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Opinião

As aventuras da causídica Alice no País da Advocacia

Por 

A estória que segue foi escrita a partir de uma adaptação livre da obra de Charles Lutwidge Dodgaon, publicada em julho de 1865 sob o pseudônimo de Lewis Carroll, sendo a presente uma narrativa fictícia — ou não — sem pé, nem cabeça, sobre uma aventura vivida pela jovem advogada Alice.

Estava ela a participar de um rega bofe de época, na qual encontravam as cabeças coroadas — outras nem tanto — do mundo jurídico, cujo lema era “ver e ser visto”, uma regra de sobrevivência profissional que aprendeu ainda nos bancos da academia.

Cansada após um dia de trabalho e entediada com as conversas desconexas que se repetiam nesse tipo de evento, recostou-se em um pequeno sofá de leitura ao fundo da biblioteca, lateral à enorme sala de estar onde trombavam os convivas. Adormeceu.

De repente, um bater de pés a despertou. Ela virou-se para a figura com uma agenda embaixo dos braços, processo em uma das mãos, cabelo desarrumado, nó frouxo de gravata e perguntou, enquanto ele dava voltas a seu redor praguejando normas sem sentido:

— Quem é Você? Para onde vai?

— Tenho pressa! Tenho pressa, muita pressa! Prazos, protocolos, minutas para finalizar, fichas de tempo para fechar. Não sei de vou de táxi ou de Uber? Tenho pressa! Respondeu o estagiário maluco.

E assim partiu em disparada o estagiário maluco por um longo corredor. Atordoada, e sem opção, Alice correu atrás do rapaz, que agora sumia a olhos vistos, rápido como um coelho.

O corredor foi se estreitando sem a advogada perceber e, quando deu por si, Alice estava grande demais para prosseguir, foi quando uma garrafa com o dizer “REGRA” caiu-lhe à frente. Bebeu o líquido do vasilhame e veio a encolher como num passe de mágica. Diminuta conseguiu seguir adiante. Mas sentiu que o local, semelhante a um grande tribunal, a constrangia pela imensidão, humilhava-a. Buscou ao redor e eis que encontrou um pote de algo que lhe pareceu biscoitos e no qual estava escrito “EXCEÇÃO À REGRA”. Não teve dúvida, deu uma enorme mordida na primeira bolacha que lhe veio à mão.

Pronto, ficou enorme, e, assim, continuou em frente, radiante.

Não conteve as lágrimas de contentamento que de pronto tomaram todo o auditório onde se encontrava.

Nesse instante o estagiário maluco volta à cena e se vê obrigado a nadar nas lágrimas da advogada, deixando cair o processo que levava consigo, sendo que, desorientado e ofegante pelo esforço, partiu sem o mesmo.

Preocupada com o infortúnio do maluco, Alice decide restituir-lhe o processo para que o mesmo seja entregue a tempo e modo no cartório.

Retomado seu tamanho normal e sentindo-se como em um labirinto, Alice depara-se com o atendente do cartório, este vestido todo em azul e com uma enorme cigarrilha que levava escondida em uma das mãos, afinal é proibido fumar em um prédio público.

Apesar de ciente de seu infortúnio e conhecedora das regras de processo e procedimento cartorário, Alice é obrigada a travar um diálogo lisérgico com aquele atendente:

— O estagiário passou por aqui? Pergunta Alice.

— Ah, sim, o jovem apalermado que vinha devolver um processo que não com ele? Responde o atendente em azul.

— Sim, esse mesmo, para qual direção ele foi? Devolve Alice.

— Ora, e eu quem sei! Responde de forma ríspida o homem com impaciência no olhar, e continua.

— Não estudei Direito, mas se fosse advogado não agiria assim como uns e outros o fazem por ai. Eu não, eu faria diferente.

— Como assim? Dispara Alice com um tom zangado na voz.

— Bem, doutora, faria apenas diferente. Não como os doutores que encostam o umbigo em ‘meu’ balcão. Afirmou o terceirizado com a soberba de quem fora picado pela mosca azul.

Farta pela conversa e trato nauseante — e ainda com o processo do estagiário maluco em mãos — Alice decidiu prosseguir, deixando para trás o falastrão que em nada lhe ajudou. Melhor, a atrapalhou.

Tomou por rumo a direção da sala dos advogados. Mas lá chegou na hora do chá das cinco. Uma conversa animada se desenrolava entre os colegas presentes. Tudo isso entre uma cópia e uma impressão, uma consulta demorada ao e-processo e muita, muita conversa fiada jogada fora. Alice pediu a palavra, mas foi ignorada. A animação aumentou quando um dos velhos advogados presentes com um chapéu panamá na cabeça informou que acabara de ganhar a causa de sua vida. Vivas e convivas brindavam alegremente com copinhos plásticos de chá de camomila.

Desnorteada ela então vê o estagiário maluco passar esbaforido pela porta com um copo maior de café requentado em uma das mãos. Ele seguia em direção a uma das salas de audiência e conciliação.

Pronto, pensou Alice, é agora. Ele não me escapa.

Determinada, pede licença e adentra o recinto. As testemunhas de uma das partes parecem discutir entre si num canto da sala. O promotor aproxima-se da cadeira onde Alice tomou assento e comunica a jovem que a magistrada é uma pessoa difícil de agradar; sendo que nesse exato momento a juíza entra batendo a porta atrás de si. Todos se levantam, mais por temor do que por respeito.

Lançando um olhar de reprovação a Alice dispara:

— O que fazes aqui?

— Vim até aqui devolver o processo ao ... . Não consegue concluir Alice, pois foi bruscamente interrompida pela juíza, agora com o dedo em riste.

— Excelência, mocinha, excelência, escutou bem? Bradou a juíza e prosseguiu.

— A senhorinha sabe muito bem que não pode faltar com a verdade, pois senão serei obrigada a lhe dar voz de prisão, não sabe?

— Sim, sei, mas eu só .... Mais uma vez não conseguiu concluir a advogada;

— Atenha-se aos fatos, doutora! Explodiu em cólera a magistrada.

— Mas eu só quero devolver o processo ao estagiário. Disse com voz firme Alice, levantando-se da cadeira onde estava e apontando para o acadêmico em Direito cabisbaixo no fundo da sala.

— Prendam-na, prendam-na. Ordenou a juíza.

Enquanto os policiais sem nada entender caminhavam em sua direção, Alice lembrou-se que ainda levava no bolso do blazer um pedaço do biscoito de “EXCEÇÃO À REGRA”. Tascou a mordida. Ficou enorme. Todos saíram correndo apavorados. Alice fez menção por sair atrás deles, em especial da juíza, mas, esquecendo-se de sua enormidade, deu com a cabeça no ventilador de teto, vindo a cair desacordada.

Assustada, acordou no pequeno sofá da biblioteca com seu irmão à frente oferecendo-lhe uma xícara de chá.

Narrou então seu sonho ao jovem imberbe que, levando uma das mãos à cabeça, a outra à gravata já frouxa, ficou a pensar na própria história. Ele, um quase bacharel em Direito, estagiário a pouco apresentado ao ofício da advocacia.

E assim foram os dois, estagiário e advogada, porta da festa afora.

 é advogado e especialista em Administração Pública pela EBAP-FGV.

Revista Consultor Jurídico, 22 de setembro de 2015, 7h38

Comentários de leitores

1 comentário

Vivemos no país das maravilhas

Natalia Avila (Publicitário)

Analogia criativa, divertida e real! Gosto muito dos livros e assisti recentemente o filme da Disney aonde pensei que nós vivemos no país das maravilhas. Os personagens sempre encaixam no nosso cotidiano.
Adorei ter misturado os dois universos, parabéns!

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