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Ideias do Milênio

"Devaneios são resistências ao império da atenção"

Jonathan Crary [Reprodução]Entrevista concedida pelo teórico Jonathan Crary, autor do livro 24/7 – Capitalismo Tardio e os Fins do Sono ao jornalista Lucas Mendes, para o programa Milênio — um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira com repetições às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).

Twenty Four Seven, 24/7. É a expressão popular em inglês para dizer “sempre ligado”, funcionando ou trabalhando sem parar vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. No livro 24/7 – Capitalismo Tardio e os Fins do Sono, o teórico Jonathan Crary argumenta que o sistema capitalista global mudou fundamentalmente a experiência humana ao submeter todos à tirania dessa sintonia permanente que subverte os ritmos naturais do sono e da vigília. O que ele propõe como resistência ao império da atenção constante é a reconquista de espaços de liberdade, como o sonho e o devaneio.

Jorge Pontual — Explique o que é, para você, esse fenômeno 24/7 que estamos vivenciando. No Brasil, o título do livro é 24/7, certo?
Jonathan Crary — Não tenho certeza.

Jorge Pontual — Parece que sim. E no Brasil não utilizamos tanto essa expressão. Aqui, nos Estados Unidos, todo mundo sabe o que significa. Me explique o que quer dizer.
Jonathan Crary — Primeiro devo dizer que o título não foi escolhido por sua precisão ou exatidão teórica, mas por ser algo sugestivo, que evoca alguma coisa, principalmente para as culturas de língua inglesa, nas quais é uma expressão tão familiar, um símbolo tão conhecido, uma espécie de logotipo. Então eu uso o termo “24/7” para associá-lo a um grande leque de fenômenos, mas, basicamente, ele se refere a uma constelação de processos que são incessantes, que operam sem interrupção, cujo modelo veio principalmente dos mercados financeiros, da necessidade de continuidade da produção, da circulação, da comunicação, das compras, do trabalho, etc. Mas uso o termo não só para marcar o fluxo de tempo como algo incessante, mas também para evocar a ideia de exposição, de um tempo do qual não há refúgio, não há lado de fora. De algumas formas, imagens de claro e escuro me são úteis, e “24/7” seria a iluminação total, não necessariamente no sentido de luz, mas de exposição, que pode aludir a formas de vigilância que operam sem parar.

Jorge Pontual — Um dos conceitos presentes no seu livro é o de que, com a internet, todo computador se tornou um terminal digital. Mas agora, com esse modelo “24/7” baseado, como você disse, nos mercados financeiros, toda pessoa que é exposta a isso se torna um terminal. Toda pessoa está produzindo para essa rede.
Jonathan Crary — Com certeza. Toda pessoa, de certa forma... Há imperativos disfarçados de incentivo à ideia de que melhoraremos nossa situação econômica, nossa situação social, nos tornaremos mais conectados...

Jorge Pontual — Teremos mais amigos.
Jonathan Crary — Exatamente, mas o resultado final, na minha opinião, é um empobrecimento maior e uma privação maior por causa dessas demandas. Acho interessante que tantas pessoas se preocupem com as agências de inteligência, a NSA e todas as coisas, que Edward Snowden expôs, mas não têm escrúpulos nem hesitam quando expõem sua vida particular a corporações orientadas para o consumo.

Jorge Pontual — O livro fala que estamos sendo induzidos – e gostamos disso – a nos remodelar neste mundo digital e até a monitorar nossas atividades físicas, mentais, emocionais... Por exemplo, eu uso esta pulseira. Assim que olho a tela do meu telefone, vejo como está minha atividade física e como foi a minha noite, como eu dormi: a quantidade de sono profundo, de sono leve, de vigília... E posso compartilhar as informações com meu personal trainer, para ele saber a qualidade do meu sono. Isso pode ter implicações no futuro, pode virar uma commodity. Podem querer me vender medicamentos para dormir melhor, mais profundamente... Estou divulgando isso on-line. Quais são as implicações disso? Todo mundo que tem acesso a essas engenhocas faz isso. Por que gostamos tanto de engenhocas? Eu também me sinto... Talvez seja exagero meu, mas parece a corrente de um escravo. Como se eu estivesse acorrentado.
Jonathan Crary —
O escritor americano Thomas Pynchon, em seu livro mais recente, Bleeding Edge, se refere aos aparelhos e aos smartphones atuais como algemas modernas.

Jorge Pontual — É, são algemas.
Jonathan Crary — Mas não sabemos disso. Nós os usamos, carregamos e somos monitorados o tempo todo. Mas o que você mencionou sobre o hiperdesenvolvimento de novas microtecnologias se encaixa na tese geral do “24/7” de que há uma intensificação para se ocupar todo intervalo de comportamento, de atividade e de tempo. Há uma espécie de colonização intensificada que, em última instância... Acho que temos consciência em algum lugar de nossa mente de que isso é insustentável e que não vai acabar bem. A outra coisa que não enfatizei o suficiente no meu livro é o quadro de divisão global que está surgindo, ou seja, a divisão entre o norte e o sul do planeta, ou entre os centros ricos e cosmopolitas, onde quer que estejam, e os bilhões de pessoas vivendo na linha da pobreza ou abaixo dela. E não acho que ninguém que esteja usando todos esses equipamentos com aparente satisfação ou algum tipo de gratificação realmente acredite que um dia haverá uma distribuição igualitária da cultura tecnológica material por todo o planeta. Acho que, de certa forma, aceitamos a desigualdade global como fato e estamos vivendo com antolhos. Não estamos nos atentando para os tipos de colisões e conflitos que virão. Isso se deve em parte ao fato de que não há maneira possível... Acho que nenhum economista, sociólogo ou político pode afirmar de forma convincente que aumentaremos o padrão de vida de todas as pessoas no Ocidente. Estou dizendo algo bem óbvio, mas acho que a expansão e a complexidade do que nós enxergamos como cultura tecnológica vão continuar restritas aos consumidores das regiões mais ricas do planeta. Os smartphones, laptops e tablets que temos... De novo, todo mundo sabe disso. Eles são baseados na extração de minerais e recursos naturais que estão principalmente na África, no Sudeste Asiático, etc. Eles dependem de um processo amplo de desapropriação, extração e empobrecimento que ninguém quer encarar. Dizemos: “Vamos tentar extrair os chamados minerais raros de forma responsável, sem explorar o povo”, mas não é isso que acontece. Está causando devastação ecológica, portanto não temos um futuro cor-de-rosa pela frente.

Jorge Pontual — Para você, dormir e sonhar seriam áreas de resistência, certo?
Jonathan Crary — Bem, resistência... Há muitos teóricos políticos, principalmente na Itália, que tratam a resistência menos como confronto direto e propõem modelos alternativos de resistência calcados em ideias de afastamento, de deserção, de recusa... Da recusa de participar, que, de certa maneira, é uma forma indireta de oposição. De várias maneiras, acho que essa é a direção que várias organizações políticas terão de tomar. Elas não serão capazes de... Veja o que aconteceu no Egito, quando a Irmandade Muçulmana se reuniu em público. Havia uma desigualdade absoluta que revelou a inadequação de um modelo antigo de luta, de levar as pessoas às ruas para confrontar as forças da ordem e as autoridades.

Jorge Pontual — Também existe a ilusão de que as ferramentas de mídia social por si só seriam revolucionárias.
Jonathan Crary — Já testemunhamos algumas limitações delas. Não sou fã das mídias sociais por vários motivos, mas reconheço que elas são obviamente úteis para o que em inglês chamamos de mobilização em torno de questões pontuais. Ou seja, reunir as pessoas para se concentrarem num objetivo particular. Mas não acho que seja algo que possa construir uma conscientização mais ampla que seja revolucionária por natureza. Acho muito difícil, enquanto se usam as mídias sociais, imaginar um futuro que não seja apoiado nessa privatização e numa imersão individual no sistema tecnológico, porque as mídias sociais não são algo como o telefone, não é um conjunto neutro de ferramentas, é algo projetado especificamente pelas empresas para produzir comportamentos de natureza muito específica. Hoje em dia, muita gente me chama de tecnófobo. Não sei se a palavra faz sentido para você.

Jorge Pontual — As pessoas vão entender.
Jonathan Crary — Dizer que sou tecnófobo, que sou contra a tecnologia, é ridículo. Aceito a natureza genuína da técnica, da tecnologia, que faz parte da nossa vida, mas os acusados de serem tecnófobos geralmente são as pessoas que criticam os produtos comerciais dos quais somos alvo. Então quando eu proponho outras formas para a comunicação e a conexão acontecerem, ou para comunidades surgirem...

Jorge Pontual — Que formas?
Jonathan Crary — Em alguns lugares estão surgindo formas locais de organização política e comunidades, talvez usando as mídias sociais até certo ponto, mas acho que formas duradouras e eficazes de construção de comunidades têm de conter uma base local onde há encontros cara a cara, familiaridade entre as pessoas, onde esse tipo de conexão humana é construído. Isso aconteceu em Nova York, no Occupy Wall Street. Houve muitos aspectos empolgantes, mas, em última instância, foi um movimento efêmero, em parte por causa da ausência de vínculos e conexões entre as pessoas, que teriam sido construídos se fosse uma luta mais longa em prol de causas comuns.

Jorge Pontual — Vamos voltar aos sonhos. Há uma crítica no livro sobre Freud, a privatização dos sonhos. O que é isso?
Jonathan Crary — Estamos na era das neurociências, na qual qualquer modelo freudiano de sonho é considerado ingênuo e uma espécie de peça de museu. Mas acho que alguns truísmos ou clichês que a obra de Freud produziu ainda funcionam. Ainda há uma noção popular de que o sonho é algo privado, individualizado, é sobre uma economia do desejo completamente interna. E acho que Freud tinha muito medo da ideia de que isso transbordasse para um conjunto mais amplo de desejos de natureza coletiva. Para ele, esse modelo era desregrado demais. De certa forma, estou fundindo dois sentidos diferentes. Há a ideia de que o sonho é um acontecimento que ocorre durante o sono, mas também trago a ideia do desejo, de um sonho que faz parte da imaginação mais ampla de uma realidade alternativa.

Jorge Pontual — Um presente e um futuro diferentes.
Jonathan Crary — Exatamente. O sonho, no sentido literal, faz parte disso, e acho que não se trata simplesmente de desejos reprimidos, mas de uma participação maior no anseio por algo menos fracionado.

Jorge Pontual — Existe também a ideia de que o sonho nivela. O empresário e o artesão, todos dormem juntos e sonham juntos.
Jonathan Crary — A criança e o adulto, o são e o doente, o criminoso e o rico... Pois é, isso surgiu num momento muito específico, antes de este país tomar o rumo que tomou, do capitalismo inescrupuloso, no final do século 19.

Jorge Pontual — Então nossa esperança está em dormir e sonhar?
Jonathan Crary — Acho que está em enxergar a possibilidade de que pode haver outras partes de nossa vida fora das demandas de comercialização, de mercantilização, de privatização.

Jorge Pontual — Talvez eu deva me livrar disto. Parar de tentar controlar meus sonhos.
Jonathan Crary — Quem sabe o que mais podem estar monitorando por aí...

Jorge Pontual — É nocivo ou simplesmente inevitável esse controle ao qual nos submetemos? Vivemos numa sociedade que você chama de “sociedade da atenção”. O que é isso? Moldar nossa percepção de uma maneira diferente? Estou mudando de assunto.
Jonathan Crary — Nem tanto, porque meus trabalhos mais antigos, sobre atenção... Quando cientistas e psicólogos começaram a estudar a ideia da atenção, perceberam que ela não tinha relação com o sono e que a atenção é um estreitamento da consciência. Estou generalizando muito, mas significa excluir estímulos desnecessários e distrações. E o ato de dormir também é um estreitamento das percepções, obviamente muito mais radical, é um estreitamento quase completo. Mas quando a ciência da hipnose começou a se desenvolver no final do século 19, se descobriu que a hipnose estava relacionada ao sono e também era uma forma de atenção que excluía todo um campo de estímulos excessivos. Agora, estou interessado em como a ciência da atenção vem despertando tanto interesse das grandes empresas de tecnologia. Um dos executivos da Google, Eric Schmidt, disse que o século 21 é o século da economia da atenção. E disse que as empresas que terão mais sucesso serão aquelas que aprenderam a controlar e atrair a atenção de usuários individuais da internet.

Jorge Pontual — Então é muito importante ter algum tempo ocioso para devanear, sonhar acordado.
Jonathan Crary — Que bom que usou essas palavras, porque devanear e sonhar acordado são os espaços que julgo, em termos da imaginação de um futuro, absolutamente essenciais. Estou preocupado com as crianças que vejo hoje, para quem não há espaços, não há intervalos de tempo para que elas comecem a entender o que é devanear, nos quais possam ficar sozinhas. Acho que elas se sentem desconfortáveis nesses momentos de desconexão.

Jorge Pontual — Elas são medicadas para isso.
Jonathan Crary — É verdade. Esse é um outro assunto, a farmacologia da sociedade de consumo do século 21.

Jorge Pontual — Mas não temos tempo para isso. Muito obrigado.
Jonathan Crary — Eu que agradeço. 

Revista Consultor Jurídico, 23 de setembro de 2015, 16h39

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