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Opinião

Terceirização faz parte de estratégia de negócios das empresas

Por  e 

A terceirização é uma realidade mundial e o Brasil não foge à regra. Ela está presente no processo de fabricação de muitos produtos que os consumidores do nosso país e do mundo adquirem ou sonham adquirir, tais como automóveis, smartphones, casa própria.

Nesse contexto, é necessário entender que a terceirização é uma forma de gestão do processo produtivo da empresa. É uma ferramenta pela qual uma empresa contrata determinado serviço que será feito com mais eficiência por outra empresa.

Por meio dessa ferramenta, transferem-se, ou contratam-se com terceiros, atividades que, com competência e qualidade técnica, serão mais bem executadas por outras empresas que não a própria contratante, agregando ao produto ou serviço maior especialização, eficiência, competitividade e qualidade técnica.

A terceirização, portanto, faz parte da estratégia de negócios da empresa e assim precisa ser percebida.  

Para se ter uma ideia, de acordo com pesquisa feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em 2014, quase 70% das indústrias brasileiras utilizaram serviços terceirizados nos últimos anos, o que revela que a terceirização é essencial para a competitividade do setor produtivo.

Se considerarmos que o Brasil tem mais de 4,8 milhões de empresas, 90% das quais de micro e pequeno porte, percebe-se a vocação empreendedora do brasileiro que, por sua vez, precisa ser estimulado por um bom ambiente de negócios e cadeias produtivas diversificadas e integradas.

Nesse contexto, a especialização é a palavra-chave, o fator crítico e caminho mais célere para o aumento da produtividade e a geração de emprego. A necessidade de serviços especializados é, por sua vez, é suprida pela terceirização. Sem isso, não se alcança o que consumidor espera das empresas.

E essa ferramenta não é utilizada apenas pelas grandes empresas. As pequenas empresas têm integrado cada vez mais a terceirização à sua estratégia de negócio. De acordo com a mesma pesquisa, 55% das pequenas indústrias recorreram a serviços terceirizados nos últimos três anos.

No mais, um total de 62,1% de todas as empresas que se utilizam da terceirização pretendem manter o volume de uso dessa ferramenta. E 21,9% pretendem aumentar a sua utilização.

Com esses dados, já é possível afirmar que empresas de todos os portes estão mais atentas aos ganhos de eficiência, de produtividade e de competitividade obtidos com o processo de terceirização e que ela é, pois, um fato irreversível no nosso país.

Por outro lado, é bom lembrar que hoje essas redes produtivas descentralizadas também se situam e se organizam de diversas formas, podendo estar vinculadas a apenas uma localidade ou mesmo envolver regiões inteiras.

Raras são as empresas que fazem tudo sozinhas. A grande maioria trabalha em parceria com outras empresas nas mais diversas etapas do seu processo produtivo. Por exemplo, uma indústria farmacêutica pode contratar um conceituado laboratório para desenvolver o princípio ativo de determinado produto. Ou uma empresa do setor de óleo e gás pode contratar um escritório de sismologia para fazer os estudos e simulações necessárias para que um poço seja perfurado de forma mais eficiente e segura.

A terceirização, pois, não se resume, a serviços de apoio, como limpeza, ou segurança, mas também contempla atividades essenciais e que integram a cadeia produtiva, como a montagem e manutenção de equipamentos, a logística e os transportes, as consultorias técnicas e a pesquisa e desenvolvimento.

Nota-se, assim, a importância da terceirização, de modo que podemos confirmá-la como forma de gestão estratégica essencial para as empresas obterem melhor técnica, tecnologia e eficiência.

E, nesse cenário, a escolha do que terceirizar faz parte do plano e da dinâmica da atividade econômica que pode variar de acordo com o momento, circunstância ou com qualquer outro fator que exija que a empresa se organize ou se reorganize para ganhar competitividade ou se manter competitiva no mercado.

Dessa forma, a divisão entre atividade meio e fim não guarda relação com a moderna forma de produzir, pois o foco principal de uma atividade pode variar a depender do plano estratégico que se estabelece para o negócio.

Essa subjetiva diferenciação não é aplicável ao conceito de trabalho em redes, em que diferentes empresas compõem com bens ou serviços etapas de uma mesma cadeia produtiva.

Ademais, a nossa Constituição Federal assegura a livre organização da atividade produtiva ao estabelecer como um dos princípios fundamentais da ordem econômica o da livre iniciativa (artigo 170).

Compreender que a terceirização faz parte do plano estratégico de uma empresa é essencial para que se perceba o tamanho do impacto de eventual proibição da terceirização.

A realidade, nesse contexto, revelada pela citada sondagem é bastante delicada: 42% das indústrias afirmaram que perderiam competitividade caso a terceirização fosse proibida e 15,4% teriam uma ou mais linhas de produtos totalmente inviabilizadas.

Ou seja, quase 60% das indústrias sofreriam graves impactos negativos com a eventual proibição da terceirização.

É importante, porém, ressaltar que não somente a proibição da terceirização, como também, a sua limitação, criando obstáculos, por exemplo, a terceirização da atividade-fim, poderia resultar praticamente na sua vedação.

Daí a importância de se regulamentar a terceirização de forma clara, objetiva e equilibrada, pois bem feita traz benefício para todos. Para as empresas, ao permitir que ela seja mais competitiva no mercado. Para o trabalhador, porque a empresa mais competitiva gera mais e melhores empregos. Para a sociedade, porque com a competitividade há serviços e produtos de melhor preço e com maior qualidade.

Portanto, regulamentar adequadamente a terceirização é gerar ao mesmo tempo condições para o crescimento econômico do nosso país e proteção e segurança para empresas e trabalhadores.

 é gerente executiva de relações do trabalho da CNI e membro do Conselho de Administração da OIT.

 é especialista em Políticas e Indústria da CNI.

Revista Consultor Jurídico, 16 de dezembro de 2015, 6h54

Comentários de leitores

3 comentários

Coisificação

JOAOBATISTA0001 (Advogado Autônomo)

Sem embargos, de fato, reforçar o liberalismo e, quem sabe, o empreendedorismo é política que pode ajudar ao desenvolvimento social. O problemas dessas ideias ultraliberais é que são baseadas unicamente no utilitarismo.
Os críticos da "terceirização" devem se preocupar em ter coerência.
É incoerente acreditar que as empresas terceiras têm as mesmas oportunidades e largam com as mesmas condições. Há uma notória desigualdade já na saída.
A relação é: grande empresa contrata empresa fraca e impõe condições de trabalho por contratos leoninos. Os empresários são obrigados a aceitarem tais condições para ter o contrato. Contudo, ao longo da prestação a conta não fecha (se fosse mais barato ter funcionários a empresa não tercerizaria, obviamente).
Para quem sobra todo esse jogo que já nasce fadado ao insucesso? Ao empregado, lógico!
Acreditar que o mercado vai se regular e que as empresas vão buscar tercerização em empresas mais sérias é ilusão.
A única coisa que acontece é que duas ou três empresas do seguimento (informática, segurança ou limpeza) dominam o mercado e achata todos os direitos trabalhistas.
Só vão existir três empresas para trabalhar e se o empregado sonhar em acionar uma delas estará inserido na velha lista negra e só mudando de área para conseguir voltar ao mercado.
Ah... Sei que dizer que só existem três de cada seguimento parece estranho, mas é isso que ocorre. Fora das grandes só há empresas pequenas, de fachada, que abrem as portas e somem sem deixar vestígio.
Com isso, os empregados passam a ser coisificados e há uma forte comoditização da mão de obra.
Quando for escrever sobre terceirização enfrente esses problemas e não sua suposta utilidade depois de implantada.

O céu é o limite!

João pirão (Outro)

Lendo o texto já poderia imaginar de onde pertence o autor. Quando li suas referências tive certeza. O que não consegui digerir é que o mesmo autor é colaborador da OIT. Da medo pensar nas mãos em que a gente confia alguns órgãos, no país e no Mundo... Porem me senti a vontade com o penúltimo parágrafo.
Sim, a terceirização é um fato, é necessária, e deve ser bem estudada com carinho, não só por grandes pensadores como o do texto, e que já chegaram a se remediar na vida, mas também por aquele que deve ser afetado diretamente, que sentirá na pele as novas regras. Pois quem já trabalhou como terceirizado, não numa multinacional ou similar, não jogaria tantas flores neste assunto.
As pessoas comuns nunca serão a peça chave desse sistema. Cabe a elas se adaptarem e suportarem as consequências, mas deveriam ser bem informadas antes do que é ter um CNPJ como identidade laboral e não uma carteira de trabalho. Tudo em nome da "geração de empregos". Logo virá a quarteirização, depois a quinteirização, e assim por diante... O buraco será sempre mais embaixo.

Porém...

Mentor (Advogado Autônomo - Trabalhista)

Dentro do contexto nacional a terceirização não é pautada na eficiência dos serviços, mas na contenção de despesas e burla aos encargos trabalhistas, fiscais e previdenciários.
Por fim falar sobre a ideia, deve-se observar a prática.

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