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Opinião

Antes paladinos silenciosos, agora Moro e Dallagnol deram para falar

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*Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S.Paulo desta terça-feira (8/11) com o título Cruzados loquazes.

Se antes faziam figura de paladinos silenciosos da Justiça, Sergio Moro e Deltan Dallagnol deram agora para falar. Eles revestiram a sua loquacidade com a exaltação apolítica do bem geral. Na verdade, respondem a dois fatos políticos concretos.

O primeiro: a delação da Odebrecht periga pegar na testa da burguesia. Ela irá escancarar que grandes empresários corromperam e nobres políticos foram corrompidos. Juntos, eles aparelharam o Planalto e o Congresso — e agora nos mandam trabalhar mais e ganhar menos.

O segundo fato: para proteger seu poder de mando, os beneficentes e beneficiários do caixa 2 urdem uma autoanistia geral e irrestrita. A articulação dos dois fatos abala o poder de Dellagnol e Moro.

Dallagnol defendeu, num artigo publicado no jornal Folha de S.Paulo, que é um "disparate!" (com exclamação) dizer que a "lava jato" foi partidarizada. A resistência a punições, porém, surgiu só depois de Dilma ter sido afastada e Lula incriminado. A postura apolítica fica menos crível na boca Moro.

Afinal, o juiz ordenou a exposição, ilegal e fora do prazo que ele mesmo estipulara, de um telefonema da presidente. No plano jurídico, fez troça da presunção da inocência de Dilma. No político, inviabilizou que Lula fosse ministro. Sem o seu atropelo, a história teria sido outra.

Numa entrevista a Fausto Macedo e Ricardo Brandt (jornal O Estado de S. Paulo, 6/11), Moro fez política o tempo todo. Disse que tem poder —"o apoio da opinião pública tem sido essencial" — e defendeu que o Congresso aprove dez medidas específicas, além de pôr fim ao foro privilegiado de parlamentares e governantes.

Foi de um corporativismo que mal coube na palavra "muito". Teori Zavascki, que não o puniu por ter alardeado a gravação de Dilma, "tem feito um trabalho intenso, muito importante e relevante". O magistrado que Renan Calheiros chamou de "juizeco" é um "colega muito sério e competente". O projeto que pune abusos de juízes precisa ser "muito melhorado".

Tanto para ele como para Dallagnol, a corrupção é a serpente no paraíso. No seu artigo (escrito com o procurador Orlando Martello), Dallagnol sustenta que, se a corrupção sumir, surgirá "um Brasil competitivo, inovador, igualitário, democrático, republicano e, sobretudo, orgulhoso de si".

A única evidência que oferece para tal milagre é Hong Kong. Mas como ignora que a metrópole é uma região da China, e silencia sobre a sua história, o seu estatuto econômico, político e jurídico, chamando-a de "país", o seu vaticínio é vazio, senão ridículo.

Mais sinistro é o encerramento do seu sermão: "Parafraseando Martin Luther King, estamos rodeados da perversidade dos maus, mas o que mais tememos é o silêncio dos bons". Está-se de volta à concepção simplória da sociedade como palco da luta entre o Bem e o Mal; entre os bons da "lava jato" e os maus que não a apoiam.

A referência a Luther King é abusiva. O reverendo não escrevia sobre corrupção. Ele estava preso, no Alabama de 1963, por ter liderado marchas ilegais contra a segregação racial.

Seu texto, a Carta da Cadeia de Birghman, é um ataque eloquente a oito líderes religiosos que o acusavam de subversão, e defendiam — veja só — que o combate ao apartheid no Sul ficasse restrito aos tribunais.

É um documento da luta doída por direitos civis e políticos. Não é uma mistificação, moralista e autoelogiosa, de quem se acha — de quem acha que lidera uma santa cruzada.

Mario Sergio Conti é jornalista e colunista do jornal Folha de S.Paulo. Autor de Notícias do Planalto, obra que dissecou as relações entre a Presidência de Fernando Collor e a imprensa.

Revista Consultor Jurídico, 8 de novembro de 2016, 12h41

Comentários de leitores

11 comentários

O silêncio é mais eloquente

JA Advogado (Advogado Autônomo)

Realmente o determinado juiz Moro e o procurador Dallagnol estavam indo muito bem enquanto trabalhavam exclusivamente nos processos. Quando começaram a sair para o limpo, escrevendo fora dos autos, palestrando, dando entrevistas, virando celebridades, aí começaram as restrições. Não há necessidade disso, de palestras espetaculosas, de gritaria, shows, nada disso tem a ver com o processo. Não importa o quanto célebres sejam os réus. Tudo o que tiverem para dizer, que digam nos autos - e neste caso, para a imprensa, pois o processo é público. Mas não devem se expor como vem fazendo. Essa "estória" de que a Lava-Jato corre perigo é balela. Ninguém é maluco de querer interferir nisso. Não há base legal para tanto e no Congresso há, sim, alguns malucos, mas o grau de maluquice deles não chega ao ponto de se atreverem a legislar contra a atuação do MPF e do Judiciário no combate à corrupção e à ladroagem.

Transparência!

Marcelo-ADV (Outros)

“Princípio da Transparência”. Que hilário!

Ninguém sabe quem faz os vazamentos, por que vaza, com quais intenções, se há interesses políticos ou partidários, quais os acordos por trás desses vazamentos, ou se recebem dinheiro para vazar. Não sabemos!

Ninguém sabe como é feita uma delação, que tipo de ameaças a pessoa recebe, ou se não recebe nenhuma, etc. Não sabemos!

Ninguém sabe por que decidem vazar certas informações e não outras. Exemplo: Ministério Público da Suíça revelou que há mais de 100 contas, mas, pelo que eu saiba, apenas vazou a do Eduardo Cunha. Por que não vazou todas? Não sabemos!

Qual o destino das demais contas? Prescrição? Enfim, não sabemos!

Não há transferência nenhuma.

Discordo !

Neli (Procurador do Município)

Discordo!
Até aqui, o JF Moro está se comportando como se espera de um Magistrado.
Tirante a resposta que ele deu ao "dono " da Folha (equipe editorial, foge-me o nome agora), no Painel do Leitor, o seu comportamento está sendo digno e de enaltecimento para a Magistratura.
Ter soltado o "grampo” da manifestação da Ex e do Ex, foi um erro de minutos, mas, ela(a presidenta) se despiu do manto da Autoridade maior da nação para telefonar a um investigado.
Ter soltado a escuta,se fosse dentro da escuta autorizada?
Princípio da Transparência!
Nada mais.
O que vejo é um apedrejamento a ele, Magistrado ,num desvio de valor.
Enaltece um investigado (pelo MPF e PF), em detrimento do julgador.
Quanto ao Ministério Público ser loquaz, tudo bem!MPF/MPE, salvante quando atua "custos legis", é parte, e sendo parte pode dar entrevista, "falar mal do acusado", escrever artigos etc.
Parte processual é parcial.
Necessariamente!
Se se a parte acusadora for imparcial, deixará de buscar provas para sustentar a condenação do acusado.
Serve até para advogado!
Se ele for imparcial , haverá quebra do princípio da ampla defesa.
O juiz de direito (e o membro do ministério público, quando atua como fiscal da Lei): deve ser imparcial, sob pena de comprometer o trabalho que se desenvolve.
Data máxima vênia!

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