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Embargos Culturuais

A dama de Éfeso e o afeto como superação da dor e da melancolia

Por 

Arnaldo Godoy [Spacca]O escritor e satirista romano Petrônio (século I d. C.) deixou-nos um conjunto de deliciosos textos, sob o título de Satiricon. Petrônio revela-se como um autor cheio de surpresas e caprichos [1]. Ainda que dúvidas haja sobre a existência de Petrônio, ou mesmo sobre a autenticidade de suas obras, merece destaque um pequeno excerto, A dama de Éfeso [2]. O texto provoca reflexões sobre problemas de gênero, de fidelidade, de luto, de melancolia, e de processos de superação da dor.

A dama de Éfeso era uma senhora conhecida por seus fortíssimos dotes morais, por sua postura irreprimível, por seu caráter reto, por sua moral ilibada e inquestionável. Era um exemplo para as já sisudas mulheres do mundo greco-romano. A morte do esposo a surpreendeu e, como todas as esposas da época, chorou todas as lágrimas. Acompanhou o féretro até uma ampla sepultura, de onde se recusou a sair. Segundo Petrônio, “mergulhada em desespero e resolvida a sucumbir de fome, nem os pais nem os demais parentes lograram demovê-la dali (...) repelidos por ela, os próprios magistrados tiveram de retirar-se (...) lastimavam todos aquela incomparável mulher que desde quatro dias não ingeria alimento algum (...) na cidade inteira não se falava noutra coisa, e pessoas de todas as condições proclamavam que nunca se vira mais brilhante exemplo de pudicícia e de amor”.

Ela chorava o tempo todo, lamentando a perda do amado esposo. Vivia intensamente o luto, o qual, segundo conhecida passagem de Freud, consiste na “reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que tomou o lugar do ente querido (...) [3]”; o pai da Psicanálise afirmava que o luto seria superado com o lapso de tempo e que qualquer interferência em relação a ele seria prejudicial [4]. O luto distingue-se da melancolia, porque essa última teria como traços distintivos um “desânimo profundamente penoso, a cessação do interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima (...) culminando numa expectativa delirante de punição” [5]. O sofrimento da dama de Éfeso era ao mesmo tempo de luto e de melancolia.

Enquanto ela persistia na tumba, o governador da cidade mandou crucificar dois criminosos nas cercanias do túmulo. Ordenou que um soldado cuidasse daqueles míseros corpos, que não poderiam ser dali retirados. Se algo ocorresse, o soldado responsável pela vigilância responderia com a própria vida, e assim, o soldado passava o tempo todo de olhos nos corpos crucificados.

Porém, observando uma luz que surgia do túmulo, o soldado aproximou-se da tumba e encantou-se com a imagem daquela linda mulher, ainda que em constante sofrimento. Descendo até aquele funesto lugar o soldado tentou, a todo custo, dividir seu alimento com aquela triste figura de viúva. Uma serva que a acompanhava também se esforçava, dizendo, segundo Petrônio, que o próprio cadáver do marido deveria lembrá-la da necessidade de se alimentar para continuar vivendo.

Convencida, a dama de Éfeso se alimentou. O soldado esforçava-se para agradá-la, socorrendo-a, todas as noites, com farto alimento. A casta viúva percebeu que o soldado não era nada disforme. Dormiram juntos, e o soldado, “cativo da beleza da dama e do mistério, (...) comprava o de bom e melhor, de acordo com suas posses, e ao cair da noite levava tudo para a sepultura”.

Numa das manhãs, ao sair do túmulo, que dividia morbidamente com a viúva e com o morto, o soldado verificou que um dos corpos pendurados na cruz fora de lá tirado, provavelmente pelos parentes do crucificado. Em desespero, o soldado voltou ao túmulo, anunciando à dama de Éfeso que se suicidaria, antes que o governador soubesse. De qualquer modo, pagaria com a própria vida a desatenção; iria, decididamente, suicidar-se. A viúva raciocinou que não pretendia enviuvar de novo. E assim, segundo Petrônio“(...) manda tirar do caixão o corpo do marido e pregá-lo na cruz vazia (...) aceitou o soldado o expediente de tão hábil senhora; e no dia seguinte o povo perguntava, de si para si, por que milagre o morto se metera na cruz”. O marido foi pregado na cruz, e de tal modo o soldado fora salva da punição do governador.

Essa intrigante passagem permite-nos várias abordagens. Se para o filósofo barbudo de Trier tudo que é sólido desmancha no ar, e tudo o que é sagrado será profanado, para o nosso poeta da paixão o amor não detém a imortalidade (posto que é chama), mas que seja infinito, enquanto dure. À perturbadora possibilidade lógica de Vinicius (eterno enquanto dure), acrescenta-se o sedicioso realismo de Marx (o sagrado será profanado).

A dama de Éfeso transita entre a lógica da paixão (que também tem sua racionalidade cega) e o realismo (que ao mesmo tempo se revela pela irrealidade, significando que de algum modo queimamos o que adoramos e um dia adoraremos o que queimamos). Morto, o marido já nada mais era do que uma referência de um tempo passado, que ela insistia em manter presente. O luto e a melancolia exigem superação, como condição de nossa sobrevivência.

O marido pregado na cruz, com a consequente salvação do soldado caridoso e apaixonado, é o epílogo de uma narrativa que confirma que os limites da moralidade podem se encontrar nos interesses próprios, o que pode revelar o relativismo de uma suposta virtude. Em favor da dama de Éfeso, a quem veementemente admiro, a lealdade vivida durante a vida do esposo, pois é essa a que verdadeiramente conta, se sincera, bem como a coragem de superar a dor, pois é a dor moral o sentimento que verdadeiramente nos devasta, se autêntico.


[1] PARATORE, Ettore, História da Literatura Latina, Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1987, p. 647. Tradução de Manuel Losa, S. J.

[2] Éfeso era uma cidade grega da Jônia, hoje na Turquia.

[3] FREUD, Sigmund, Obras Completas, vol. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1996, p. 249

[4] FREUD, Sigmund, cit., loc. cit.

[5] FREUD, Sigmund, cit., p. 250.

 é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela USP e doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP. Tem MBA pela FGV-ESAF e pós-doutorados pela Universidade de Boston (Direito Comparado), pela UnB (Teoria Literária) e pela PUC-RS (Direito Constitucional). Professor e pesquisador visitante na Universidade da Califórnia (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 17 de dezembro de 2017, 8h00

Comentários de leitores

4 comentários

Poema do Amor e da Bondade

Rejane Guimarães Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

De autor desconhecido.
Quem é bom doa um pouco. Quem ama vive para doar.
Quem é bom suporta a ofensa. Quem ama esquece.
Quem é bom se compadece. Quem ama ajuda.
Quem é bom sorri. Quem ama faz sorrir.
Quem é bom começa e acaba. Quem ama começa para nunca acabar.
Quem é bom faz o que pode. Quem ama faz o impossível.
Quem é bom mede sua ajuda. Quem ama ajuda sem medir.
Quem é bom não condena. Quem ama recebe o condenado.
Quem é bom também ama. Quem ama sempre é bom.
Quem é bom não faz mal a ninguém. Quem ama faz o bem a todos.
Quem é bom faz o bem e se vai. Quem ama fica para fazer o bem.
"Primeiro, ignoram-te. Depois, riem de ti. Depois, atacam-te. E no fim, tu vences. " MAHATMA GANDHI

Boas Festas, Dr. Godoy !

Rejane Guimarães Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

É sempre um imenso prazer ler a sua coluna. Desejo Feliz Natal e um 2018 repleto de alegres realizações para o senhor e sua família !

Homem conhece homem e mulher conhece mulher

Rejane Guimarães Amarante (Advogado Autônomo - Criminal)

Discordo da sua interpretação, Dr. Godoy. A Dama de Éfeso era verdadeiramente apaixonada por seu marido. Assim é fácil ter todas as virtudes, não há nenhum esforço, nenhuma renúncia, nenhuma contrariedade. Sofria, verdadeiramente, a perda do esposo, pois sabia que um amor tão verdadeiro não acontece todos os dias. Eis que surge o soldado, que lhe devota um amor sincero e ela, que "ama o amor", dedica-se a ele. Simples assim.

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