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Embargos Culturais

Machado de Assis e Confeitaria do Custódio mostram hipocrisia da política

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Nas páginas de Esaú e Jacó[1] encontramos irônica passagem de Machado de Assis que nos revela a pouquíssima participação popular que resultou na Proclamação da República. Trata-se da amena cena da Padaria do Custódio; por causa da placa identificadora daquele estabelecimento, uma confeitaria, republicanos e monarquistas se enfrentaram: é o máximo de politização que se esperava na defenestração das instituições do império.

Para o escritor fluminense, parece-me hoje, a disputa em torno da identificação de uma padaria simbolizava o descaso que a vida política suscitava na população. Afinal, seria a padaria da República ou a padaria do Império ou, ainda, haveria alguma solução intermediária?

Tudo se deu nos dias da Proclamação da República, meados de novembro de 1889. A queda do império fora instigada pela questão social decorrente da abolição da escravidão, pela questão militar através da qual os militares prostraram-se contra D. Pedro II e pela questão religiosa, que valeu a D. Pedro II a oposição de substanciais setores da Igreja. São as chamadas três questões que teriam sido responsáveis pela queda do imperador: a questão social, a questão militar e a questão religiosa. De resto, o segundo reinado esgotara-se na própria seiva.

Ao que consta, escravagistas pretendiam uma indenização pela perda dos escravos, que não foi paga; uma mácula a menos na triste e vergonhosa história da exploração do trabalho escravo. A abolição da escravidão entre nós se deu quando essa forma odiosa de exploração já fora banida alhures. Esse drama descortina mais uma simulação de uma história que sistematicamente tentou amenizar um problema crucial, dulcificando-o, com a falsa imagem de um imaginário brasileiro, que seria bonzinho e tolerante.

Os militares, fomentados pela doutrina positivista, se irritaram com a intromissão de D. Pedro II em assuntos da caserna; a prisão de um dos principais líderes do exército, porque havia se pronunciado sobre o montepio militar, teria sido a gota d’água. Consubstanciou-se um ideal de salvação nacional, retomado com força no movimento tenentista da década de 1920, e de algum modo recauchutado no golpe de 1964.

A Igreja insurgiu-se contra o imperador porque ele não concordou com bula papal que determinava que os padres expulsassem de suas paróquias padres ligados à maçonaria. Aqui encontramos alguns elementos explicativos da laicização do Estado, tal como fixada no texto constitucional de 1891.

A Proclamação da República foi golpe de cima para baixo; além do que, ninguém se entendia, e pouca informação objetiva havia. O desencontro de opiniões era geral e segundo uma testemunha ocular o povo assistiu tudo bestializado, como se fosse uma parada militar; essa passagem, atribuída a Aristides Lobo, um dos propagandistas da república, tornou-se um mote de referência recorrente ao movimento. Esse tema, a participação popular no golpe republicano foi explorado em livro delicioso e muito bem pesquisado e escrito, de José Murilo de Carvalho[2].

Machado de Assis satirizou a situação, a indecisão, com enredo irônico. Trata-se da cena da tabuleta da padaria do Custódio. Esse indeciso personagem era dono de uma padaria para a qual encomendara uma placa com os dizeres Confeitaria do Império, nome pelo qual o estabelecimento era muito conhecido. Ao saber dos acontecimentos políticos, ordenara que se parasse a inscrição no “D”.

É que os republicanos de 15 de novembro poderiam destruir a placa, e a padaria, na continuidade, porquanto certamente não aceitariam uma confeitaria que lembraria a ordem deposta. De fato, os mais radicais eram os que se converteram no dia da proclamação...

Ainda que a placa já estivesse pronta, Custódio evitou usá-la. Ordenou, então, que se fizesse outra plaquinha, onde ler-se-ia Confeitaria da República. Porém, permanecia temeroso; uma reviravolta política poderia acontecer. Por sugestão do Conselheiro Ayres, Custódio decidiu-se por uma terceira opção, em nada comprometedora, a padaria chamar-se-ia Confeitaria do Governo...

Não parece ser muito diferente a situação contemporânea. Mudam-se plaquinhas, siglas, arranjos, adereços. A hipocrisia permanece para muitos como mote de ação: as aparências e nomes que damos a pessoas e coisas, infelizmente, sugerem a política como uma confeitaria na qual a pretensão de agradar supera a coragem de transformar.

 

[1] Machado de Assis, Esaú e Jacó, aqui me refiro a edição Martin Claret, de 2001. A primeira edição é da Garnier, Rio de Janeiro, 1904.

[2] Carvalho, José Murilo de, Os Bestializados, o Rio de Janeiro e a República que não foi, São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da USP. Doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP. Professor e pesquisador visitante na Universidade da California (Berkeley) e no Instituto Max-Planck de História do Direito Europeu (Frankfurt).

Revista Consultor Jurídico, 6 de dezembro de 2015, 8h02

Comentários de leitores

4 comentários

Um café e um sonho

Fernanda P. Barcellos (Outros)

Ah, esse Arnaldo da escrita galante e crítica precisa...

Confraria de papas

Macaco & Papagaio (Outros)

A História do Brasil é homogênea. Cheia de políticos e gentes oportunistas, com raras exceções de idealistas que ou foram pra os calabouços ou acabaram mortos pelos regimes unos.

Maravilha!

Jonas Sales Fernandes (Estudante de Direito)

Professor Arnaldo, muito obrigado por nos brindar com essas excelentes reflexões que envolvem, no mais das vezes, direito, política e literatura (da mais alta qualidade, registre-se, como percebemos com a escolha, por exemplo, de “Esaú e Jacó” para o texto desta semana).

Como amante de direito e de história - talvez na mesma medida -, me sinto realmente fascinado por textos desse quilate e que, infelizmente, pouco vemos, a não ser em suas colunas e em “Direito e Literatura”, que tem como um de seus coordenadores o professor Lenio Streck.

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