 anos, a entrar em um casamento arranjado para se mudar para os EUA. Esse primeiro marido estuprou Zainab. Só quando ela se livrou dele é que começou a sua jornada como feminista, que levou o então presidente Bill Clinton a homenageá-la na Casa Branca como uma heroína do século 21.

Zainab Salbi — Era uma vergonha para mim, porque como eu podia ser uma feminista forte se tinha sofrido maus-tratos? Como eu podia ser defensora dos direitos das mulheres se tinha tido um casamento arranjado? Era um constrangimento, uma vergonha. Eu conheci Saddam Hussein. Elas não me veriam mais se soubessem da relação da minha família com ele. E essa jornada foi difícil, dificílima. Eu chorei durante o processo de escrita das minhas memórias e o processo de falar sobre isso. E agora eu percebo que pedia para outras mulheres fazerem algo tão difícil! Ir contra a maré, contra sua família dizendo: 'Não conte a nossa história!'. Sua sociedade dizendo o mesmo, mas você mantém sua coragem e dá um salto de fé para revelar sua verdade. Foi muito difícil, mas percebi que mudou minha relação com as mulheres com quem trabalho. Hoje, diante delas, conto como foi difícil e não só milito, mas falo muito mais do coração. Além de ativista intelectual, me tornei ativista emocional, porque é mais difícil quando você fala com emoção. E isso mudou a minha dinâmica com elas, ela se tornou mais igual, mais simbiótica, com mais intercâmbio em vez de 'eu as ajudo'. É uma experiência de mais humildade, e eu peço que todas as mulheres... Toda mulher tem uma história, todo ser humano tem uma história, e, quando rompemos nosso silêncio, criamos novas normas e novas relações interpessoais.

Jorge Pontual — Depois de se dedicar a ajudar as mulheres nas zonas de guerra, hoje você se volta para uma luta mais ampla. O movimento das mulheres, iniciado com a sigla MeToo, 'Eu também', que propõe mudanças sociais profundas em resposta a violência sexual.
Zainab Salbi —
Os direitos das mulheres costumam tratar de questões de mulheres do Terceiro Mundo, e as brancas americanas diziam: 'Não tenho nada a ver com isso'. Então fico muito feliz com o movimento MeToo nos EUA, porque agora todo mundo está dizendo: 'Eu também tive uma experiência de violência sexual'. Ele uniu as mulheres. É chamar do que realmente é e mostrar um caminho para cura e reconciliação. E talvez, talvez, este seja o momento da verdade e da reconciliação nos EUA. Quem sabe?

Jorge Pontual — Por que está acontecendo agora?
Zainab Salbi —
Acho que está acontecendo agora por causa de Trump, para ser sincera. Os EUA nunca foram um país tão dividido como é hoje. Um lado ataca o outro e acho que o bicho-papão é Trump. Então as pessoas estão com raiva dele, com raiva dos valores dele, mas também da forma como ele trata e vê as mulheres. Ele disse: 'Eu passava a mão nelas e elas deixavam'. Então acho que é o reflexo de uma raiva dele, e essa raiva está se manifestando em agressão. Eu, por exemplo, não mencionei Trump na minha série, e muita gente disse: 'Por que não falou de Trump?'. E minha atitude é: ele representa um reflexo do país. E aqueles de nós que viemos de outros países sempre vimos esse aspecto no país de um ponto de vista diferente. Ele está exibindo isso para todo o país, e é fácil apontar o dedo para ele e dizer que ele é o único problema. Não acho que ele seja o único problema. Acho que ele está permitindo que todos reflitam sobre si mesmos. E espero que este seja um momento de despertar para os EUA. É um momento de divisão, triste de testemunhar, para ser sincera... A discórdia, os ataques, a raiva... Mas acho que coisas boas surgirão deste momento, um momento de despertar para que todos os americanos reflitam, para que assumam suas falhas e mudem o que precisam mudar. É mais fácil culpá-lo, mas precisamos refletir pessoalmente, e acredito que, quando o fizermos, isso terá impacto no quadro geral de Trump.

Jorge Pontual — Você vai lançar mais um livro este ano. Qual é o assunto?
Zainab Salbi —
Meu novo livro se chama Freedom is an Inside Job. Nele eu tento unir meu trabalho político com o pessoal. Esta sou eu: cresci no Iraque, viajei e trabalhei em zonas de guerra, voltei aos EUA e, durante muito tempo, dividi o mundo entre bom e mau. Essas pessoas são boas, essas são más. Essa cultura é livre, essa é opressora. Sempre assim. E, a esta altura, em que já vivi mais tempo da minha vida nos EUA e experimentei diferentes espiritualidades, tradições e tudo isso, pessoas que só veem o lado bom delas, cheguei à seguinte conclusão: o bom, o mau e o feio estão em cada um de nós. E só quando eu fizer esta jornada interior para descobrir o meu lado bom, o mau e o feio, que é uma jornada muito dolorosa, e aceitar o meu lado bom, o mau e o feio e respeitar todos os três é que terei controle sobre mim mesma e consciência. Você não vai se livrar do seu lado mau, mas, quando tiver controle sobre ele, ele ficará mais confinado. Quando você controlar as rédeas, como num cavalo. Ele fica confinado, controlado, talvez diminui, mas você tem consciência.

Revista Consultor Jurídico, 22 de abril de 2018, 13h58

Comentários de leitores

1 comentário

Politicamente na moda

Macaco & Papagaio (Outros)

É incrível como, neste século XXI, ainda se tem que lutar por direito de mulheres ou se falar em discriminações.
O direito de igualdade é palmar, inclusive para fins de aposentadoria.
Mas, empoderaram o feminismo, que silenciam nas causas que lhe são convenientes.
E as cotas racistas, qual a melhora ou justiça que se faz em um país que precisa é de justiça econômico-social, e não de proteção a fenótipos?
Nenhuma.
O ser humano está fadado a ser um asno violento mesmo.

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