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Segunda Leitura

A crítica do cinema italiano à corrupção sob a ótica da realidade brasileira

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Em 19 de janeiro deste ano, Salvatore Ficarra e Valentino Picone entregaram ao público italiano o filme L'ora Legale, conquistando desde logo enorme sucesso de bilheteria. A película, ainda não lançada no Brasil, dá ao público a oportunidade de meditar sobre seus costumes e seu papel na vida da comunidade.

L'ora legale passa-se em Pietrammare, uma imaginária pequena cidade da Sicília, a ilha situada ao sul da Itália, conhecida por sua beleza, cultura e também pela existência da mais antiga organização criminosa, a Cosa Nostra ou Máfia.

A narrativa se desenvolve a partir da eleição de Natoli para prefeito, um candidato bem conceituado e que prometia agir corretamente e a favor do bem comum, pondo fim a anos de gestão de Patanè, um prefeito corrupto e oportunista. Tão logo tomou posse, o novo prefeito impõe regras severas de comportamento. Proíbe construções irregulares, determina a aplicação de multas aos que estacionam em local proibido, impõe aos guardas florestais que se dirijam à área rural para cumprir suas funções e nega seguidos pedidos de favores ilegais feitos por velhos amigos e parentes.

A nova situação toma de surpresa os moradores, que jamais imaginaram que as promessas de campanha fossem cumpridas. Afinal, todos os candidatos as faziam e nenhum as cumpria. Ademais, as novas exigências atingiram diretamente aqueles que se beneficiavam de práticas ilegais, disto resultando uma enorme revolta contra o novo prefeito Natoli. Pressionado por todos os lados, inclusive pela família, ele renuncia e o antigo prefeito Patanè volta ao poder.

Ficarra e Picone, com maestria, mesclam o riso com uma indiscreta lágrima nos olhos, técnica desenvolvida com maestria pelos italianos, valendo lembrar, como exemplo, a obra de Luigi Pirandello, “O falecido Mattia Pascal”.  Transmitem ao público, em meio a situações jocosas, a triste realidade, ou seja, a maioria dos habitantes desejava que tudo permanecesse como sempre foi, porque disto, de alguma forma, se beneficiavam.

Em meio às seguidas crises do Brasil, que em meio à disputa política exibe os mais deploráveis comportamentos, somos levados a perguntar se este imenso país não é uma Pietrammare de proporções gigantescas. Ou, de forma mais clara, se as coisas estão assim porque a maioria das pessoas assim as quer. Óbvio que se a resposta for sim, estaremos confessando a nossa própria falência moral.

Ao atribuir responsabilidade do que se passa exclusivamente aos políticos, estamos esquecendo que as inúmeras práticas condenáveis que a mídia nos tem transmitido, seguidamente, nos últimos dois anos, não somente a eles beneficiava. Não. Na verdade, enormes esquemas de corrupção atendem o interesse de diversas pessoas em distintos setores. E estes, queiram ou não, tenham ou não consciência, são tão responsáveis quanto os que se dedicam pessoalmente à atividade criminosa.

Alguns exemplos. Familiares que veem o patrimônio crescer e os gastos assumirem proporções incompatíveis com o quanto se recebe. Funcionários de empresas, que se envolvem nas práticas delituosas. Advogado que não se limita a defender um empresário corruptor (ato normal de sua profissão), mas que passe a instruí-lo sob a forma de praticar impunemente a atividade ilícita. Todos, enfim, que movimentam as teias da corrupção.

Não envolver-se em tais práticas não é um ato elogiável, mas sim mero cumprimento de uma obrigação legal ou moral. Mas lutar contra elas, ir além, aí sim, é uma opção de vida, única forma das coisas mudarem. Mas, com certeza, não é algo fácil.

A resistência pode ir desde uma ação simples, como recusar-se a participar de uma festa promovida por um enriquecido corrupto, até a negar-se uma esposa a participar da compra de uma moradia melhor, sabendo que a transação é feita com dinheiro ilegal. Também, um servidor público apontar a existência de corrupção na sua área de trabalho. Esta última medida não requer apenas coragem, mas também inteligência, porque pode tornar-se sério risco de vida.

Na verdade, a comparação entre o filme italiano e a situação do Brasil atualmente, impõe-nos optar por uma de duas hipóteses: a) reconhecemos que, tal qual os habitantes de Pietrammare, somos um povo indigno, porque somos corruptos ou esperamos uma oportunidade para poder sê-lo; b) somos um povo em que a maioria deseja um país melhor, uma sociedade mais justa, em que a corrupção seja reduzida ao mínimo possível.

Sem a ingenuidade das crianças e de alguns adultos que se recusam a ver a realidade, acredito que a segunda hipótese é a certa. A maioria da população anseia por uma vida correta, se preocupa com o Brasil e deseja, sinceramente, o bem comum.

Porém isto não acontecerá apenas por força da Operação Lava Jato ou de outras tantas que sobrevierem.  É certo que elas são importantes, essenciais. Por isso, a prisão de ricos empresários, políticos, governador de estado ou de membro do Ministério Público Federal, como ocorreu com o procurador da República Ângelo Goulart Villela esta semana, são fatos novos em nosso país e devem ser comemorados. Mas mudança real só virá com a mudança de hábitos de toda a sociedade.

Esta fase difícil, de transição, deve ser vista como uma travessia  sofrida e necessária de terras inóspitas, que permitirá, depois,  que se alcance o oásis, ou seja, a estabilidade política e econômica que a maioria dos brasileiros deseja.  

 é desembargador federal aposentado do TRF da 4ª Região, onde foi corregedor e presidente. Mestre e doutor em Direito pela UFPR, pós-doutor pela Faculdade de Saúde Pública da USP, é professor de Direito Ambiental no mestrado e doutorado da PUC-PR. Presidente da International Association for Courts Administration (IACA), com sede em Arlington (EUA). É vice-presidente do Ibrajus.

Revista Consultor Jurídico, 21 de maio de 2017, 8h00

Comentários de leitores

4 comentários

Falta uma coisa

BCRAS (Advogado Sócio de Escritório)

O articulista esqueceu um detalhe importantíssimo: a necessidade de alteração da própria estrutura estatal que “cria dificuldades para vender facilidades”. É certo que aqueles que praticam a corrupção (ativa ou passiva) agem de forma imoral, todavia, se não existissem tantas dificuldades criadas artificialmente pelo “governo onipresente” provavelmente também não haveria tanta gente disposta a pagar para resolvê-las.

Como sempre, muito bom!

Joe Tadashi Montenegro Satow (Delegado de Polícia Federal)

Parabéns ao articulista que, apesar de não conhecê-lo, sempre traz boas idéias ao cenário atual.

Corrupção

O IDEÓLOGO (Outros)

Não é exclusividade dos "tupiniquins", mas de outros povos. Os italianos constituem, dentro dos países mais desenvolvidos, os mais corruptos. Na Europa, em 2016, os ucranianos.
Há um superdimensionamento do nosso caráter corrupto.

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