Consultor Jurídico

Artigos

Você leu 1 de 5 notícias liberadas no mês.
Faça seu CADASTRO GRATUITO e tenha acesso ilimitado.

Opinião

Cartas a um jovem autor: se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden

Por 

Meu caro Leonard [1][2],

Suas perguntas me fizeram refletir bastante, e só agora posso responder adequadamente, pois não é a primeira vez que jovens autores jurídicos me questionam o mesmo: qual o segredo para ser um autor jurídico de sucesso?

A primeira coisa que você precisa se responder é: o que é sucesso para você? Essa resposta é a chave de todas as coisas para a carreira de um autor — jurídico ou não. Há escritores que são lidos por menos de vinte bons leitores, e consideram ter sucesso — e entendem por um “bom leitor” aquele que irá ler seu livro ou o texto de capa a capa, que irá questionar seus pressupostos e metodologia, que entende a profundidade e a originalidade de sua análise, e o citará adequadamente em seus trabalhos. Há quem julgue que sucesso como autor é a leitura por importantes leitores — outros autores expressivos e referenciais da área, professores titulares, ministros dos tribunais superiores ou profissionais jurídicos expressivos (para não usar a velha alcunha de “operadores do direito”). E há autores que consideram que sucesso é ser lido por centenas ou milhares de leitores, formar o conhecimento de uma ou duas gerações inteiras em sua área. E, acredite-me, para cada opção haverá uma editora e um editor apropriados para caminhar conjuntamente.

Responder a essa pergunta implica o tipo de autor que você quer ser. E para cada forma de sucesso há um caminho específico, uma estratégia, um desafio especial a se enfrentar. De todo modo, não há um caminho fácil ou preparado — faz-se o caminho ao caminhar.[3] Qual a energia e o tempo de vida que você está disposto a empregar? Ou melhor, você quer mesmo escrever?

Considere que escrever não é um ato propriamente natural. Pensa-se antes, faz-se rascunhos, corrige-se inúmeras vezes e é inevitável o cansaço físico dessa atividade mental. Muitas horas são dedicadas para uma única página ser escrita, e poucos segundos para jogá-la fora. E, como se trata de um texto técnico, as vezes esse mesmo tempo serve apenas para uma única nota de rodapé que sequer será lida, mas que esconde em si o segredo de toda a metodologia empregada na construção de seu raciocínio — e nem consideraremos aqui o tempo de formação, leitura e reflexão para escrever o que quer que você esteja escrevendo (ainda que alguns textos parecem gritar o contrário disso!).

Segundamente, por que você quer escrever? Pelo glamour de materializar ego em papel e tinta alinhavados? Pelo fetiche de vencer a finitude humana? Pelo ideal de construir a ciência que nos coube? Para potencializar qualquer outra carreira que tenha?

Você precisa saber porque escreve. Se não souber, você estará gastando o seu tempo, o do leitor e o de todas as pessoas envolvidas nessa publicação.

Veja quantos textos tautológicos temos no direito. Rodeiam em torno das mesmas ideias e se repetem infinitamente, quase como tentando tornar verdade um pensamento. Ou então quantas pesquisas tateiam a ciência jurídica, as normas e seus suportes fáticos, mas o que dizem é mera ignorância informada.

Assim, sei o espanto que causa ver o quanto se publica em Direito hoje, mas também sei a dificuldade que é encontrar textos que façam compreender um pouco mais o Direito. Para cada perfil de público leitor, sempre haverá espaço para bons autores.

Espero que essa breve mensagem repercuta em seus projetos. Falaremos em breve sobre o que alguns importantes doutrinadores de nosso tempo me ensinaram sobre o que os tornaram lidos!

Um forte abraço, das muretas sagradas da PUC-SP às praias catarinenses,

Henderson Fürst

1 “Extravagâncias, amantes, dívidas,
separações, alegações de incesto,
morte por febre,
se você quer ser um guitarrista do Iron Maiden
tem que carregar consigo um Lord Byron.
Tem que ser antigo como são antigas a bactéria,
a chaga de Cristo
e tudo o mais que a medicina não deu cabo.
De teu motor valvulado, corrosivo e perecível
você tem que extirpar cadeados de lamentos,
cruz e sacrifícios.
Você tem que ser teu próprio pronto socorro,
da selvageria que é a vida,
do osso quando arrebentam
pancadarias na arquibancada,
uma taça feita de crânio, as perfurações,
as úlceras, as lesões, as ofensas,
as injurias, os agravos.
Você tem que saber que não é invulnerável,
que vão te fazer a corte e os cortes,
nunca as suturas.
Você é antigo na dor,
faz de sangrias coaguladas o teu pranto.
Você colocou a mão esquerda na labareda,
deu-a de bandeja à palmatória.
Com a outra você cometeu haraquiri.
E o show ainda nem chegou na metade.”
Luiz Felipe Leprevost, Se você quer ser o guitarrista do Iron Maiden.

2 Leonard Schmitz é doutorando e mestre em Direito pela PUC-SP. Essa série de mensagens foi trocada por ocasião de sua defesa de mestrado há um ano e, sua publicação, autorizada pelo destinatário.

3[…]
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atras
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.
[…]
Caminhante, são tuas pegadas
caminho e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se há de voltar a pisar
Caminhante não há caminho
senão marcas no mar.
[…]
MACHADO, Antonio. Selected poems. Tradução de Alan Trueblood. Cambridge: Harvard University Press, 2003, p. 142.

 é doutorando em Filosofia do Direito pela PUC/SP, Mestre em Bioética pelo CUSC/SP, Bacharel em Direito pela UNESP.

Revista Consultor Jurídico, 23 de outubro de 2016, 6h30

Comentários de leitores

2 comentários

Entre Sucesso ou Fama - Parte 1

Gilberto Strapazon - Escritor. Analista de Sistemas. (Consultor)

-“Há escritores que são lidos por menos de vinte bons leitores, e consideram ter sucesso...”
Muito bem colocado!
Independente da área, quem serão seus leitores? Para quem você escreve?
Muitas áreas são restritas. Comecei escrevendo tópicos avançados na área técnica de tecnologia de software ainda nos anos 80s, mas já focando a interação Homem X Máquina e evolução que mantenho nos meus comentários em tantos sites e revistas.
Mas como autor ocultista são normais as pequenas edições, com elevado nível de qualidade de impressão. Material realmente para os mais sérios, usando materiais de qualidade como papel sem ácido que vão durar por muitas gerações nas prateleiras dos estudiosos. Vemos nos altos níveis edições de 50 a 200 cópias como algo muito normal. 500-1000 cópias já é absolutamente fantástico. 2000 cópias ou mais é com certeza um best-seller considerado até “popular”.
Quem são os leitores destes trabalhos restritos? Justamente os que formarão opinião para outros milhares, praticando e diluindo o material em vários outros níveis. E sim, isso não tem nada a ver com aqueles trabalhos de cunho genérico ou de fantasia que vendem aos milhões em bancas de revistas. Então, quem serão seus leitores? Juizes e estudiosos da área ou apenas um público mais genérico?
Acho oportuno perguntar quem são os seus pares nessa área para quem tu escreve? Eles serão os parceiros de caminhada e que vão ler e criticar o mais diretamente possível o teu trabalho. Você com seus seus pares serão mestres e aprendizes ao mesmo tempo pelo simples compartilhar de experiências na área que se dedicou.
(continua)

Entre Sucesso ou Fama

Gilberto Strapazon - Escritor. Analista de Sistemas. (Consultor)

(continuação)
-“Segundamente, por que você quer escrever?”
O que é que te move mesmo? Fama, publicidade, paixão pelo debate ou um ideal maior de elevar o nível de consciência na área escolhida?
Uma coisa que cito com frequência nessa área Jurídica pela qual tenho interesse apenas pessoal é algo bem simples, mas que tanta falta faz que seja percebida:
“A Deusa da Justiça é mostrada de olhos vendados. Mas ela não é burra, é uma Deusa!”
Dá para entender? Uma Deusa, mesmo vendada, percebe muito mais do que qualquer mortal.
Quem conhece cegos sabe que eles sentem muito mais, ouvem, cheiram, pensam mais profundamente sobre todos sinais que recebem. Dá para pensar nisso? Então questione-se, qual o nível de percepção uma Deusa? Isto é o que eu penso que o sistema jurídico deve alcançar e pensar melhor.
A justiça não é cega porque é uma Deusa! São os homens que tentam fazer que seja assim!
É isso que te leva a escrever. Questionar, sugerir, explicar, ensinar outros pontos de vista.
E por último, escreva do seu íntimo. Do coração. Com sua experiência pessoal, boa ou má. O aprendizado é sempre prático e se engrandece com a experiência dos demais quando estudada e analisada para ser colocada em prática.

Comentários encerrados em 31/10/2016.
A seção de comentários de cada texto é encerrada 7 dias após a data da sua publicação.