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Butique chinesa de patentes abre escritório em garagem no Vale do Silício

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Se a Califórnia fosse um país, seria a sexta maior economia do mundo. O ranking seria esse: Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Reino Unido, Califórnia, França, etc. As previsões são as de que, em cinco anos, o PIB da Califórnia vai superar o do Reino Unido. O sucesso econômico do estado provem, em grande medida, do sucesso do Vale do Silício (Silicon Valley), na grande área de São Francisco, que abriga a maioria das corporações high-tech do país e milhares de startups tecnológicas. É um paraíso para os escritórios de advocacia que se especializam em patentes e propriedade intelectual (IP law).

Por isso, a butique Beijing East IP, que tem 180 advogados e escritórios em Pequim, Tóquio e Londres, anunciou em seu website, na segunda-feira (19/9) que abriu um escritório no Vale do Silício, na Califórnia. “A butique irá garantir proteção aos direitos intelectuais de seus clientes americanos na China e de seus clientes chineses nos Estados Unidos”, diz seu press release. A Califórnia é o único estado americano que permite a atuação de advogados estrangeiros sem residência (green card)

Quem lê o comunicado pode imaginar que a Beijing East IP inaugurou um belo escritório no Vale do Silício. Afinal, a Beijing East IP é uma butique muito bem-sucedida na China, onde já tem clientes americanos como a Intel Corp. e a Cisco Systems Inc., entre outras grandes corporações tecnológicas. Mas, não foi assim. O escritório começou a operar na garagem da casa do advogado que se tornou sócio administrativo da Beijing East IP nos EUA.

A abertura da butique na garagem de uma residência não se deu por falta de dinheiro. Apenas segue uma tradição de milhares de startups tecnológicas, entre as quais a Microsoft e a Apple, que nascem e se criam em garagens residenciais até que gere recursos suficientes para contratar pessoal e montar um escritório pequeno, depois um maior e, enfim, em um prédio inteiro, em uma área sofisticada. Combina com o pensamento chinês.

No caso da banca chinesa, isso vai acontecer progressivamente, à medida que a carga de trabalho se torne maior do que a que pode ser suportada por um advogado — ou dois ou três. Para os chineses, não é necessário fazer um investimento pesado para se instalar nos EUA. É preciso, primeiro, colocar um pé no país.

O maior acerto da Beijing East IP, segundo o site The Recorder, foi atrair para o projeto o advogado Liaoteng Wang, que era, até então, assessor jurídico da Samsung Electronics Co. Com mais de dez anos de atuação no Vale do Silício, como assessor jurídico e advogado de escritórios de advocacia, Wang é bem conectado na Califórnia e na China. Ele tem uma extensa experiência em registro e contencioso de patentes e marcas comerciais e tudo o que se refere a propriedade intelectual, licenciamentos e contratos.

Wang é nascido, criado e formado na China. Na Universidade Tsinhua de Pequim, ele se preparou para se tornar um cientista. Foi para os Estados Unidos e se tornou um advogado. Bacharel pela Faculdade de Direito da Universidade de Wisconsin, ele foi para a Califórnia, sabendo que queria se especializar em patentes. Fez um segundo exame de ordem no Estado, e conseguiu um estágio como auxiliar jurídico de um juiz em um tribunal federal de recursos, que cuidava de casos de patentes e de propriedade intelectual em geral.

Nesse tribunal, ele se envolveu em diversos casos importantes de patentes, propriedade intelectual e contratos governamentais. Fazia parte de seu trabalho rever petições e registros, fazer pesquisas jurídicas, redigir memorandos, discutir casos com o juiz e outros auxiliares jurídicos, assistir alegações orais, cuidar da distribuição dos casos. Ganhou experiência e aprendeu como funciona o judiciário nessa área.

Como teve de conseguir residência nos EUA para trabalhar como advogado, ele aprendeu tudo sobre o processo migratório do país e começou, inicialmente, a atuar como advogado de imigração. Mais tarde, começou a trabalhar para uma startup de software apoiada pela Intel. A seguir, em seu projeto de carreira, se empregou em duas grandes bancas, a Wilson Sonsini Goodrich & Rosati e a Dewey & LeBouef, antes de se tornar assessor jurídico da Samsung.

Com toda essa experiência na área jurídica, somada a seus conhecimentos científicos e tecnológicos e a uma mentalidade empreendedora, o fundador da Beijing East IP, o advogado chinês Lulin Gao, acha que encontrou o parceiro perfeito para instalar sua butique no Vale do Silício.

O próprio Gao foi o fundador “perfeito” de uma banca especializada em propriedade intelectual, diz o site The Recorder. Ele foi o fundador, na China, do órgão equivalente ao Escritório de Patentes e Marcas Comerciais dos EUA e é conhecido como um dos arquitetos do sistema de propriedade intelectual da China.

“Muitas bancas estão satisfeitas com a representação de clientes americanos na China. Fazemos isso também, mas com um escritório nos EUA, os clientes sentirão mais segurança em serem atendidos em seu país, para resolverem seus problemas jurídicos na China. No entanto, há um campo muito grande para representar clientes chineses nos EUA, que também se sentirão mais seguros em negociar a representação e discutir seus problemas aqui na China”, diz Gao.

 é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 24 de setembro de 2016, 16h23

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