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Comentários de leitores

10 comentários

Escola sem partido: contradição perfomativa

Ana Karenina (Outros)

Aristóteles encurralou os céticos e revelou como entram em contradição performativa. Os céticos que dizem '' não existe verdade'' pressupõem que essa assertiva seja verdade, arruinando-se em sua pretensão. Admiro Platão, mas quem nos deu subsídios para enfrentar os céticos e os cínicos foi Aristóteles (Tópicos, Refutações Sofísticas e Analíticos Primeiros são obras importantes para nos blindar contra os sofistas de plantão).
Os que propõem uma escola sem partido tem partido e imaginam falar desde um mítico lugar neutro. O projeto de lei de que trata o artigo é arriscado e pode dar ensejo à caça às bruxas no âmbito escolar que deve ser um lugar aberto. E não adianta dizer que é possível salvar a lei da sua má aplicação: a lei é sua aplicação (Gadamer).
A melhor forma de criar uma cultura democrática não é postular uma mítica escola sem partido, mas sim intensificar o estudo de filosofia que, no Brasil, claudica.
Nós, que levamos a sério o ensino, temos que fazer longas digressões ao falar da norma jurídica como juízo hipotético simplesmente porque o aluno chega à universidade sem saber o que é um juízo (lógico). Só para dar um exemplo. Somente criando uma 'consciência filosófica' é que podemos vencer as doutrinações inclusive as da escola sem partido que, em outra contradição performativa, mais ridiculariza do que discute os autores antipatizados (Paulo Freire, Gramsci e etc. Vide os frágeis argumentos desse movimento no seu sítio). O projeto é inconstitucional e merece uma reação firme da comunidade jurídica.
Mais filosofia já e menos patrulha de quem quer que seja.

Ai, que gente(2)...

Renan Salvador (Advogado Autônomo)

Continuando... Outro dispositivo que é incoerente: art. 4º, IV - "ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito". Ótimo, entendo que um bom professor deva dar uma visão o mais ampla possível do objeto em estudo, considerando - se as limitações de tempo e de formação prévia dos alunos. Agora, quero saber como e quem definirá quais versões, teorias, opiniões e perspectivas, são efetivamente as principais, e qual é a forma "justa" de apresentá - las. Qual será o órgão fiscalizador dessas questões, e com que critério fará seu juízo? Sem nada claro sobre isso, não há nenhuma garantia de que isso efetive o "pluralismo" de idéias, ao invés de servir de pretexto a uma sanção contra o professor por um fato não definido adequadamente em lei. Outros elementos totalmente indefinidos são a "cooptação político - ideológica" e a "propaganda político - partidária". Quais comportamentos serão considerados como tais? Será que o fato um professor relacionar as ações(ou omissões) do Estado, ou de um grupo econômico com aquilo que menciona, implicando um juízo de valor crítico, será considerado como uma "cooptação"? Será que toda manifestação de uma preferência política ou ideológica é uma cooptação ou uma propaganda? Será que o aluno é inexoravelmente condicionado por elas? Minha mãe, que é professora de Ciências e Matemática, qdo comentei o Escola sem Partido, disse que é natural o professor relacionar fatos políticos ou sociais com a explicação de um tema, e reafirmou que essa "doutrinação" não existe, e ainda disse: "Ai, que gente ignorante", sobre os autores dessa proposta.

Ai, que gente...

Renan Salvador (Advogado Autônomo)

O único espantalho que é visível é essa apregoada "doutrinação ideológica" que se quer combater, como se houvesse a malfadada "Educação Moral e Cívica" nos currículos e estes fossem moldados como se seguissem uma espécie de "Doutrina da Segurança Nacional". Nesses tempos, sim havia uma doutrinação, uma linha ideológica a proscrever do currículo tudo que não seguisse uma determinada visão. Não há hoje, nem no passado recente, pós redemocratização, nenhum órgão de estado, ou instituição social imprimindo um corpo de idéias, uma diretriz filosófica ou ideológica em cada escola, o que, sim, seria inconstitucional e iria contra os princípios da liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, e os princípios do pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas(arts 206, II e III da C.F.). Eu tive professores de diversas opiniões, de religiosas a de esquerda, e nenhum deles me puniu ou me constrangeu a estar de acordo ou em desacordo com estas. Já estudei em escola confessional, e um professor religioso mencionou uma versão "criacionista" de uma teoria científica que ele tinha acabado de ensinar. A versão que coloquei na prova foi a científica, e não recebi zero por isso. Já, ao contrário da liberdade de divulgação de , o P.L 867 quer proibir a "veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes". Ora, isso é o mesmo que substituir o pluralismo pelo domínio(não responsabilidade) privado dos pais sobre a educação e formação dos filhos. Será que uma mãe religiosa poderá querer impedir seus filhos de ter aulas sobre sexualidade, por exemplo? Ou impedi - la de se vacinar contra o HPV na escola?

Parabéns!

Oficial da PMESP (Oficial da Polícia Militar)

Artigo lúcido e muito esclarecedor.

Fora da casinha

Rivadávia Rosa (Advogado Autônomo)

A Cartinha “Cidadã” em seu Art. 206, II-III é clara ao preconizar a liberdade ensino/aprendizagem:

II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;
III - pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; ...”

O resto, fora do texto Constitucional - é advogar a [des] educação ideológica orientada para o poder, para não dizer criminosa, em pleno século XXI

não leu o texto e tampouco o PL

afixa (Administrador)

Quem é professor sabe que determinados colegas defendem de forma autoritária suas idéias. Os (pobres) alunos são obrigados a ouvir um semestre , um ano da mesma ladainha em suas cabeças. Depois viram comentaristas, que, comentam sem ler ou saber.

Texto esclarecedor

Rafaelts (Procurador do Município)

O texto é muito esclarecedor...e evidencia em tese, que inclusive tem o potencial de buscar a formação de indivíduos com senso critico mais apurado....a grande questão é: como é que vai se efetivar a execução dessa lei? acho que essa eventual nova forma de ensinar vai precisar ser absorvida e desenvolvida pelo próprios educadores,,o que vai demandar muito anos ainda...

Clareza solar

Sidarta Cabral (Assessor Técnico)

Com simplicidade e conteúdo Miguel Nagib além de contrapor os argumentos retóricos dos juristas ainda convidou para um debate. Seria muito bom se aceitassem. Esse assunto é muito importante para a educação brasileira.

Ramiro, o Sr. leu o texto?

Pragmatista (Outros)

Ao que parece o Sr. Ramiro não leu o texto que comentou. O que seu autor pretende é justamente assegurar a pluralidade de ideias na escola. Visa apenas a assegurar que o professor não divulgue pinturas idealizadas de suas preferências políticas, filosóficas e morais, contra uma visão caricaturada daquelas em relação às quais não nutra apreço. E isso vale para todas as visões dentro do continuum político-ideológico. Por exemplo, tanto um libertário nozickiano não deve apresentar caricaturas de Marx quanto um marxista não deve apresentar caricaturas de Nozick.
Não parece que o autor está pedindo demais. Aliás, ao incentivar a divulgação da pluralidade de visões de mundo, o projeto se coloca diretamente em contrariedade a qualquer forma de totalitarismo. Passa longe, mas muito longe mesmo do fascismo. Em nenhuma passagem do texto o autor sugere que certas visões de mundo sejam banidas ou que livro sejam incinerados.
Numa sociedade plural como a brasileira, parece que não há nada mais democrático e honesto do ponto de vista intelectual do que incentivar que o professor apresente, em sala de aula, diversas visões existentes.
Já tinha simpatia com a ideia. Depois de ler o texto esclareci várias dúvidas e percebi que, até o momento, seus críticos sequer se deram ao trabalho de ler o projeto ou as bases pluralistas e democráticas que lhes servem fundamento.

Há uma entrevista que diz tudo...

Ramiro. (Advogado Autônomo - Criminal)

https://www.youtube.com/watch?v=R71v-akXmxA
Diz tudo...
Poderia citar um texto de Umberto Eco sobre o Ur Fascismo ou "O Fascismo Eterno", é fácil encontrar na Internet, embora esteja particularmente interessado agora nas obras de Umberto Eco sobre semiótica, interpretação de textos e hermenêutica, limites da interpretação.
Os textos do próprio Umberto Eco seriam considerados violadores das consciências individuais das "famílias dos alunos".
Esta palhaçada fascista, vejo como uma patacoada ultra fascista que virou modinha, está fazendo lembrar Ray Bradbury, Fahrenheit 451. Embora Ray Bradbury autorize o filme como uma segunda releitura da obra, no livro há uma passagem onde um dos personagens, o "capitão dos bombeiros" explana como os livros acabaram sendo banidos, de forma natural, até acabarem sendo proibidos.
Analisando a educação por apostilas, por resumos, e projetos como esse, quem leu Fahrenheit 451 pode estar perfeitamente correlacionando trechos da ficção a realidade de agora.
Agora tomo como exemplo um autor maldito, que é um dos alvos de banimento por tais leis... o link abaixo é do grupo da Família Marinho, nada simpática.
http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/02/so-um-livro-brasileiro-entra-no-top-100-de-universidades-de-lingua-inglesa.html
No Estado do Rio de Janeiro houve governadora querendo banir por decreto, proibir o ensino da biologia evolutiva, da evolução das espécies, algo que tem evidências densas desde a biologia molecular, querendo defender o direito religioso de que se ensinasse o criacionismo, ao qual deram um pomposo nome tão idiota quanto a teoria, "desenho perfeito".

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