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Ideias do Milênio

"O fato de a corrupção ter vindo à tona no Brasil é um avanço"

George Soros [Wikimedia Commons]Entrevista concedida pelo megainvestidor e filantropo George Soros, à jornalista Carolina Cimenti, para o programa Milênio — um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira com repetições às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).

A expectativa do mercado. Os humores do mercado. Mas afinal, quem é essa entidade tratada como personagem e que mexe com os destinos do mundo? Para entender um pouco melhor, vale ouvir quem nunca teve medo de lidar, de especular e de arriscar no mercado. Ele nasceu George Schwartz, na Budapeste de 1930, nove anos antes do início da Segunda Guerra Mundial. Tinha 13 anos em 1944, quando o exército nazista ocupou a Hungria. Aos 18 anos foi para Londres, onde graças a uma bolsa de estudos cursou filosofia na London School of Economics. O homem mundialmente conhecido como George Soros criou o fundo de investimento mais bem sucedido da história. No dia 16 de setembro de 1992, se transformou no “homem que quebrou o Banco da Inglaterra”. Na chamada “Quarta-Feira Negra”, o fundo de Soros apostou 10 bilhões de Libras contra a moeda inglesa e impediu que a Inglaterra entrasse na zona do Euro. Anos mais tarde, ele admitiu ter lucrado mais um bilhão de Libras só naquele dia. Chamado por muitos de mega especulador, Soros também acumula o papel de filantropo desde os anos 70. Financiou estudos de jovens negros na África do Sul do Apartheid, e mais tarde foi decisivo no apoio aos movimentos que precipitaram a queda do bloco comunista no Leste Europeu. Afastado do dia a dia do mercado financeiro desde o início do ano, George Soros esteve no Rio de Janeiro em abril para a reunião anual da fundação que criou, a Open Society, que está expandindo as atividades na América Latina. A GloboNews foi o único canal de televisão que conversou com Soros durante essa visita.

Carolina Cimenti — Por que o senhor escolheu o Brasil para sediar o encontro anual da sua fundação?
George Soros —
Foi um encontro do conselho global, que é o conselho que administra as atividades da fundação em todo o mundo. E viemos para cá porque estamos expandindo nossas atividades na América Latina. Nós criamos um conselho consultivo de latino-americanos que nos guiarão em nossas atividades na América Latina. E o objetivo deste encontro aqui foi reunir todo mundo para formular essa estratégia.

Carolina Cimenti — A sua fundação, se não estou enganada, foi criada justamente para aumentar a transparência no mundo, no Leste Europeu. Foi por isso que veio ao Brasil, por causa dos escândalos, da corrupção que temos visto no último ano?
George Soros —
Não. Foi uma coincidência. Isso é algo mais a longo prazo. Estamos desenvolvendo uma estratégia para a fundação, que continuará após a minha morte. Estamos reorganizando a fundação, institucionalizando-a, para que ela sobreviva a mim. Minha ideia original era gastar todo o meu dinheiro durante a minha vida, mas concluímos que isso seria muito egoísta e que é necessário que a fundação continue existindo. E a necessidade mais importante, na minha opinião, é continuar apoiando a sociedade civil na responsabilização de governos e de pessoas no poder pela forma como usam esse poder que é dado a eles pelo povo.

Carolina Cimenti — Estamos vendo a Petrobras, o governo e empresários envolvidos em doações ilegais a partidos. Algumas dessas pessoas estão presas, outras ainda estão sendo investigadas. Isso lhe dá uma sensação de que algo está sendo feito ou um sentimento negativo em relação ao Brasil?
George Soros —
Acho que, até certo ponto, isso acontece porque, nos últimos 15 anos, o Brasil desenvolveu instituições independentes que estão atentas ao interesse público. Vocês também têm uma imprensa muito atuante, que faz jornalismo investigativo. Esses são desenvolvimentos institucionais positivos que revelam uma corrupção que antes provavelmente estava escondida. O fato de ela ter vindo à tona, na minha opinião, é um avanço, porque significa que agora as pessoas sabem que ela existe, são contra ela e espero que condições melhores sejam criadas.

Carolina Cimenti — A violência também é um grande problema nosso. Sei que algumas pessoas da sua equipe foram ao Batalhão de Operações Especiais da polícia. Lutamos há muitos anos contra o tráfico e as drogas. Às vezes parece que a situação está melhorando, outras vezes, como no último mês, a violência volta a aumentar. Qual é a sua opinião? O que países que enfrentam esse problema grave devem fazer?
George Soros —
Esse é um dos problemas principais que começamos a atacar 25 anos atrás, e acho que estamos progredindo. Aliás, a América Latina está liderando o caminho, porque nós reconhecemos que a dependência química é um problema sem solução. É basicamente um problema de saúde pública, e tratar os dependentes químicos como criminosos dificulta que lidemos com o problema da dependência. Então é preciso distinguir entre os usuários de drogas, que são vítimas, e os traficantes, que os exploram. Como os usuários muitas vezes são tratados como criminosos, é fácil explorá-los. E acho que a Comissão Global de Política sobre Drogas conseguiu avançar bastante na tentativa de convencer o público de que essa é a abordagem certa.

Carolina Cimenti — Há alguns anos, um empresário brasileiro do setor de petróleo e gás, Eike Batista, chegou à oitava posição da lista de bilionários da Forbes e prometeu que chegaria ao primeiro lugar em breve. Isso não aconteceu. O que o senhor acha disso? E em relação à concorrência? Quando vê Warren Buffett ou Bill Gates, isso é importante? A concorrência é importante para se conquistar mais?
George Soros —
De maneira geral, a concorrência é algo positivo, mas não deve ser exagerada, porque é preciso haver cooperação. Principalmente no mercado financeiro, que foi globalizado. A globalização se alastrou como um incêndio na mata, porque ela permitiu que indivíduos, capitalistas e empresas escapassem, transferindo seus ativos, de regulamentações e de tributação. Mas mercados sem regulamentação são instáveis. É claro que a falta de tributação deixa os ricos mais ricos e a diferença entre os ricos e os pobres cresce. Então, para corrigir essas deficiências, precisamos de cooperação internacional. E isso é muito difícil, porque a regulamentação e a tributação são questões de soberania nacional. Temos a globalização, mas a globalização das regulamentações não acompanhou a globalização dos mercados.

Carolina Cimenti — O senhor é o investidor mais bem sucedido do mundo e, ao mesmo tempo, um dos maiores filantropos do mundo. Trabalha nas duas direções. Por um lado, luta para ganhar dinheiro e, por outro, doa dinheiro. Alguns o chamam de especulador desalmado, mas, por outro lado, o senhor doa dinheiro para causas muitas vezes esquecidas. Quem é o senhor?
George Soros —
Há uma ligação. São dois aspectos diferentes, e passei quase toda a minha vida tentando ligar os dois e encontrar o equilíbrio, que encontrei na minha idade avançada porque finalmente me aposentei do meu trabalho e agora me dedico exclusivamente à filantropia. É um tipo especial de filantropia baseado na minha filosofia, que me guiou tanto para ganhar dinheiro como para gastá-lo. O meu mentor foi um filósofo, Karl Popper, que me ensinou sobre a importância do pensamento crítico. Como bom aluno, também me tornei um crítico da filosofia dele e a desenvolvi. É essa filosofia que me guia em ambas as atividades. Até recentemente eu achava que a minha filosofia era uma questão pessoal, algo que me guiava, mas a crise financeira de 2007 e 2008 me convenceu de que o meu arcabouço conceitual talvez seja uma contribuição valiosa para o entendimento da humanidade. Eu me considerava um filósofo fracassado, mas agora, já bem idoso, acho que sou um filósofo sério.

Carolina Cimenti — O conflito entre a Ucrânia e a Rússia, o senhor já falou, é o maior risco que o mundo corre hoje, e pode até ajudar a desintegrar a União Europeia, que é um projeto muito importante. Ainda é o caso?
George Soros —
Em primeiro lugar, o meu interesse na Ucrânia tem motivos pessoais e, digamos, tem motivos subjetivos e objetivos. O motivo subjetivo é que eu criei uma fundação na Ucrânia, uma Open Society Foundation, há 25 anos, antes de a Ucrânia se tornar independente. É mais antiga do que o país em si. E essa fundação está no centro da resistência à agressão russa. E praticamente todas as pessoas envolvidas no que chamo de uma experiência única na democracia participativa estão de alguma forma ligadas à fundação. Portanto esse é o motivo subjetivo. Graças a isso, eu entendo melhor a situação e acho que essa é uma das crises mais importantes do mundo atual e solucioná-la da forma certa faria uma grande diferença na solução de todas as outras crises que hoje se multiplicam no mundo, porque crises não diminuem, elas crescem, se multiplicam.

Carolina Cimenti — Nesse sentido, uma possível desintegração ou uma integração não tão forte da União Europeia é uma má notícia.
George Soros —
Seria muito sério, porque a União Europeia era, de certa forma, a forma mais avançada de cooperação internacional da Europa, que reúne, afinal, vários Estados soberanos com uma história em comum, com uma formação em comum, com valores parecidos...

Carolina Cimenti — Uma moeda comum...
George Soros —
Agora eles têm uma moeda comum, e essa moeda comum é a primeira causa dos problemas que a União Europeia está enfrentando. Eu escrevi um livro, A Tragédia da União Europeia, que trata da crise do euro, que veio da crise que se originou nos Estados Unidos com o problema da bolha do mercado imobiliário. Mas o sistema bancário europeu foi profundamente afetado. Portanto esse é o pano de fundo, mas o capítulo mais recente é o renascimento da Rússia como potência agressiva e assertiva. Eu estava envolvido no colapso da União Soviética 30 anos atrás, então, para mim, isso é um déjà-vu, é um repeteco. Mas a grande diferença entre os acontecimentos de 30 anos atrás e o que está acontecendo hoje é que, há 30 anos, a União Soviética estava se desintegrando e a União Europeia estava no auge de sua integração, era um projeto novo e dinâmico. Eu tratei a União Europeia como monumento ao ideal de uma sociedade aberta, com Estados soberanos iguais...

Carolina Cimenti — E agora é o contrário.
George Soros —
Exatamente o contrário. Agora temos a desintegração da União Europeia devido à crise do euro e um ressurgimento da Rússia, assertiva e agressiva.

Carolina Cimenti — Ainda acha que há 50% de chance de a Grécia deixar a zona do euro nos próximos meses?
George Soros —
Bem, temos a crise grega e a crise ucraniana ao mesmo tempo. Até agora a União Europeia tem tido sucesso, aos trancos e barrancos. Mas lidar com os dois problemas ao mesmo tempo talvez seja demais. E um dos maiores problemas é que a União Europeia trata a Ucrânia como se fosse apenas outra Grécia que nem integrante da União Europeia é. E que portanto não merece muita atenção e apoio. E esse é um erro enorme, porque hoje existe uma nova Ucrânia, a Ucrânia de que eu falava, que quer ser o oposto da antiga Ucrânia, que era subserviente à Rússia. Na verdade, era quase uma caricatura do regime de Putin, muito pior, ou melhor, um pouco pior do que o próprio regime de Putin. E essa nova Ucrânia quer ser o oposto, e trata-se de um aliado muito valioso, que defende a União Europeia contra uma agressão real que ameaça os valores e os princípios que levaram à formação da União Europeia. Então essa é a questão ucraniana. E a ameaça da Rússia é o maior problema que não está suficientemente sendo levado a sério e compreendido pelo povo nem pela liderança da União Europeia.

Carolina Cimenti — Qual é a sensação de ganhar um bilhão de libras em um dia? A sensação é boa?
George Soros — Você se acostuma.

Revista Consultor Jurídico, 29 de setembro de 2015, 11h26

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